Edição 1 632 -19/1/2000

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A era das certezas

O secretário de Tesouro dos Estados Unidos diz
que o mundo voltará a crescer
e que o Brasil está no caminho certo

Eurípedes Alcântara

 
Nelio Rodrigues

"A tecnologia da informação
pode mudar o mundo assim
como a eletricidade e
as locomotivas fizeram
ao longo do século"


Ao ser indicado pelo presidente americano Bill Clinton para substituir Robert Rubin, o mais popular secretário do Tesouro dos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial, o economista Larry Summers, de 45 anos, foi recebido com uma mistura de alívio e receio. Alívio porque Summers, Ph.D. em economia pela Universidade Harvard e dono de uma sólida carreira acadêmica, era o sub-secretário do Tesouro na gestão Rubin. A escolha, nesse aspecto, significava a continuidade da política que levou a economia americana a um desempenho inigualável, marcado por taxas de crescimento entre as mais altas do século que passou e por índices de desemprego entre os mais baixos da História. O receio devia-se ao temperamento de Summers. Os críticos atribuem a ele o defeito de pretender demonstrar seu brilhantismo durante todo o tempo. O temor era de que o economista deixasse seu ego atrapalhar tudo. "Larry Summers está para a humildade assim como a cantora Madonna está para a castidade", escreveu The Wall Street Journal, especializado em assuntos econômicos. Summers falou a VEJA.

Veja – Como o senhor avalia o desempenho recente da economia brasileira?
Summers –
O Brasil deu passos muito efetivos nos últimos anos e por causa deles teve o apoio da comunidade internacional. Mas esse apoio só foi dado porque os dirigentes brasileiros tomaram decisões na direção que o mundo considera correta. Particularmente acredito que o futuro da economia brasileira pode ser brilhante, dada a tremenda energia econômica latente no país.

Veja – O que falta para o Brasil voltar a crescer mais vigorosamente?
Summers –
O Brasil tem algumas prioridades que, a meu ver, são cruciais para seu futuro. Elas incluem o reforço da disciplina fiscal e uma reforma efetiva do sistema previdenciário. O programa de privatizações deve ser ampliado. A longo prazo, é preciso fazer investimentos maciços no povo brasileiro. Os gastos sociais são necessários porque o povo é o bem mais valioso de uma nação. Qualquer pessoa bem-intencionada que olhar para o Brasil notará que a educação, principalmente a educação básica para todas as crianças, salta aos olhos como uma prioridade.

Veja – O presidente Fernando Henrique Cardoso disse certa vez que tem em mãos "a escolha de Sofia". Ou promove o crescimento da economia ou controla o déficit público e equilibra o Orçamento. De que forma esse dilema pode ser resolvido?
Summers –
O país está vivendo um momento em que terá de tomar decisões cruciais. Governar nada mais é do que fazer escolhas difíceis. A meu ver, o Brasil não precisa de mais governo. Precisa de melhor governo, de políticas que reorientem as prioridades do país em direção às áreas em que o investimento dará maior retorno. Entre essas áreas, a meu ver, sobressai com destaque a da educação das crianças.

Veja – O senhor crê que a definição da educação infantil como prioridade ajudaria o Brasil a atrair mais investimentos internacionais?
Summers –
Sem dúvida. O capital estrangeiro escolhe um determinado país para se alojar levando em conta três fatores. O primeiro é a percepção no país de origem do investimento de que há estabilidade financeira no país de destino dos recursos. Esse sentimento é dado pelo equilíbrio do orçamento e pelas políticas monetárias. O segundo fator é a capacidade que esse país terá no sentido de se mostrar atraente para os negócios. Essa capacidade é derivada da política estrutural, das privatizações e de uma série de outros aspectos. O terceiro fator é a produtividade da economia. É aí que entram os recursos naturais e, mais importante do que qualquer outro aspecto, a qualidade da mão-de-obra.

Veja – No que diz respeito à estabilidade financeira, como o Brasil é visto hoje em dia? O senhor acredita numa situação internacional mais estável no futuro próximo?
Summers –
Do ponto de vista da estabilidade financeira, creio que o Brasil deu passos importantes. Houve a mudança do regime de taxas de câmbio, o estabelecimento de um sistema de metas inflacionárias e, para completar, a adoção de uma política de disciplina fiscal. Esses passos foram percebidos de fora como muito construtivos do ponto de vista da estabilidade financeira do Brasil.

Veja – Quais são suas previsões para a economia mundial nos próximos anos?
Summers –
O mundo passou por um período relativamente difícil, mas os sinais de melhora são claros. A economia dos Estados Unidos está forte. Há sinais de aumento das taxas de crescimento da Europa e do Japão. Há muito trabalho pela frente, mas há sinais de confiança crescente que aplainam as dificuldades dos mercados emergentes e os ajuda a superar obstáculos. A Coréia do Sul, um dos primeiros países a ser abalados pela crise do final dos anos 90, teve um crescimento de 8% em 1999. A perspectiva é de um período de melhora gradual nas condições econômicas do mundo. Mas claro que é sempre prudente evitar a autoconfiança excessiva.

Veja – Qual o papel da China nesse processo? O pedido de ingresso do país na Organização Mundial do Comércio, a OMC, e os sinais positivos que Pequim tem mandado para o Ocidente são confiáveis e saudáveis para a economia mundial?
Summers –
Considero a entrada da China na Organização Mundial do Comércio um passo crucial para a estabilização da economia mundial. Nós estamos ansiosos para ver a China na OMC. Como integrante da organização, a China terá mais apoio internacional para promover suas reformas econômicas e para seu esforço de abertura comercial.

Veja – O senhor forma entre os que acreditam que a economia americana mudou drasticamente de patamar, a tal ponto que a velha teoria econômica não pode mais explicar tanta prosperidade e estabilidade ?
Summers –
O presidente Clinton e todos nós na sua administração lutamos para criar uma nova economia baseada em virtudes antigas. Isso significa tirar vantagem de todo o poder da informação e da tecnologia atuais. Um Ford Taurus tem mais eletrônica embarcada do que a cápsula do projeto Apollo, que levou o homem à Lua. O enorme poder da tecnologia da informação, das telecomunicações, da biotecnologia tem capacidade para mudar as economias, assim como as ferrovias e a eletricidade mudaram o mundo no século que se encerrou. Mas ainda assim o crescimento econômico e a estabilidade dependem de valores conhecidos há um bom tempo. Dependem de poupança, de mão-de-obra qualificada, de um sistema financeiro eficiente. Dependem de evitar que os governos gastem mais do que arrecadam. Dependem de uma política monetária eficaz. Portanto, creio que há mudanças muito profundas na nossa economia. Mas nenhuma delas nos dá o direito de ignorar verdades econômicas já estabelecidas.

Veja – Então é tola a idéia do fim dos ciclos econômicos, que trazem recessão ou resfriamento econômico ao final de cada etapa de expansão?
Summers –
O excesso de confiança é sempre autodestrutivo. Principalmente se levar a planos de expansão da economia pouco realistas e à criação de capacidade de produção acima do que o mercado é capaz de absorver ou a outras medidas sem base sólida de sustentação.

Veja – O senhor concorda que o maior ensinamento econômico do século passado é que a tentação de planejar a economia conduz inevitavelmente à servidão?
Summers –
Eu diria que a grande lição do século XX foi a demonstração do enorme potencial que os mercados abertos e os povos livres têm para atingir grandes objetivos e melhorar suas vidas. São mercados construídos sob o signo do direito. É a observância à lei que estabelece a ordem e uma base para o intercâmbio voluntário de mercadorias e de serviços. Eu diria que essa é a maior lição do século que terminou: povos livres e mercados abertos, eficientemente regidos por leis e apoiados pelos governos, podem gerar e manter taxas de crescimento econômico inimagináveis no começo do século.

Veja – Considerando que a maioria dos países está caminhando nessa direção, é correto acreditar que se está entrando numa era de ouro para a economia mundial?
Summers –
Creio que o momento atual oferece grandes possibilidades, mas cabe a nós determinar como tiraremos vantagem delas. Os governos que gerarem instabilidade financeira e caírem nas mãos do populismo poderão atrasar drasticamente o processo. Nesse caso, grandes oportunidades podem ser perdidas.

Veja – No Brasil, e na maioria dos países em desenvolvimento, há o sentimento forte de que a globalização tem sido lucrativa apenas para os Estados Unidos. Isso é verdade?
Summers –
O maior potencial da globalização está nas mãos dos países com mais espaço para transformações. E esses, a meu ver, são justamente os países em desenvolvimento. São eles que têm mais possibilidade de ganhar mercados para seus produtos. Da mesma forma, têm a oportunidade de importar tecnologia, experiência e conhecimento. Se há uma grande mudança promovida pela globalização, foi justamente essa. Estamos vivendo um período da história humana no qual as nações em desenvolvimento têm tudo para alcançar os países desenvolvidos. No início do século XX, um processo assim teria sido impossível.

Veja – Por que teria ficado mais fácil para os países em desenvolvimento chegar à prosperidade?
Summers –
Creio que, num cenário mais global e aberto, a oportunidade de os países em desenvolvimento se integrarem à economia mundial e tirarem benefícios dessa integração é muito maior.

Veja – Qual deverá ser o maior desafio para os Estados Unidos na primeira década do século XXI?
Summers –
Como país, nós temos três grandes desafios. O primeiro é manter nossa economia forte e em expansão. O segundo é continuar servindo de exemplo para outros países. O terceiro é apoiar um sistema econômico global forte e estável, pois só seremos prósperos numa economia mundial forte e estável.

Veja – De acordo com os mais recentes pronunciamentos oficiais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, está cada vez mais claro que os países ricos estão endurecendo o jogo na hora de financiar as nações pobres. Eles querem medidas de controle da poluição e de combate à corrupção. Em alguns desses casos, as exigências não ultrapassam o limite do razoável?
Summers –
O melhor que nós podemos fazer pelos outros países é desenvolver nossa economia e ficar ainda maiores. É abrir ainda mais nosso mercado para bens e serviços estrangeiros. Isso é o que de mais vital podemos fazer. Creio que podemos também solidificar nossos próprios programas de ajuda ao exterior e aprofundar mais ainda nossa participação em instituições financeiras internacionais. Certamente, teremos de trabalhar para deixar essas instituições tão eficazes quanto possível. Eu acho que nós aprendemos algo sobre o significado da inclusão social e da democracia, que têm moldado mais e mais as decisões dos organismos internacionais. Alguns países que nunca contaram com financiamentos dos organismos internacionais poderão beneficiar-se caso façam as escolhas certas. Isso é muito bom.

Veja – Como secretário do Tesouro o senhor coloca a própria assinatura nas novas cédulas de dólar. Qual é a sensação?
Summers –
Jovens atores sonham em ver seu nome famoso. Jovens economistas sonham em ver um dia seu nome na moeda nacional. Foi um momento muito excitante para mim.

Veja – Que conselho o senhor dá a quem, em vez de cédulas, assina cheques?
Summers –
O conselho que posso dar a todos é olhar sempre para o horizonte e buscar melhorar, mas fazer seus planos da forma mais conservadora e cuidadosa possível.

Veja – O senhor inclui entre os desafios dos Estados Unidos manter sua economia aberta. Mas, no Brasil, o mercado americano é visto como um espaço fechado, em que a entrada de nossos produtos é dificultada das mais variadas maneiras. Que tipo de país são os Estados Unidos? Afinal, a economia americana é fechada ou aberta?
Summers –
Faz tempo que os Estados Unidos fazem parte do esforço global de abertura de mercados. Como o maior e o mais aberto mercado do mundo, não nos envergonhamos de nenhuma medida nessa área. Se você observar diversas medidas de importação adotadas por países em desenvolvimento, verá que os Estados Unidos sobressaem pela boa vontade em aceitar importações. Não como um ato de caridade com esse ou aquele país, mas porque reconhecemos a importância e os benefícios que essas mercadorias trazem para os consumidores que vivem nos Estados Unidos.