A era das certezas
O secretário de Tesouro dos Estados
Unidos diz
que o mundo voltará a crescer
e que o Brasil está no caminho certo
Eurípedes Alcântara
Nelio Rodrigues
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"A tecnologia da informação
pode mudar o mundo assim
como a eletricidade e
as locomotivas fizeram
ao longo do século"
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Ao ser indicado pelo presidente americano Bill Clinton para
substituir Robert Rubin, o mais popular secretário
do Tesouro dos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial,
o economista Larry Summers, de 45 anos, foi recebido com uma
mistura de alívio e receio. Alívio porque Summers,
Ph.D. em economia pela Universidade Harvard e dono de uma
sólida carreira acadêmica, era o sub-secretário
do Tesouro na gestão Rubin. A escolha, nesse aspecto,
significava a continuidade da política que levou a
economia americana a um desempenho inigualável, marcado
por taxas de crescimento entre as mais altas do século
que passou e por índices de desemprego entre os mais
baixos da História. O receio devia-se ao temperamento
de Summers. Os críticos atribuem a ele o defeito de
pretender demonstrar seu brilhantismo durante todo o tempo.
O temor era de que o economista deixasse seu ego atrapalhar
tudo. "Larry Summers está para a humildade assim como
a cantora Madonna está para a castidade", escreveu
The Wall Street Journal, especializado em assuntos
econômicos. Summers falou a VEJA.
Veja Como o senhor avalia o desempenho recente
da economia brasileira?
Summers O Brasil deu passos muito efetivos nos
últimos anos e por causa deles teve o apoio da comunidade
internacional. Mas esse apoio só foi dado porque
os dirigentes brasileiros tomaram decisões na direção
que o mundo considera correta. Particularmente acredito
que o futuro da economia brasileira pode ser brilhante,
dada a tremenda energia econômica latente no país.
Veja O que falta para o Brasil voltar a crescer
mais vigorosamente?
Summers O Brasil tem algumas prioridades que,
a meu ver, são cruciais para seu futuro. Elas incluem
o reforço da disciplina fiscal e uma reforma efetiva
do sistema previdenciário. O programa de privatizações
deve ser ampliado. A longo prazo, é preciso fazer
investimentos maciços no povo brasileiro. Os gastos
sociais são necessários porque o povo é
o bem mais valioso de uma nação. Qualquer
pessoa bem-intencionada que olhar para o Brasil notará
que a educação, principalmente a educação
básica para todas as crianças, salta aos olhos
como uma prioridade.
Veja O presidente Fernando Henrique Cardoso disse
certa vez que tem em mãos "a escolha de Sofia". Ou
promove o crescimento da economia ou controla o déficit
público e equilibra o Orçamento. De que forma
esse dilema pode ser resolvido?
Summers O país está vivendo um
momento em que terá de tomar decisões cruciais.
Governar nada mais é do que fazer escolhas difíceis.
A meu ver, o Brasil não precisa de mais governo.
Precisa de melhor governo, de políticas que reorientem
as prioridades do país em direção às
áreas em que o investimento dará maior retorno.
Entre essas áreas, a meu ver, sobressai com destaque
a da educação das crianças.
Veja O senhor crê que a definição
da educação infantil como prioridade ajudaria
o Brasil a atrair mais investimentos internacionais?
Summers Sem dúvida. O capital estrangeiro
escolhe um determinado país para se alojar levando
em conta três fatores. O primeiro é a percepção
no país de origem do investimento de que há
estabilidade financeira no país de destino dos recursos.
Esse sentimento é dado pelo equilíbrio do
orçamento e pelas políticas monetárias.
O segundo fator é a capacidade que esse país
terá no sentido de se mostrar atraente para os negócios.
Essa capacidade é derivada da política estrutural,
das privatizações e de uma série de
outros aspectos. O terceiro fator é a produtividade
da economia. É aí que entram os recursos naturais
e, mais importante do que qualquer outro aspecto, a qualidade
da mão-de-obra.
Veja No que diz respeito à estabilidade
financeira, como o Brasil é visto hoje em dia? O
senhor acredita numa situação internacional
mais estável no futuro próximo?
Summers Do ponto de vista da estabilidade financeira,
creio que o Brasil deu passos importantes. Houve a mudança
do regime de taxas de câmbio, o estabelecimento de
um sistema de metas inflacionárias e, para completar,
a adoção de uma política de disciplina
fiscal. Esses passos foram percebidos de fora como muito
construtivos do ponto de vista da estabilidade financeira
do Brasil.
Veja Quais são suas previsões
para a economia mundial nos próximos anos?
Summers O mundo passou por um período
relativamente difícil, mas os sinais de melhora são
claros. A economia dos Estados Unidos está forte.
Há sinais de aumento das taxas de crescimento da
Europa e do Japão. Há muito trabalho pela
frente, mas há sinais de confiança crescente
que aplainam as dificuldades dos mercados emergentes e os
ajuda a superar obstáculos. A Coréia do Sul,
um dos primeiros países a ser abalados pela crise
do final dos anos 90, teve um crescimento de 8% em 1999.
A perspectiva é de um período de melhora gradual
nas condições econômicas do mundo. Mas
claro que é sempre prudente evitar a autoconfiança
excessiva.
Veja Qual o papel da China nesse processo? O
pedido de ingresso do país na Organização
Mundial do Comércio, a OMC, e os sinais positivos
que Pequim tem mandado para o Ocidente são confiáveis
e saudáveis para a economia mundial?
Summers Considero a entrada da China na Organização
Mundial do Comércio um passo crucial para a estabilização
da economia mundial. Nós estamos ansiosos para ver
a China na OMC. Como integrante da organização,
a China terá mais apoio internacional para promover
suas reformas econômicas e para seu esforço
de abertura comercial.
Veja O senhor forma entre os que acreditam que
a economia americana mudou drasticamente de patamar, a tal
ponto que a velha teoria econômica não pode
mais explicar tanta prosperidade e estabilidade ?
Summers O presidente Clinton e todos nós
na sua administração lutamos para criar uma
nova economia baseada em virtudes antigas. Isso significa
tirar vantagem de todo o poder da informação
e da tecnologia atuais. Um Ford Taurus tem mais eletrônica
embarcada do que a cápsula do projeto Apollo, que
levou o homem à Lua. O enorme poder da tecnologia
da informação, das telecomunicações,
da biotecnologia tem capacidade para mudar as economias,
assim como as ferrovias e a eletricidade mudaram o mundo
no século que se encerrou. Mas ainda assim o crescimento
econômico e a estabilidade dependem de valores conhecidos
há um bom tempo. Dependem de poupança, de
mão-de-obra qualificada, de um sistema financeiro
eficiente. Dependem de evitar que os governos gastem mais
do que arrecadam. Dependem de uma política monetária
eficaz. Portanto, creio que há mudanças muito
profundas na nossa economia. Mas nenhuma delas nos dá
o direito de ignorar verdades econômicas já
estabelecidas.
Veja Então é tola a idéia
do fim dos ciclos econômicos, que trazem recessão
ou resfriamento econômico ao final de cada etapa de
expansão?
Summers O excesso de confiança é
sempre autodestrutivo. Principalmente se levar a planos
de expansão da economia pouco realistas e à
criação de capacidade de produção
acima do que o mercado é capaz de absorver ou a outras
medidas sem base sólida de sustentação.
Veja O senhor concorda que o maior ensinamento
econômico do século passado é que a
tentação de planejar a economia conduz inevitavelmente
à servidão?
Summers Eu diria que a grande lição
do século XX foi a demonstração do
enorme potencial que os mercados abertos e os povos livres
têm para atingir grandes objetivos e melhorar suas
vidas. São mercados construídos sob o signo
do direito. É a observância à lei que
estabelece a ordem e uma base para o intercâmbio voluntário
de mercadorias e de serviços. Eu diria que essa é
a maior lição do século que terminou:
povos livres e mercados abertos, eficientemente regidos
por leis e apoiados pelos governos, podem gerar e manter
taxas de crescimento econômico inimagináveis
no começo do século.
Veja Considerando que a maioria dos países
está caminhando nessa direção, é
correto acreditar que se está entrando numa era de
ouro para a economia mundial?
Summers Creio que o momento atual oferece
grandes possibilidades, mas cabe a nós determinar
como tiraremos vantagem delas. Os governos que gerarem instabilidade
financeira e caírem nas mãos do populismo
poderão atrasar drasticamente o processo. Nesse caso,
grandes oportunidades podem ser perdidas.
Veja No Brasil, e na maioria dos países
em desenvolvimento, há o sentimento forte de que
a globalização tem sido lucrativa apenas para
os Estados Unidos. Isso é verdade?
Summers O maior potencial da globalização
está nas mãos dos países com mais espaço
para transformações. E esses, a meu ver, são
justamente os países em desenvolvimento. São
eles que têm mais possibilidade de ganhar mercados
para seus produtos. Da mesma forma, têm a oportunidade
de importar tecnologia, experiência e conhecimento.
Se há uma grande mudança promovida pela globalização,
foi justamente essa. Estamos vivendo um período da
história humana no qual as nações em
desenvolvimento têm tudo para alcançar os países
desenvolvidos. No início do século XX, um
processo assim teria sido impossível.
Veja Por que teria ficado mais fácil para
os países em desenvolvimento chegar à prosperidade?
Summers Creio que, num cenário mais global
e aberto, a oportunidade de os países em desenvolvimento
se integrarem à economia mundial e tirarem benefícios
dessa integração é muito maior.
Veja Qual deverá ser o maior desafio para
os Estados Unidos na primeira década do século
XXI?
Summers Como país, nós temos três
grandes desafios. O primeiro é manter nossa economia
forte e em expansão. O segundo é continuar
servindo de exemplo para outros países. O terceiro
é apoiar um sistema econômico global forte
e estável, pois só seremos prósperos
numa economia mundial forte e estável.
Veja De acordo com os mais recentes pronunciamentos
oficiais do Fundo Monetário Internacional e do Banco
Mundial, está cada vez mais claro que os países
ricos estão endurecendo o jogo na hora de financiar
as nações pobres. Eles querem medidas de controle
da poluição e de combate à corrupção.
Em alguns desses casos, as exigências não ultrapassam
o limite do razoável?
Summers O melhor que nós podemos fazer
pelos outros países é desenvolver nossa economia
e ficar ainda maiores. É abrir ainda mais nosso mercado
para bens e serviços estrangeiros. Isso é
o que de mais vital podemos fazer. Creio que podemos também
solidificar nossos próprios programas de ajuda ao
exterior e aprofundar mais ainda nossa participação
em instituições financeiras internacionais.
Certamente, teremos de trabalhar para deixar essas instituições
tão eficazes quanto possível. Eu acho que
nós aprendemos algo sobre o significado da inclusão
social e da democracia, que têm moldado mais e mais
as decisões dos organismos internacionais. Alguns
países que nunca contaram com financiamentos dos
organismos internacionais poderão beneficiar-se caso
façam as escolhas certas. Isso é muito bom.
Veja Como secretário do Tesouro o senhor
coloca a própria assinatura nas novas cédulas
de dólar. Qual é a sensação?
Summers Jovens atores sonham em ver seu nome
famoso. Jovens economistas sonham em ver um dia seu nome
na moeda nacional. Foi um momento muito excitante para mim.
Veja Que conselho o senhor dá a quem,
em vez de cédulas, assina cheques?
Summers O conselho que posso dar a todos é
olhar sempre para o horizonte e buscar melhorar, mas fazer
seus planos da forma mais conservadora e cuidadosa possível.
Veja O senhor inclui entre os desafios dos Estados
Unidos manter sua economia aberta. Mas, no Brasil, o mercado
americano é visto como um espaço fechado,
em que a entrada de nossos produtos é dificultada
das mais variadas maneiras. Que tipo de país são
os Estados Unidos? Afinal, a economia americana é
fechada ou aberta?
Summers Faz tempo que os Estados Unidos fazem
parte do esforço global de abertura de mercados.
Como o maior e o mais aberto mercado do mundo, não
nos envergonhamos de nenhuma medida nessa área. Se
você observar diversas medidas de importação
adotadas por países em desenvolvimento, verá
que os Estados Unidos sobressaem pela boa vontade em aceitar
importações. Não como um ato de caridade
com esse ou aquele país, mas porque reconhecemos
a importância e os benefícios que essas mercadorias
trazem para os consumidores que vivem nos Estados Unidos.