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Luiz
Felipe de Alencastro
Nas ondas do Pacífico
"A
situação social brasileira impõe
medidas governamentais de ação
direta e políticas de mais longo prazo"
Ilustração Ale Setti
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Desde o século XIX, o progresso cria expectativas divergentes no
Brasil agrário. Em 1850, o estabelecimento de uma linha de barcos
a vapor ingleses entre o Rio de Janeiro e Liverpool, o principal destino
das exportações brasileiras, gerou muitas esperanças
entre os fazendeiros do país. Anos depois, em 1869, a inauguração
do Canal de Suez teve efeito inverso. Temia-se que o encurtamento das
distâncias propiciasse o desenvolvimento de grandes culturas de
café, cana e outros produtos tropicais na África Oriental
e na Índia, derrubando os preços agrícolas e fechando
o mercado europeu aos produtos brasileiros. As promessas e os temores
não se realizaram inteiramente. Mas o avanço dos meios de
transporte e das técnicas agrícolas continuou despertando
expectativas no Brasil, o único país no mundo que ainda
dispõe de grandes fronteiras abertas, acessíveis ao homem
(ao contrário do Alasca ou das terras russas da Sibéria).
Nesse contexto,
sucederam nos últimos anos os dois fenômenos mais importantes
da história agrícola brasileira desde a introdução
da cana e do café: a expansão da soja e a conquista do cerrado
pela cultura de grãos e oleaginosas. Graças à adaptação
de sementes e aos estudos de solo, tarefa em que a Embrapa teve papel
fundamental, a produção de soja passou de 15 milhões
de toneladas na safra 1990/1991 para os 48 milhões de toneladas
previstos na safra 2002/2003. Agora a soja alcançou o cerrado do
Piauí. Seguindo o rumo trilhado no último quartel do século
XVII pelos fazendeiros do Rio São Francisco, e em particular por
Domingos Afonso Sertão matador de índios e grande
criador de gado , os plantadores de soja progridem pelo sudoeste
piauiense, através do vale do Rio Parnaíba, no entorno do
município de Uruçuí.
Muito mais
ambiciosas são as perspectivas anunciadas num estudo recente, o
Projeto Centro-Oeste, da Fundação Getúlio Vargas,
da Bolsa de Mercadorias & Futuros e da Escola Superior de Agricultura
Luiz de Queiroz (Esalq/USP). Trata-se, nada mais, nada menos, de abrir
uma rota entre o Atlântico e o Pacífico através do
Centro-Oeste brasileiro. Há várias alternativas, mas a mais
viável parece ser o caminho entre Santos e o porto chileno de Arica.
A rota cobriria 3.577 quilômetros, puxando
para o Pacífico a produção agrícola e pecuária
meio encalhada em Mato Grosso, Acre, Rondônia, Tocantins, Pará
e Maranhão. Ora, é na Ásia e no Oriente que se encontram
70% da população mundial e os grandes mercados consumidores
de gêneros alimentícios. A saída por Arica poderá
reduzir em até 7.400 quilômetros
o percurso de exportações brasileiras que têm de passar
pelo Canal do Panamá para chegar a certos portos do Extremo Oriente.
O estudo indica ainda que 750.000 empregos
diretos e indiretos serão gerados nas áreas do Centro-Oeste
atravessadas pelo novo eixo. Do total de 9 bilhões de dólares
necessários ao empreendimento, o governo bancaria apenas 20% e
a iniciativa privada cobriria o restante.
Dito assim,
parece coisa fácil de ser feita. Mas um projeto desses demora anos
para sair do papel e pressupõe uma firme vontade do governo de
levá-lo a cabo.
Na verdade,
a situação social brasileira impõe medidas governamentais
de ação direta e políticas de mais longo prazo. Assim,
o Piauí, onde a cultura de soja oferece novas oportunidades econômicas,
é também o Estado brasileiro em que os indicadores de pobreza
são mais catastróficos. Desse modo, o Estado será
o primeiro a acolher as disposições do programa Fome Zero,
proposto pelo presidente eleito e apoiado por diversas organizações
internacionais. Abandonando a idéia de distribuir cupons, criticada
pelos especialistas, o PT se propõe agora a seguir um sistema de
distribuição de auxílio alimentar que se assemelha
à iniciativa mantida em Goiás pelo tucano Marconi Perillo,
reeleito governador do Estado. Prova de que a redução da
fome pode ser alcançada mais depressa pela via do entendimento
político do que pela rota do Oceano Pacífico.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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