Energia
14 bilhões até agora
Esse foi o custo total do projeto
nuclear
em Angra dos Reis, que inaugura a
segunda usina ainda neste mês
Maurício Lima
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Fotos: Claudio Rossi

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Finalmente! Concluída a um preço cinco vezes mais elevado
do que o primeiro orçamento e entregue 23 anos depois de
iniciadas as obras, a usina nuclear de Angra 2 deve entrar
em operação nos próximos dias. Conforme a última versão
do cronograma, o reator será ligado em fevereiro, com potência
parcial. Em abril, atinge a capacidade total. Em números
absolutos, Angra 2 ocupa a terceira posição na lista das
usinas mais caras do país. Custou 10 bilhões de dólares,
ficando atrás de duas hidrelétricas: Itaipu (16 bilhões)
e Porto Primavera, no interior de São Paulo (10,3 bilhões).
Quando as contas são feitas considerando-se o custo por
quilowatt, no entanto, Angra 2 salta para o primeiro lugar
da lista. A implantação de cada um de seus quilowatts saiu
seis vezes mais cara do que Itaipu. Somados ao valor de
Angra 2 os custos de construção de Angra 1 (2,5 bilhões
de dólares) e o que já foi gasto com Angra 3 (1,5 bilhão),
próxima etapa do projeto, o programa nuclear consumiu 14
bilhões de dólares. Como as três usinas juntas vão gerar
apenas 4% da energia elétrica consumida no Brasil, é de
se perguntar: esses recursos foram bem empregados ou o projeto
não passa de mais uma aventura do governo?
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Sala de controle de Angra 2:
últimos testes antes
de colocar a usina
em funcionamento |
Do ponto de vista financeiro, não há dúvida. O Brasil
perdeu muito dinheiro em Angra dos Reis. Com o capital gasto
no projeto nuclear até aqui, seria possível construir cinco
usinas nucleares, não apenas três. No caso específico de
Angra 2, o desperdício é brutal. A usina foi contratada
em 1975 com um orçamento de 2 bilhões de dólares e um prazo
de entrega de cinco anos. Vê-se que deu tudo errado. Quanto
à possível aventura por parte do governo, a resposta é um
pouco mais complexa.
Gerar energia é um dos maiores e mais caros desafios de
uma nação em crescimento. De acordo com as projeções mais
recentes, calcula-se que a cada 1% de crescimento previsto
para o produto interno bruto, PIB, são necessários 2% de
aumento na produção de energia elétrica. Quando Angra foi
feita, a relação entre crescimento e necessidade de energia
era de 1 para 1. Como o PIB brasileiro crescia a uma média
de 8,6% ao ano na década de 70, seria preciso construir
uma Itaipu, acredite-se, a cada dois anos. Por mais que
tivesse rios caudalosos para abrigar hidrelétricas, as bacias
são finitas. Segundo as previsões da época, as alternativas
mais óbvias, gás e petróleo, estariam com as reservas comprometidas
em quarenta ou cinqüenta anos. O ingresso no mundo nuclear
parecia inevitável. Ainda mais porque o governo brasileiro
trabalhava com um cenário de crescimento que transformaria
o país numa superpotência do ano 2000.
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Com a entrada em operação
do reator
de Angra 2 (acima),
o complexo nuclear
vai gerar 2% da
energia consumida
em todo o país |
Bomba atômica Pode-se criticar o exagero ou
o otimismo nas previsões do governo, mas seria impróprio classificar
de aventura a busca por novas fontes de energia. "A discussão
termina quando o país atravessa um ciclo grande de crescimento.
Sem gás e novas hidrelétricas, não se pode abdicar da energia
nuclear", diz Ronaldo Fabrício, presidente da Eletronuclear,
estatal que toca o projeto de Angra. Dos 192 países existentes
no mundo, 32 utilizam a energia nuclear, entre eles todos
os países ricos. De 1960 a 1998, o uso de usinas atômicas
no mundo aumentou 343 vezes. Atualmente, existem 443 usinas
ao redor do globo.
O que torna o caso brasileiro diferente é a maneira como
a visão militar dada ao projeto interferiu nos rumos do
programa nuclear, e isso pode ser sentido até os dias de
hoje. Ele começou como um programa de geração de energia
e, em pouco tempo, tinha desdobramentos bélicos, o chamado
programa nuclear paralelo. Pudera. Em vez de ser tocado
pelo Ministério das Minas e Energia, o programa ficou sob
controle dos ministérios militares. A Marinha passou a construir
um submarino com propulsão nuclear e a trabalhar em parceria
com as demais forças no desenvolvimento da bomba atômica
brasileira. Coube a ela uma frente de pesquisa para atingir
o enriquecimento de urânio. O Exército manteve no Rio de
Janeiro até os anos 90 um laboratório que buscava o enriquecimento
por meio de outras técnicas. E a Aeronáutica trabalhava
na fabricação de um foguete que carregasse o artefato. Chegou-se
a montar um local de testes na Amazônia, os famosos buracos
da Serra do Cachimbo, na fronteira do Pará com Mato Grosso.
Walter Firmo
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| Geisel visita Angra em 1975: "Brasil grande" |
A partir dos anos 90, a verba dos ministérios
militares foi enxugada e tornou-se insuficiente para custear
despesas básicas, como o rancho da tropa, por exemplo. Ainda
assim, alguns gastos continuam a ser feitos. Há quinze dias,
a Marinha assinou um acordo com as Indústrias Nucleares
do Brasil, outra empresa estatal, para o fornecimento de
tecnologia para o enriquecimento de urânio. A empresa vai
produzir em Resende, no Estado do Rio, combustível para
abastecer as usinas Angra 1 e Angra 2. A força dos militares
no setor também pode ser medida por uma decisão do governo
envolvendo o programa de privatização. A usina de Angra
sempre esteve ligada a Furnas Centrais Elétricas. Antes
de ser incluída na lista de privatização, Furnas perdeu
a responsabilidade por Angra e foi criada uma nova estatal,
a Eletronuclear, para cuidar dela.
O capítulo atômico nacional começou com a compra de Angra
1 de uma empresa americana, a White Westinghouse, em 1969.
Os militares não ficaram satisfeitos porque os americanos
se recusavam a transferir a tecnologia do enriquecimento
de urânio. Dono da sexta maior reserva do mineral, o Brasil
queria dominar o processo para tornar-se independente dos
países estrangeiros. É um segredo que só outros nove países
possuem atualmente. Além do Brasil, são eles: Estados Unidos,
Rússia, Inglaterra, Alemanha, Holanda, França, Índia, Paquistão
e Israel. Em 1975, o presidente Ernesto Geisel assinou um
acordo de cooperação com a empresa alemã Siemens que previa
a construção de oito usinas nucleares e a tão almejada transferência
da tecnologia para o enriquecimento do urânio. Era a lógica
daquele tempo. Pelo mesmo sentimento nacionalista, o governo
havia criado a Petrobras e a Vale do Rio Doce, na década
de 50.

A energia nuclear surgiu na década de 30 como uma grande
resposta para os males da humanidade. Muitos cientistas
acreditavam que os problemas com a geração de energia estavam
definitivamente resolvidos. Tudo mudou quando os Estados
Unidos explodiram duas bombas atômicas no Japão durante
a II Guerra Mundial. O otimismo com a descoberta da nova
tecnologia deu lugar a um pavor extremo. Esse medo foi reforçado
por acidentes como o das usinas de Chernobyl, na antiga
União Soviética, e de Three Mile Island, nos Estados Unidos.
Desde então, o debate em torno da energia nuclear tornou-se
pouco produtivo, pois mistura argumentos técnicos e emocionais.
A energia atômica é, sem sombra de dúvida, a que menos agride
o meio ambiente. Da mesma forma, é a mais perigosa em caso
de acidente. Qualquer deslize e uma fatia do país pode estar
comprometida por causa de um vazamento.
Próxima etapa, Angra
3
Claudio Rossi
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Caixas com equipamento
para a usina: um terço do
preço de Angra 2 |
O acordo de cooperação assinado com a Alemanha previa
a construção de oito usinas nucleares. O plano foi
abortado e Angra 3 vai ser, por enquanto, a última
a sair do papel. Ela será a maior das usinas do complexo
de Angra, com capacidade para gerar o dobro de energia
de Angra 2 e quatro vezes mais que Angra 1.
A boa notícia é que Angra 3 vai custar muito menos
que suas antecessoras e, promete-se, ficará pronta
em menos tempo. A previsão é de que entre em operação
em 2004 e custe menos de 3 bilhões de dólares. Se
a matriz energética brasileira não se alterasse até
lá, Angra 3 dobraria a participação da energia nuclear
na geração de eletricidade do país. Teríamos 4% de
toda a energia sendo produzida no complexo de Angra.
Boa parte dos equipamentos de Angra 3 já se encontra
no Brasil. Eles foram importados da Alemanha e estão
armazenados em imensos almoxarifados. Os caixotes
com a carga atômica pesam 10.300
toneladas e custaram 1,5 bilhão de dólares.
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