Edição 1 632 -19/1/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Criminosos menores são executados na maioridade
Gays já podem entrar para as Forças Armadas
Resgate aéreo no rali Paria–Dacar–Cairo
Bispo alemão pede a renúncia do papa
Luciano Pavarotti é investigado por evasão fiscal
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Crimes da mocidade

Americanos executam jovens que cometeram
homicídio antes de completar os 18 anos

Os Estados Unidos fizeram justiça à sua moda na semana passada. Na segunda-feira, executaram Douglas Christopher Thomas, autor de duplo homicídio, com uma injeção letal. Na quinta, foi a vez de Steve Edward Roach, assassino de uma avó de 70 anos. Na semana que vem, se tudo correr conforme o programado, será a vez de Glen McGinnis, que matou uma mulher durante tentativa de assalto. Um quarto, Anzel Jones, que estava para ser morto por estes dias, ganhou um adiamento. Além do passado sangrento, eles têm em comum o fato de terem cometido seus crimes antes de completar 18 anos. A surpreendente concentração de execuções de menores infratores neste mês fez rugir as organizações de direitos humanos e reacendeu o debate sobre a pena de morte. Nos anos 90, outros cinco países – Irã, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita e Iêmen – também puniram com a morte crimes praticados na menoridade. Mas desde 1997 só os Estados Unidos o fazem. A partir de 1976, quando a Suprema Corte permitiu a volta da pena de morte, depois de um hiato de quatro anos, 38 dos cinqüenta Estados puseram a funcionar o corredor da morte, e 23 deles decidiram que menores podem ser castigados como adultos.

A própria pena de morte tornou-se uma raridade no mundo civilizado. Foi abolida em quase todos os grandes países (a relação é de 106 sem execuções judiciais contra noventa, segundo a Anistia Internacional) e na União Européia é oficialmente vista como um tratamento bárbaro e injustificado, mesmo para os piores criminosos. Não é à toa que os campeões de execuções sejam nações sem maiores cuidados com os direitos humanos, como a China e a Arábia Saudita. As notáveis exceções são os Estados Unidos e o Japão. Mas, se os nipônicos matam com discrição e parcimônia, os americanos o fazem com estardalhaço, e há mais de 3.600 condenados no corredor da morte. Apesar de o movimento contra a pena capital ter obtido tantas vitórias internacionais, a maioria dos americanos ainda está do lado da turma da lei e da ordem. Uma das razões do prestígio do republicano George W. Bush, candidato à Presidência dos Estados Unidos, é sua condição de governador do Estado que mais executa prisioneiros, o Texas. Seu irmão, Jeb, governador da Flórida, mandou modernizar a cadeira elétrica do Estado e introduziu a injeção letal como alternativa no cumprimento das sentenças.

A pena capital para menores de idade é chocante por vários aspectos. A questão principal é a mesma que esquenta o debate brasileiro sobre a Febem: até que ponto um jovem imaturo pode ser responsabilizado por seus atos. A diferença é que no Brasil o menor de idade usufrui impunidade legal até para crimes de morte. Quando se trata de um rapazola, sempre se deve presumir a possibilidade de reabilitação – mas isso nunca se saberá se ele morrer. Discute-se, sobretudo, se o Estado que executa a sentença tem responsabilidade na formação do criminoso. Essa polêmica é especialmente intensa em torno do destino de Glen Charles McGinnis, que completou 27 anos na semana passada em sua cela numa prisão do Texas. Negro e pobre, filho de uma prostituta viciada em crack, ele foi espancado, queimado e violentado pelo padrasto e se criou nas ruas. O argumento vitorioso da promotoria é que nada disso faz diferença para a vítima, abatida com quatro balaços, ou para os filhos órfãos. De Thomas, que morreu na segunda-feira, dizia-se que era um ingênuo. Ele matou os pais da namorada, que discordavam do relacionamento, em um plano elaborado e executado pelo casal. Como ela tinha 14 anos no momento do crime, passou uma temporada no reformatório e foi libertada ao completar 21. Thomas, que matou aos 17, foi executado aos 26 anos. Crime e castigo ocorreram no Estado da Virgínia, onde até deficientes mentais podem ser condenados à morte depois dos 16 anos.

Steve Edward Roach morreu quatro meses antes de completar 24 anos. Desde que foi sentenciado, em 1995, pôs-se a estudar a Bíblia e pediu desculpa à família de sua vítima. "Só posso culpar a mim mesmo", dizia. "Mas eu já não sou a mesma pessoa." Desde pequeno, ele tinha contato com armas de fogo em casa. Três dias depois de matar uma vizinha de 70 anos com um tiro de espingarda para roubar seu carro, cartão de crédito e um pouco de dinheiro, uma tia o convenceu a se entregar à polícia. O júri popular entendeu que, se fosse simplesmente condenado à pena de prisão, poderia vir a receber liberdade condicional e tirar a vida de um inocente em outro ato de violência súbita. Também poderia regenerar-se e recomeçar a vida sem ameaçar ninguém. A tendência de encarar justiça como uma questão de "olho por olho, dente por dente" faz com que a sociedade americana seja implacável com criminosos, mesmo os mais jovens. Estão no corredor da morte cerca de setenta condenados que cometeram crimes antes de completar 18 anos. Não é uma história nova. A primeira execução de adolescente aconteceu em 1642, quando o país era colônia inglesa. O mais jovem tinha 14 anos, levado à cadeira elétrica em 1944 pelo assassinato de duas meninas. Visto o entusiasmo americano pela pena capital, as coisas vão continuar assim por muito tempo.

 

"Nós, no corredor"

Benetton
Condenada vista pela Benetton: a cara de quem vai morrer
 


"Eu acho que as pessoas gostam de ver os outros sofrerem." Para John Lotter, condenado à cadeira elétrica por assassinato, isso explica o prestígio popular da pena capital nos Estados Unidos. Lotter e outros 25 condenados são os personagens da nova campanha da Benetton, "Nós, no corredor da morte". Dessa vez, mais do que a exibição de imagens perturbadoras, a grife italiana usou fotos de Oliviero Toscani e declarações dos presos para dar cara às estatísticas das execuções americanas. As campanhas da Benetton sempre adotam temas polêmicos e imagens chocantes, algumas de mau gosto. Agora, o que fez foi comprar briga com a turma da lei e da ordem nos Estados Unidos. A organização Pro-Death Penalty (Pró-pena de morte) ameaçou boicotar os produtos Benetton. Também colocou na internet a lista dos crimes terríveis cometidos pelos personagens das fotos. Toscani ficou encantado. Ele não está interessado no comércio de roupas. O que vale é a polêmica.

Saiba mais

Pro-death penalty
Benetton