O grito de Calabi
O presidente do BNDES declara
guerra ao
estrangeiro em defesa do capital nacional
Leandra Peres
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O presidente do BNDES,
Andrea Calabi, recebeu
de FHC a missão de mudar
o banco |
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social,
BNDES, a maior fonte financiadora do governo para empresários,
está trocando o pêlo. Na semana passada, três de seus principais
diretores saíram em férias avisando que não voltam para
o banco. José Luiz Osório, da área de privatização e cunhado
do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, pegou o boné
e vai assumir a direção da Comissão de Valores Mobiliários.
Fernando Perrone, responsável pelo setor de infra-estrutura,
e Eduardo Rath Fingerl, da indústria, são os outros dois
a abandonar o barco. Na origem da dança das cadeiras está
a nova orientação adotada pelo banco. O comando do BNDES,
sensível às mudanças na direção do vento político, resolveu
adotar o discurso auriverde desde que o ministro Alcides
Tápias assumiu a pasta do Desenvolvimento. O banco, que
até 1999 emprestou 1,2 bilhão de reais para empresas estrangeiras
participarem da privatização, pretende agora dar uma força
maior às nacionais. "Nosso objetivo é tornar o capital
nacional tão competitivo quanto o estrangeiro", diz
Andrea Calabi, presidente do banco.
As pegadas verde-amarelas de Calabi podem ser vistas em
vários negócios recentes em que o banco se envolveu. Num
deles, no setor petroquímico, o presidente do BNDES chegou
a tropeçar com Armínio Fraga, chefão do Banco Central. O
caso é curioso e ainda deve dar pano para mangas. Acontece
que o Banco Central se tornou dono de uma parte da empresa
petroquímica Copene quando assumiu a massa falida do Banco
Econômico. Agora, quer livrar-se do patrimônio pelo melhor
preço. Para isso, o BC montou uma operação em conjunto com
os grupos Odebrecht e Mariani, também sócios da Copene,
para vender o controle da empresa à gigante americana Dow
Chemical. Uma estrangeira. Na outra ponta, candidato a comprar
a empresa, o grupo Ultra, nacional e menos pujante do que
a Dow.
Ao saber desse acerto do Banco Central com os grupos Odebrecht
e Mariani, Calabi resolveu gritar, para fazer valer a nova
política de defender a bandeira nacional nos setores-chave
da economia. Ele procurou Armínio Fraga para tentar desfazer
o acordo. Não foi feliz. A saída que encontrou foi turbinar,
com 750 milhões de reais, uma sociedade com o grupo Ultra
para entrar na Copene. "Se não houvesse esse acordo
do Banco Central, poderíamos ter entrado na Copene sem o
dinheiro do BNDES", diz Paulo Cunha, presidente do
Ultra. A intervenção do BNDES pode ser decisiva para manter
a Copene sob controle do capital nacional. Deve render também
um bônus político para o governo. Afinal, o dono do grupo
Ultra é também um dos mais atuantes membros do Instituto
de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, o Iedi, uma
confraria de grandes empresários nacionais muito organizados
e especializados em arrancar benefícios públicos.
O BNDES também atravessou um negócio importante que vinha
sendo costurado no setor siderúrgico. O empresário Benjamin
Steinbruch estava negociando a venda de ações na CSN e na
Companhia Vale do Rio Doce à mineradora Arbed, com sede
em Luxemburgo. Estava. O governo resolveu agir. Nesse caso,
foi o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso que entrou
em ação. Mandou a Steinbruch o recado de que não quer ver
a Vale do Rio Doce em mãos estrangeiras. A solução Arbed
foi para a gaveta e o BNDES passou a articular uma saída
nacional. No lugar da Arbed entraria de novo o dinheiro
do contribuinte, dessa vez por meio da Previ, fundo de pensão
do Banco do Brasil, e em companhia do Bradesco, que já são
sócios de Steinbruch na Vale.
Essa é a toada com que o BNDES pretende usar seus recursos
e poder daqui em diante. Não há mais disposição no banco
para financiar os estrangeiros na compra das estatais mais
apetitosas. Só as menos concorridas, principalmente do Nordeste,
para onde será mais difícil atrair capitais, estariam livres
dessa nova regra. "Para as empresas mais maduras, haverá
algumas limitações de financiamento ao capital estrangeiro",
diz Calabi. E, sempre que possível, o banco tentará fazer
a balança pender para o lado do capital nacional. Foi o
que aconteceu no caso da venda do Projeto Jari o frustrado
empreendimento do bilionário americano Daniel Keith Ludwig,
no Amapá, que agora encontrou candidatos dispostos a reativá-lo.
O grupo brasileiro Orsa, com financiamento do banco, venceu
a disputa com o canadense Tembec e deverá ficar com o que
restou do projeto na área de celulose.
Ao promover essas mudanças, Calabi está sofrendo fortes
resistências. A saída de três diretores do banco é sintomática.
José Luiz Osório não estava satisfeito com o fato de a privatização
estar parada. No acordo com o Fundo Monetário Internacional,
o Brasil previa arrecadar 28 bilhões de reais com a privatização
em 1999. Só obteve 7,6 bilhões. "Não há entraves técnicos
além dos habituais. A questão do atraso nas privatizações
é política", diz Gustavo Franco, ex-presidente do Banco
Central. O novo modelo de atuação do BNDES parece desafinado
em relação à política econômica recente e pode sugerir uma
volta ao passado. Nos tempos em que o país vivia como uma
autarquia, isolado do mercado internacional por muros altos
que protegiam as empresas locais, era o BNDES que viabilizava
os projetos dos empresários nacionais os bons, os maus
e os malucos. O empresário entrava com a idéia, o banco
com o dinheiro e o contribuinte com o risco. Tudo em nome
do nacionalismo e do desenvolvimento. O viés nacionalista
foi temporariamente abandonado nos últimos anos, quando
prevaleceu a onda da abertura do mercado à concorrência
estrangeira. Partiu-se, então, para o extremo oposto, com
o banco financiando potências empresariais estrangeiras
na disputa com as nacionais. Na ânsia de fazer caixa em
dólar com as privatizações, o governo usou todos os recursos
que tinha à mão.
A volta ao discurso nacionalista tem razões econômicas
e políticas. Desde que iniciou o segundo mandato, o presidente
Fernando Henrique Cardoso tem tentado dar um tom mais desenvolvimentista
a seu governo. Agora, sem grandes turbulências na economia,
o governo acredita ter chegado o momento de estabelecer
uma estratégia de desenvolvimento nacional mais clara. A
inflação está controlada, os juros contidos, há uma aparente
folga cambial e um ingresso de 2 bilhões de dólares ao mês
de dinheiro de fora para investimentos. Livre da necessidade
desesperada de atrair capitais estrangeiros em grande quantidade,
o governo encontrou espaço para equilibrar melhor os pratos
da balança. Ofereceu aos empresários nacionais recursos
em quantidade e a preços competitivos, como os que os estrangeiros
obtêm lá fora. É uma operação complicada, porque há o risco
de os estrangeiros interpretarem esses movimentos como um
gesto inamistoso. Outro risco é que, sob o carimbo do nacionalismo,
o dinheiro público vá regar de novo projetos inviáveis.
A conferir.