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Herança
FHC:
dúvidas na economia
e
conquistas no social

Monica Weinberg
Lalo de Almeida/Folha Imagem
 |
O
presidente Fernando Henrique, na semana passada,
ao receber o prêmio Mahbub ul Haq de desenvolvimento humano da ONU,
em Nova York: reconhecimento veio antes de fora |

Veja também |
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Muitos
observadores brasileiros, todos se espantaram quando o presidente
Fernando Henrique Cardoso foi escolhido pela ONU como a autoridade
mundial que mais se destacou ao longo deste ano no campo do desenvolvimento
humano. Como o prêmio das Nações Unidas foi criado
em 2002, FHC é o primeiro líder a merecer a honraria. A
cerimônia de entrega do prêmio ocorreu na semana passada,
em Nova York. Até mesmo entre os críticos mais ácidos
de FHC há certo consenso de que o governo tucano realizou um trabalho
respeitável no campo econômico. As opiniões em torno
dos avanços sociais de sua gestão, no entanto, não
são tão favoráveis. Mais do que isso, difundiu-se
uma relação de causa e efeito envolvendo as duas responsabilidades
governamentais. FHC teria se dedicado demais à economia, razão
pela qual descuidou do chamado "lado social". Por esse motivo, o prêmio
da semana passada produziu certo espanto. Quer dizer, então, que
FHC fez algo notável pelo social? Ou a ONU se teria deixado confundir?
Nos oito anos da gestão FHC, o Brasil conheceu a estabilidade econômica
e viu morrer o mais perverso dos mecanismos de destruição
de renda: o imposto inflacionário. Também foi nesse período
que o país aprendeu que privatização não se
resume a uma troca de controle acionário nas empresas do governo.
As estatais davam prejuízo, recolhiam pouco imposto, serviam de
cabide de emprego e se tornaram um foco de corrupção. Para
o Tesouro nacional, a venda das companhias rendeu, de imediato, 250 bilhões
de reais, pagos em dinheiro, mais um ganho adicional indireto ao longo
do tempo. Tome-se o caso das telefônicas, vendidas em 1998. Na fase
do sistema Telebrás, havia no Brasil 22 milhões de telefones
fixos em operação, e algumas linhas chegavam a custar 5
000 dólares. Agora, são 50 milhões de telefones fixos
e 30 milhões de celulares. Detalhe: a instalação
de uma linha fixa custa apenas 70 reais. Mais do que isso, as companhias
privadas, e não o Estado, encarregaram-se de fazer os investimentos
necessários à expansão dos serviços. Sobrou
mais dinheiro para aplicar em educação, saúde, saneamento
básico. Podem ainda ser contabilizados como outros feitos econômicos
significativos destes últimos oito anos a Lei de Responsabilidade
Fiscal, a noção de que governo sério deve cortar
gastos para honrar dívidas, o saneamento dos bancos estaduais e
o Proer, que de uma só vez protegeu os aplicadores com dinheiro
em bancos mal administrados e puniu exemplarmente os banqueiros responsáveis
pelo rombo.
Embora
o governo tenha evitado enfrentar até o fim algumas brigas importantes,
como a reforma política, a tributária e a previdenciária,
o debate ganhou outra roupagem ao término dos oito anos de FHC.
Observe-se o que aconteceu na campanha eleitoral. Tanto nas eleições
estaduais quanto na sucessão presidencial, os candidatos disputaram
para ver quem era mais responsável com o orçamento, quem
iria cortar os gastos da melhor forma. No caso da disputa ao Palácio
do Planalto, até o PT se viu constrangido a dizer que vai dar seqüência
ao programa proposto pelo governo que sai. A primeira briga do próximo
governo, avisa Lula, é a reforma da Previdência. Essa dedicação
aos temas econômicos criou em torno de Fernando Henrique a tal marca
anti-social que a concessão do prêmio ajuda a desfazer.
No apagar das luzes da gestão tucana, o Brasil pode estar testemunhando
uma mudança conceitual. Por um lado, algumas das conquistas econômicas
registradas nos últimos anos começaram a dar sinais de fadiga
e necessitam de vigilância redobrada. A inflação anual
vai fechar 2002 na casa dos dois dígitos, o dólar beira
os 4 reais, a dívida pública ultrapassou a perigosa marca
dos 50% do PIB e o país está estacionado num patamar medíocre
de crescimento econômico. Por outro lado, os números mais
recentes ligados às ações sociais federais apontam
para um trabalho de primeira grandeza. Em seu governo, FHC dobrou o gasto
em programas de assistência social, de uma média anual de
15 bilhões até 1994 para 30 bilhões de reais em 2002.
O aumento produziu um efeito que pode ser conferido em várias áreas.
Na educação, em que se elevou o número de crianças
na escola, na saúde, na qual a mortalidade infantil caiu significativamente,
na distribuição de crédito a microempreendedores.
Em alguns casos, o governo atingiu marcas impressionantes. Em oito anos,
o Ministério da Reforma Agrária assentou três vezes
mais famílias do que havia sido feito em trinta anos.
Além de investir muito mais na área social, passou-se a
gastar melhor. Dados referentes a 1994 mostram que, de cada 10 reais reservados
aos gastos sociais, 5 iam para a população carente. Hoje,
9 de cada 10 reais vão parar no lugar certo. "O dinheiro não
chegava na ponta porque não havia controle de nada, as coisas nesse
campo eram uma bagunça", diz a primeira-dama Ruth Cardoso, presidente
do programa Comunidade Solidária, com larga experiência na
área social. O ganho de eficiência teve dois motores principais.
Um deles foi a queda brutal da inflação. O preço
dos alimentos passou a subir num ritmo mais lento, o que beneficia diretamente
as camadas mais pobres da sociedade. Um levantamento da Fundação
Getúlio Vargas mostra que o fim da inflação provocou
um aumento no poder de compra dos mais pobres da ordem de 9%. O efeito
de longo prazo pode ser medido por outro indicador. A pobreza brasileira,
que atingia 42% da população, caiu para 34%. Em números
absolutos, quer dizer que aproximadamente 10 milhões de pessoas
ultrapassaram a linha da pobreza.
O segundo motor em prol da eficiência foi um pedacinho de plástico,
o tal cartão magnético bancário que dá acesso
à rede de benefícios do governo federal. Com ele, enxuga-se
a burocracia, evitam-se desvios e o dinheiro de cada cidadão fica
disponível todo mês no banco, sem intermediação
política. Nos Estados Unidos, só agora o governo decidiu
introduzir o modelo dos cartões. Técnicos da ONU estão
levando o modelo para a África do Sul. O sistema, que já
distribuiu 10 milhões de cartões, funciona à base
de um cadastro informatizado que centraliza os dados dos beneficiários
do conjunto de programas federais. O acesso a ele permite saber tudo sobre
uma família: a renda, o número de filhos e quantos benefícios
recebe.
O Brasil é um país contaminado por uma forte cultura assistencialista,
segundo a qual bons programas sociais são aqueles que atenuam as
necessidades dos mais pobres de forma direta, dando comida a quem tem
fome, cobertor a quem tem frio e remédio aos doentes. Por essa
razão, governantes mais populistas, que distribuem comida, cupons
de alimentação e leite, acabam construindo uma imagem pública
mais positiva do que aquele que simplesmente deposita o dinheiro dos pobres
no banco. Muitos políticos têm saudade da extinta Legião
Brasileira de Assistência, que distribuía cestas básicas
e dava a eles a oportunidade de se apropriar e de apadrinhar o benefício
quando não se apoderar pessoalmente da doação.
O que há de novo nesse campo, e o governo tucano teve papel fundamental
na mudança, é a idéia de que a pobreza precisa ser
combatida com a geração de renda, não simplesmente
amparada. O exemplo mais concreto do que se fez nessa direção
é a implantação do programa Bolsa-Escola, em 2001,
um benefício em dinheiro de até 45 reais por família
para os pais cujas crianças forem matriculadas na escola. O programa,
tocado pelo Ministério da Educação, consome um orçamento
anual de 2 bilhões de reais, alcançando atualmente 9 milhões
de crianças.
Os feitos do governo Fernando Henrique não transformaram o Brasil
num país rico nem modificaram a injusta distribuição
de renda do país, que é uma das piores do mundo. Os jovens
brasileiros têm a pior escolaridade da América Latina, em
empate técnico com Guatemala, Honduras e Nicarágua. Apenas
quatro de cada dez jovens com idade para cursar o ensino médio
estão matriculados. Os números absolutos mostram que o cenário
está longe do ideal. Para que as pessoas consigam notar a diferença
será preciso trabalhar e certo durante vinte anos,
segundo os mais otimistas. A contribuição de Fernando Henrique
ao debate, nesse caso, é que ele definiu o rumo a seguir. Cabe
ao governo que entra escolher a velocidade da travessia. No caso da educação,
apesar do atraso comparativo, nenhum outro país da América
Latina avançou tanto no mesmo período. Em 1994, 88% das
crianças estudavam. Agora são 97%.
Os ganhos sociais do governo FHC ficaram comprometidos por alguns indicadores
ruins. Um deles é o desemprego, que cresceu nos últimos
anos e atingiu as taxas mais altas da história. Na década
de 80, os desempregados equivaliam a 5% da força de trabalho. Hoje,
a taxa quase dobrou. Está em 9,4%. No mundo inteiro há uma
tendência à diminuição de postos de trabalho,
como resultado do ganho de eficiência na produção.
No Brasil acontece o mesmo, mas, por trás da explosão no
índice, está o baixo crescimento econômico. O desemprego
só cairá se o Brasil voltar a crescer. O crescimento só
virá se os juros caírem. E os juros só cairão
se o governo cortar seus gastos, aumentando o superávit primário.
Como se vê, quanto mais o presidente Lula se preocupar com as questões
econômicas, mais ele estará fazendo pelo social.
Com
reportagem de Décio Costa e Simone Seara
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