O valor das coisas
"O preço de qualquer coisa
durável depende
do futuro ou, mais precisamente, do
que
as pessoas pensam sobre o futuro"
Ilustração: Alê
Setti
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Nada aproxima mais a economia da meteorologia que a dificuldade
em explicar o valor das coisas, em particular o preço das
ações de uma empresa. Ambas as disciplinas têm de lidar
com fenômenos cujo comportamento futuro exibe uma assustadora
imprevisibilidade. Ambas ensejam belíssimas aplicações de
sistemas dinâmicos não lineares e estocásticos, coisas que
o leitor provavelmente não conhece, mas pode se interessar
em saber que essas técnicas às vezes aparecem com denominações
como "teoria do caos" ou "matemática das
catástrofes", que não são inteiramente injustas como
objeto de estudo tanto da economia como da meteorologia.
Mas é com alegria que podemos informar que há método nessa
loucura e que a economia pode dizer-nos muitas coisas importantes
sobre o valor de uma empresa, embora não o suficiente para
fazer dos economistas bons conselheiros para investimentos
nas bolsas.
Uma primeira lei fundamental nesse domínio é que o preço
de qualquer coisa durável depende do futuro ou, mais precisamente,
do que as pessoas pensam sobre o futuro. Uma empresa deve
valer, de acordo com esse postulado, o equivalente à expectativa
média sobre seu fluxo futuro de lucros. Parece simples,
mas as confusões em torno desse tema são infindáveis.
Aqui no Brasil essa simples verdade tem sido desafiada
com freqüência, por exemplo, quando se trata de atacar o
programa de privatização. O governo contrata especialistas
em avaliação de empresas que estimam os lucros futuros,
que servem de base para os preços mínimos nos leilões. Os
físicos da Coppe/PT, que não são do ramo, podem sempre dizer
que as empresas valem muito mais. O valor sentimental pode
ser maior, ou pode haver confusão entre ativo e patrimônio.
Gosto não se discute. Mas, de qualquer modo, é basicamente
tola a discussão sobre quanto vale uma empresa vendida em
um leilão aberto. Qualquer que seja a teoria, o que realmente
importa é qual o maior preço que um comprador vai estar
efetivamente disposto a pagar, exatamente o que o leilão
tem o condão de revelar.
No caso tão badalado das estonteantes cotações das empresas
de alta tecnologia o problema parece diverso: falta teoria
para explicar o fato. Os preços são impressionantes quando
comparados ao faturamento e ao lucro no presente. Muitas
empresas estão sendo compradas a preços correspondentes
a quarenta vezes o faturamento. E existem algumas, já valendo
vários bilhões de dólares, que ainda não deram um tostão
de lucro. A comparação entre o valor das empresas da internet
e suas congêneres do mundo real é também alucinante: a cadeia
de livrarias Barnes & Noble, a maior dos EUA, vale 2
bilhões de dólares. A Amazon, livraria virtual, custa 23
bilhões. A centenária casa de leilões Sotheby's vale 2 bilhões,
enquanto o eBay, site de leilões, custa 17 bilhões. A corretora
Merrill Lynch, a maior em Wall Street, pode ser adquirida
por 29 bilhões de dólares, enquanto a Schwab, corretora
virtual, custa 34 bilhões. Como explicar?
Tudo o que existe é um forte consenso sobre o ritmo de
crescimento futuro dos negócios pela internet, o que faz
com que já se atribua um preço mirabolante a lucros que
ainda estão distantes no futuro, o qual, como diz o meu
amigo Pedro Malan, tem como ofício ser incerto. São, de
fato, empolgantes as projeções sobre o crescimento da internet,
mas quais exatamente serão os campeões, ou onde exatamente
estão as pepitas de ouro, ninguém tem muita certeza. Em
todas as revoluções tecnológicas que o mundo conheceu, fortunas
foram feitas, mas nem todos os envolvidos conseguiram ser
bem-sucedidos. Diz-se que, na corrida do ouro na Califórnia
no século XIX, o número de milionários medido como proporção
do total de garimpeiros nada tem de impressionante. Vencedores
mesmo foram os corretores de terra e os vendedores de picaretas.
A meteorologia fez grandes progressos e pode nos informar
muita coisa sobre o verão na Cidade Maravilhosa, que vai
ser melhor do que os outros, como sempre tem sido. Mas não
dá para saber exatamente quando vem a chuva, e exatamente
em que lugar.
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)