Edição 1 632 -19/1/2000

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Energia

14 bilhões até agora

Esse foi o custo total do projeto nuclear
em Angra dos Reis, que inaugura a
segunda usina ainda neste mês

Maurício Lima

Fotos: Claudio Rossi

Finalmente! Concluída a um preço cinco vezes mais elevado do que o primeiro orçamento e entregue 23 anos depois de iniciadas as obras, a usina nuclear de Angra 2 deve entrar em operação nos próximos dias. Conforme a última versão do cronograma, o reator será ligado em fevereiro, com potência parcial. Em abril, atinge a capacidade total. Em números absolutos, Angra 2 ocupa a terceira posição na lista das usinas mais caras do país. Custou 10 bilhões de dólares, ficando atrás de duas hidrelétricas: Itaipu (16 bilhões) e Porto Primavera, no interior de São Paulo (10,3 bilhões). Quando as contas são feitas considerando-se o custo por quilowatt, no entanto, Angra 2 salta para o primeiro lugar da lista. A implantação de cada um de seus quilowatts saiu seis vezes mais cara do que Itaipu. Somados ao valor de Angra 2 os custos de construção de Angra 1 (2,5 bilhões de dólares) e o que já foi gasto com Angra 3 (1,5 bilhão), próxima etapa do projeto, o programa nuclear consumiu 14 bilhões de dólares. Como as três usinas juntas vão gerar apenas 4% da energia elétrica consumida no Brasil, é de se perguntar: esses recursos foram bem empregados ou o projeto não passa de mais uma aventura do governo?

Sala de controle de Angra 2:
últimos testes antes
de colocar a usina
em funcionamento

Do ponto de vista financeiro, não há dúvida. O Brasil perdeu muito dinheiro em Angra dos Reis. Com o capital gasto no projeto nuclear até aqui, seria possível construir cinco usinas nucleares, não apenas três. No caso específico de Angra 2, o desperdício é brutal. A usina foi contratada em 1975 com um orçamento de 2 bilhões de dólares e um prazo de entrega de cinco anos. Vê-se que deu tudo errado. Quanto à possível aventura por parte do governo, a resposta é um pouco mais complexa.

Gerar energia é um dos maiores e mais caros desafios de uma nação em crescimento. De acordo com as projeções mais recentes, calcula-se que a cada 1% de crescimento previsto para o produto interno bruto, PIB, são necessários 2% de aumento na produção de energia elétrica. Quando Angra foi feita, a relação entre crescimento e necessidade de energia era de 1 para 1. Como o PIB brasileiro crescia a uma média de 8,6% ao ano na década de 70, seria preciso construir uma Itaipu, acredite-se, a cada dois anos. Por mais que tivesse rios caudalosos para abrigar hidrelétricas, as bacias são finitas. Segundo as previsões da época, as alternativas mais óbvias, gás e petróleo, estariam com as reservas comprometidas em quarenta ou cinqüenta anos. O ingresso no mundo nuclear parecia inevitável. Ainda mais porque o governo brasileiro trabalhava com um cenário de crescimento que transformaria o país numa superpotência do ano 2000.

Com a entrada em operação do reator
de Angra 2 (acima),
o complexo nuclear
vai gerar 2% da
energia consumida
em todo o país
Bomba atômica – Pode-se criticar o exagero ou o otimismo nas previsões do governo, mas seria impróprio classificar de aventura a busca por novas fontes de energia. "A discussão termina quando o país atravessa um ciclo grande de crescimento. Sem gás e novas hidrelétricas, não se pode abdicar da energia nuclear", diz Ronaldo Fabrício, presidente da Eletronuclear, estatal que toca o projeto de Angra. Dos 192 países existentes no mundo, 32 utilizam a energia nuclear, entre eles todos os países ricos. De 1960 a 1998, o uso de usinas atômicas no mundo aumentou 343 vezes. Atualmente, existem 443 usinas ao redor do globo.

O que torna o caso brasileiro diferente é a maneira como a visão militar dada ao projeto interferiu nos rumos do programa nuclear, e isso pode ser sentido até os dias de hoje. Ele começou como um programa de geração de energia e, em pouco tempo, tinha desdobramentos bélicos, o chamado programa nuclear paralelo. Pudera. Em vez de ser tocado pelo Ministério das Minas e Energia, o programa ficou sob controle dos ministérios militares. A Marinha passou a construir um submarino com propulsão nuclear e a trabalhar em parceria com as demais forças no desenvolvimento da bomba atômica brasileira. Coube a ela uma frente de pesquisa para atingir o enriquecimento de urânio. O Exército manteve no Rio de Janeiro até os anos 90 um laboratório que buscava o enriquecimento por meio de outras técnicas. E a Aeronáutica trabalhava na fabricação de um foguete que carregasse o artefato. Chegou-se a montar um local de testes na Amazônia, os famosos buracos da Serra do Cachimbo, na fronteira do Pará com Mato Grosso.

Walter Firmo
Geisel visita Angra em 1975: "Brasil grande"

A partir dos anos 90, a verba dos ministérios militares foi enxugada e tornou-se insuficiente para custear despesas básicas, como o rancho da tropa, por exemplo. Ainda assim, alguns gastos continuam a ser feitos. Há quinze dias, a Marinha assinou um acordo com as Indústrias Nucleares do Brasil, outra empresa estatal, para o fornecimento de tecnologia para o enriquecimento de urânio. A empresa vai produzir em Resende, no Estado do Rio, combustível para abastecer as usinas Angra 1 e Angra 2. A força dos militares no setor também pode ser medida por uma decisão do governo envolvendo o programa de privatização. A usina de Angra sempre esteve ligada a Furnas Centrais Elétricas. Antes de ser incluída na lista de privatização, Furnas perdeu a responsabilidade por Angra e foi criada uma nova estatal, a Eletronuclear, para cuidar dela.

O capítulo atômico nacional começou com a compra de Angra 1 de uma empresa americana, a White Westinghouse, em 1969. Os militares não ficaram satisfeitos porque os americanos se recusavam a transferir a tecnologia do enriquecimento de urânio. Dono da sexta maior reserva do mineral, o Brasil queria dominar o processo para tornar-se independente dos países estrangeiros. É um segredo que só outros nove países possuem atualmente. Além do Brasil, são eles: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, Alemanha, Holanda, França, Índia, Paquistão e Israel. Em 1975, o presidente Ernesto Geisel assinou um acordo de cooperação com a empresa alemã Siemens que previa a construção de oito usinas nucleares e a tão almejada transferência da tecnologia para o enriquecimento do urânio. Era a lógica daquele tempo. Pelo mesmo sentimento nacionalista, o governo havia criado a Petrobras e a Vale do Rio Doce, na década de 50.

A energia nuclear surgiu na década de 30 como uma grande resposta para os males da humanidade. Muitos cientistas acreditavam que os problemas com a geração de energia estavam definitivamente resolvidos. Tudo mudou quando os Estados Unidos explodiram duas bombas atômicas no Japão durante a II Guerra Mundial. O otimismo com a descoberta da nova tecnologia deu lugar a um pavor extremo. Esse medo foi reforçado por acidentes como o das usinas de Chernobyl, na antiga União Soviética, e de Three Mile Island, nos Estados Unidos. Desde então, o debate em torno da energia nuclear tornou-se pouco produtivo, pois mistura argumentos técnicos e emocionais. A energia atômica é, sem sombra de dúvida, a que menos agride o meio ambiente. Da mesma forma, é a mais perigosa em caso de acidente. Qualquer deslize e uma fatia do país pode estar comprometida por causa de um vazamento.

 

Próxima etapa, Angra 3

Claudio Rossi
Caixas com equipamento
para a usina: um terço do
preço de Angra 2


O acordo de cooperação assinado com a Alemanha previa a construção de oito usinas nucleares. O plano foi abortado e Angra 3 vai ser, por enquanto, a última a sair do papel. Ela será a maior das usinas do complexo de Angra, com capacidade para gerar o dobro de energia de Angra 2 e quatro vezes mais que Angra 1.

A boa notícia é que Angra 3 vai custar muito menos que suas antecessoras e, promete-se, ficará pronta em menos tempo. A previsão é de que entre em operação em 2004 e custe menos de 3 bilhões de dólares. Se a matriz energética brasileira não se alterasse até lá, Angra 3 dobraria a participação da energia nuclear na geração de eletricidade do país. Teríamos 4% de toda a energia sendo produzida no complexo de Angra.

Boa parte dos equipamentos de Angra 3 já se encontra no Brasil. Eles foram importados da Alemanha e estão armazenados em imensos almoxarifados. Os caixotes com a carga atômica pesam 10.300 toneladas e custaram 1,5 bilhão de dólares.