Edição 1 632 -19/1/2000

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O valor das coisas

"O preço de qualquer coisa durável depende
do futuro
ou, mais precisamente, do que
as pessoas pensam sobre
o futuro"

 

Ilustração: Alê Setti


Nada aproxima mais a economia da meteorologia que a dificuldade em explicar o valor das coisas, em particular o preço das ações de uma empresa. Ambas as disciplinas têm de lidar com fenômenos cujo comportamento futuro exibe uma assustadora imprevisibilidade. Ambas ensejam belíssimas aplicações de sistemas dinâmicos não lineares e estocásticos, coisas que o leitor provavelmente não conhece, mas pode se interessar em saber que essas técnicas às vezes aparecem com denominações como "teoria do caos" ou "matemática das catástrofes", que não são inteiramente injustas como objeto de estudo tanto da economia como da meteorologia. Mas é com alegria que podemos informar que há método nessa loucura e que a economia pode dizer-nos muitas coisas importantes sobre o valor de uma empresa, embora não o suficiente para fazer dos economistas bons conselheiros para investimentos nas bolsas.

Uma primeira lei fundamental nesse domínio é que o preço de qualquer coisa durável depende do futuro ou, mais precisamente, do que as pessoas pensam sobre o futuro. Uma empresa deve valer, de acordo com esse postulado, o equivalente à expectativa média sobre seu fluxo futuro de lucros. Parece simples, mas as confusões em torno desse tema são infindáveis.

Aqui no Brasil essa simples verdade tem sido desafiada com freqüência, por exemplo, quando se trata de atacar o programa de privatização. O governo contrata especialistas em avaliação de empresas que estimam os lucros futuros, que servem de base para os preços mínimos nos leilões. Os físicos da Coppe/PT, que não são do ramo, podem sempre dizer que as empresas valem muito mais. O valor sentimental pode ser maior, ou pode haver confusão entre ativo e patrimônio. Gosto não se discute. Mas, de qualquer modo, é basicamente tola a discussão sobre quanto vale uma empresa vendida em um leilão aberto. Qualquer que seja a teoria, o que realmente importa é qual o maior preço que um comprador vai estar efetivamente disposto a pagar, exatamente o que o leilão tem o condão de revelar.

No caso tão badalado das estonteantes cotações das empresas de alta tecnologia o problema parece diverso: falta teoria para explicar o fato. Os preços são impressionantes quando comparados ao faturamento e ao lucro no presente. Muitas empresas estão sendo compradas a preços correspondentes a quarenta vezes o faturamento. E existem algumas, já valendo vários bilhões de dólares, que ainda não deram um tostão de lucro. A comparação entre o valor das empresas da internet e suas congêneres do mundo real é também alucinante: a cadeia de livrarias Barnes & Noble, a maior dos EUA, vale 2 bilhões de dólares. A Amazon, livraria virtual, custa 23 bilhões. A centenária casa de leilões Sotheby's vale 2 bilhões, enquanto o eBay, site de leilões, custa 17 bilhões. A corretora Merrill Lynch, a maior em Wall Street, pode ser adquirida por 29 bilhões de dólares, enquanto a Schwab, corretora virtual, custa 34 bilhões. Como explicar?

Tudo o que existe é um forte consenso sobre o ritmo de crescimento futuro dos negócios pela internet, o que faz com que já se atribua um preço mirabolante a lucros que ainda estão distantes no futuro, o qual, como diz o meu amigo Pedro Malan, tem como ofício ser incerto. São, de fato, empolgantes as projeções sobre o crescimento da internet, mas quais exatamente serão os campeões, ou onde exatamente estão as pepitas de ouro, ninguém tem muita certeza. Em todas as revoluções tecnológicas que o mundo conheceu, fortunas foram feitas, mas nem todos os envolvidos conseguiram ser bem-sucedidos. Diz-se que, na corrida do ouro na Califórnia no século XIX, o número de milionários medido como proporção do total de garimpeiros nada tem de impressionante. Vencedores mesmo foram os corretores de terra e os vendedores de picaretas.

A meteorologia fez grandes progressos e pode nos informar muita coisa sobre o verão na Cidade Maravilhosa, que vai ser melhor do que os outros, como sempre tem sido. Mas não dá para saber exatamente quando vem a chuva, e exatamente em que lugar.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)