Obra do demônio
Ilustração: Alê Setti
Eu
sou um mau jogador de xadrez. Pior do que eu, só
o escritor americano Gore Vidal. Eu o conheci em 1987, quando
ele visitou o Brasil para o lançamento de um livro
de ensaios. A minha tarefa era levá-lo de um lado
para o outro, servindo-lhe de intérprete. Viramos
amigos. Ou melhor, eu digo a todo mundo que sou seu amigo,
mas ele mal me reconhece. Ainda assim, alguns anos atrás,
gentilmente me convidou a passar dois ou três dias
em sua casa no sul da Itália, em Ravello. Jogávamos
xadrez por horas e horas. Ele perdia sempre. Essas derrotas
o irritavam tanto que se recusava a falar comigo pelo resto
do dia e era obrigado a tomar umas bolinhas para diminuir
o ritmo cardíaco.
Para quem nunca jogou xadrez, pode parecer exagero de
sua parte, mas garanto que nada é mais humilhante
do que um xeque-mate. No começo do ano, deram-me
de presente um programa de xadrez para o computador. Está
arruinando minha vida. Jogo cerca de uma dúzia de
partidas por dia. E perco todas. A coisa acabou por abalar
irremediavelmente minha auto-estima e minha autoconfiança.
Já abandonei o romance que estava escrevendo. Agora,
também começo a negligenciar esta coluna.
Um verdadeiro desastre.
Conto essa historinha apenas porque ela me ensinou algo
novo. Algo que pode ser útil para você também,
sobretudo se tem um filho. A imprensa italiana sempre aparece
com notícias a respeito de bandos de adolescentes
que cometem alguma atrocidade. Primeiro, houve os adolescentes
que, do alto dos viadutos, atiravam blocos de pedra nos
carros que passavam, estilhaçando-lhes o vidro. Uma
moça morreu por causa disso. Depois, vieram os adolescentes
estupradores, que despontavam em todas as cidades italianas.
Os últimos a surgir foram os adolescentes que espancavam
seus coetâneos e roubavam-lhes os telefones celulares.
É inacreditável a quantidade de enquetes jornalísticas
que os italianos fizeram sobre o assunto, investigando os
hábitos desses adolescentes. Um elemento une todos
eles: os jogos eletrônicos.
Eu nunca confiei em enquetes jornalísticas. E nunca
acreditei que um filme, ou um desenho animado, ou um jogo
eletrônico pudesse desencadear surtos de violência.
Depois que o programa de xadrez tomou conta da minha mente,
porém, fui obrigado a mudar de idéia. A nossa
é uma sociedade lúdica. A primeira coisa que
aprendemos é nos identificar com o personagem que
interpretamos em nossos jogos. Detesto parecer moralista,
mas o troço é altamente preocupante. E se,
por exemplo, os narcotraficantes inventassem um joguinho?
Na primeira fase, o herói narcotraficante teria de
fugir da cadeia. Na segunda, corromperia políticos.
Na terceira, sobrevoaria a selva amazônica com pouco
combustível no bimotor. Na quarta, engoliria papelotes
de cocaína e teria um tempo delimitado para chegar
à Europa antes que eles se diluíssem em sua
barriga. Tenho certeza de que os adolescentes se identificariam
com os narcotraficantes e passariam a vê-los com maior
simpatia. Jogo eletrônico é obra do demônio.