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Confidências
do poeta
Carlos Drummond
de Andrade
se revela um homem triste e
desamparado em cartas a
Mário de Andrade
Lucila
Soares
Genevieve Naylor
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Divulgação
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| Drummond
e Mário de Andrade: correspondência entre 1924 e 1945 |

Veja também |
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No
finalzinho deste ano, que marcou o centenário de Carlos Drummond
de Andrade, vem a público uma contribuição fundamental
para o retrato do poeta. É a coletânea Carlos &
Mário (Editora Bem-Te-Vi; 620 páginas; 185 reais),
que reúne pela primeira vez a correspondência entre o autor
de No Meio do Caminho e o autor de Macunaíma, Mário
de Andrade. O livro, organizado pela crítica literária Lélia
Coelho Frota, reconstitui um diálogo intenso, que se estendeu de
1924 a 1945. Metade do material era conhecida desde 1982, quando as cartas
escritas por Mário foram publicadas. Elas atestam a importância
do pai da Semana de Arte Moderna de 1922 na formação do
poeta mineiro, nove anos mais novo. As cartas de Drummond, no entanto,
são inéditas. Compiladas por Lélia ao longo de oito
meses nos arquivos do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade
de São Paulo, revelam um poeta desamparado e melancólico,
mais do que o homem "triste, orgulhoso, de ferro" do célebre poema
Confidência do Itabirano. São centenas de cartas,
nas quais Drummond faz confissões desconcertantes e declara-se
"zonzo diante da vida", "um homem sem energia moral", "uma besta". Num
determinado momento, escreve que gostaria de ter nascido em Paris e que
achava o Brasil um país "infecto".
O
poeta divide com Mário dúvidas existenciais, problemas materiais,
encruzilhadas estilísticas e uma tristeza que não o larga
nem em momentos alegres como os que se seguem ao nascimento da filha.
"Eu já tenho uma filhinha, Mário. Chama-se Maria Julieta,
é linda, quase robusta, manhosa e risonha como nunca foi esse diabo
de pai. Até nem sei como, diante de um pedacinho de gente tão
interessante e vivaz como é ela, eu ainda tenho tempo e jeito para
ser tão vencido, tão bestamente e confessadamente falhado",
escreve em 1928, aos 26 anos. Mário, por seu lado, é pródigo
em conselhos. Divide com Drummond sua experiência literária,
sugere mudanças substantivas em alguns poemas a maioria,
aliás, aceita. Não economiza também conselhos pessoais.
"Você meio que tem vergonha de casar, ligar-se a uma mulher, ajuntar
família, coisas prosaicas... Não são prosaicas, palavra
que não tem sentido dentro da vida. Antes de ser artista, seja
homem", diz, sem meios-tons, em 1925.
A amizade entre os dois começou na Semana Santa de 1924, em Minas
Gerais, quando um grupo de modernistas paulistas entre eles Mário,
Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral fez uma viagem às
cidades históricas do Estado. Interessados no movimento literário
de 1922, Drummond e alguns amigos trataram de ir conhecer o grupo. Poucos
meses depois, iniciou-se a correspondência, que só terminou
com a morte de Mário. As cartas cimentaram uma sólida amizade
a distância, cuja evolução pode ser percebida pelo
tratamento que os missivistas se dispensam. Começa em "prezado"
ou "estimado", passa a "querido" e, no final, chega a "Carlico". Curiosamente,
os dois só viveram na mesma cidade por três anos, entre 1938
e 1941, quando ambos foram lotados no Ministério da Educação
no Rio de Janeiro. E conviveram pouco nesse período, apesar de
morarem no mesmo bairro, Copacabana. No resto do tempo, planejaram muitos
encontros não realizados.
Sorte dos leitores especializados ou leigos que podem dispor
agora de retratos sem retoques de dois dos maiores expoentes da moderna
literatura brasileira. Como lembra o crítico Silviano Santiago,
autor do prefácio e das 500 notas às cartas de Drummond,
o texto literário é algo que o autor, deliberadamente, tornou
público. Portanto, são textos nos quais a estilização
literária "recobre, surrupia, esconde, escamoteia e dramatiza a
experiência pessoal". Mesmo ao expor seus sentimentos mais sinceros,
o autor age como no poema de Fernando Pessoa: "finge tão completamente
/ que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". Quando
se lê a correspondência de escritores, o que se faz é
anular seu fingimento e devolver-lhes a dimensão humana que permite
melhor compreender sua obra. "Este é um dos principais motivos
pelos quais as cartas de grandes escritores devem ser públicas",
conclui Santiago.
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"Pessoalmente,
acho lastimável essa história de nascer entre paisagens
incultas e sob céus pouco civilizados. Tenho uma estima bem
medíocre pelo panorama brasileiro. Sou um mau cidadão,
confesso. É que nasci em Minas, quando devera nascer em Paris.
O meio em que vivo me é estranho: sou um exilado. Sabe de
uma coisa? Acho o Brasil infecto."
Carta
de 22 de novembro de 1924 a Mário de Andrade
"De
que maneira nós podemos concorrer pra grandeza da humanidade?
É sendo franceses ou alemães? Não, porque isso
já está na civilização. O nosso contingente
tem que ser brasileiro. O dia em que nós formos inteiramente
brasileiros, só brasileiros, a humanidade
estará rica de mais uma raça,
rica duma nova combinação
de qualidades humanas."
Resposta
sem data de Mário de Andrade a Drummond
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