Edição 1 632 -19/1/2000

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Obra do demônio

Ilustração: Alê Setti
Eu sou um mau jogador de xadrez. Pior do que eu, só o escritor americano Gore Vidal. Eu o conheci em 1987, quando ele visitou o Brasil para o lançamento de um livro de ensaios. A minha tarefa era levá-lo de um lado para o outro, servindo-lhe de intérprete. Viramos amigos. Ou melhor, eu digo a todo mundo que sou seu amigo, mas ele mal me reconhece. Ainda assim, alguns anos atrás, gentilmente me convidou a passar dois ou três dias em sua casa no sul da Itália, em Ravello. Jogávamos xadrez por horas e horas. Ele perdia sempre. Essas derrotas o irritavam tanto que se recusava a falar comigo pelo resto do dia e era obrigado a tomar umas bolinhas para diminuir o ritmo cardíaco.

Para quem nunca jogou xadrez, pode parecer exagero de sua parte, mas garanto que nada é mais humilhante do que um xeque-mate. No começo do ano, deram-me de presente um programa de xadrez para o computador. Está arruinando minha vida. Jogo cerca de uma dúzia de partidas por dia. E perco todas. A coisa acabou por abalar irremediavelmente minha auto-estima e minha autoconfiança. Já abandonei o romance que estava escrevendo. Agora, também começo a negligenciar esta coluna. Um verdadeiro desastre.

Conto essa historinha apenas porque ela me ensinou algo novo. Algo que pode ser útil para você também, sobretudo se tem um filho. A imprensa italiana sempre aparece com notícias a respeito de bandos de adolescentes que cometem alguma atrocidade. Primeiro, houve os adolescentes que, do alto dos viadutos, atiravam blocos de pedra nos carros que passavam, estilhaçando-lhes o vidro. Uma moça morreu por causa disso. Depois, vieram os adolescentes estupradores, que despontavam em todas as cidades italianas. Os últimos a surgir foram os adolescentes que espancavam seus coetâneos e roubavam-lhes os telefones celulares. É inacreditável a quantidade de enquetes jornalísticas que os italianos fizeram sobre o assunto, investigando os hábitos desses adolescentes. Um elemento une todos eles: os jogos eletrônicos.

Eu nunca confiei em enquetes jornalísticas. E nunca acreditei que um filme, ou um desenho animado, ou um jogo eletrônico pudesse desencadear surtos de violência. Depois que o programa de xadrez tomou conta da minha mente, porém, fui obrigado a mudar de idéia. A nossa é uma sociedade lúdica. A primeira coisa que aprendemos é nos identificar com o personagem que interpretamos em nossos jogos. Detesto parecer moralista, mas o troço é altamente preocupante. E se, por exemplo, os narcotraficantes inventassem um joguinho? Na primeira fase, o herói narcotraficante teria de fugir da cadeia. Na segunda, corromperia políticos. Na terceira, sobrevoaria a selva amazônica com pouco combustível no bimotor. Na quarta, engoliria papelotes de cocaína e teria um tempo delimitado para chegar à Europa antes que eles se diluíssem em sua barriga. Tenho certeza de que os adolescentes se identificariam com os narcotraficantes e passariam a vê-los com maior simpatia. Jogo eletrônico é obra do demônio.