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Edição 1 782 - 18 de dezembro de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

Nas ondas do Pacífico

"A situação social brasileira impõe
medidas governamentais de ação
direta e políticas de mais longo prazo"



Ilustração Ale Setti


Desde o século XIX, o progresso cria expectativas divergentes no Brasil agrário. Em 1850, o estabelecimento de uma linha de barcos a vapor ingleses entre o Rio de Janeiro e Liverpool, o principal destino das exportações brasileiras, gerou muitas esperanças entre os fazendeiros do país. Anos depois, em 1869, a inauguração do Canal de Suez teve efeito inverso. Temia-se que o encurtamento das distâncias propiciasse o desenvolvimento de grandes culturas de café, cana e outros produtos tropicais na África Oriental e na Índia, derrubando os preços agrícolas e fechando o mercado europeu aos produtos brasileiros. As promessas e os temores não se realizaram inteiramente. Mas o avanço dos meios de transporte e das técnicas agrícolas continuou despertando expectativas no Brasil, o único país no mundo que ainda dispõe de grandes fronteiras abertas, acessíveis ao homem (ao contrário do Alasca ou das terras russas da Sibéria).

Nesse contexto, sucederam nos últimos anos os dois fenômenos mais importantes da história agrícola brasileira desde a introdução da cana e do café: a expansão da soja e a conquista do cerrado pela cultura de grãos e oleaginosas. Graças à adaptação de sementes e aos estudos de solo, tarefa em que a Embrapa teve papel fundamental, a produção de soja passou de 15 milhões de toneladas na safra 1990/1991 para os 48 milhões de toneladas previstos na safra 2002/2003. Agora a soja alcançou o cerrado do Piauí. Seguindo o rumo trilhado no último quartel do século XVII pelos fazendeiros do Rio São Francisco, e em particular por Domingos Afonso Sertão – matador de índios e grande criador de gado –, os plantadores de soja progridem pelo sudoeste piauiense, através do vale do Rio Parnaíba, no entorno do município de Uruçuí.

Muito mais ambiciosas são as perspectivas anunciadas num estudo recente, o Projeto Centro-Oeste, da Fundação Getúlio Vargas, da Bolsa de Mercadorias & Futuros e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). Trata-se, nada mais, nada menos, de abrir uma rota entre o Atlântico e o Pacífico através do Centro-Oeste brasileiro. Há várias alternativas, mas a mais viável parece ser o caminho entre Santos e o porto chileno de Arica. A rota cobriria 3.577 quilômetros, puxando para o Pacífico a produção agrícola e pecuária meio encalhada em Mato Grosso, Acre, Rondônia, Tocantins, Pará e Maranhão. Ora, é na Ásia e no Oriente que se encontram 70% da população mundial e os grandes mercados consumidores de gêneros alimentícios. A saída por Arica poderá reduzir em até 7.400 quilômetros o percurso de exportações brasileiras que têm de passar pelo Canal do Panamá para chegar a certos portos do Extremo Oriente. O estudo indica ainda que 750.000 empregos diretos e indiretos serão gerados nas áreas do Centro-Oeste atravessadas pelo novo eixo. Do total de 9 bilhões de dólares necessários ao empreendimento, o governo bancaria apenas 20% e a iniciativa privada cobriria o restante.

Dito assim, parece coisa fácil de ser feita. Mas um projeto desses demora anos para sair do papel e pressupõe uma firme vontade do governo de levá-lo a cabo.

Na verdade, a situação social brasileira impõe medidas governamentais de ação direta e políticas de mais longo prazo. Assim, o Piauí, onde a cultura de soja oferece novas oportunidades econômicas, é também o Estado brasileiro em que os indicadores de pobreza são mais catastróficos. Desse modo, o Estado será o primeiro a acolher as disposições do programa Fome Zero, proposto pelo presidente eleito e apoiado por diversas organizações internacionais. Abandonando a idéia de distribuir cupons, criticada pelos especialistas, o PT se propõe agora a seguir um sistema de distribuição de auxílio alimentar que se assemelha à iniciativa mantida em Goiás pelo tucano Marconi Perillo, reeleito governador do Estado. Prova de que a redução da fome pode ser alcançada mais depressa pela via do entendimento político do que pela rota do Oceano Pacífico.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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