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Edição 1 782 - 18 de dezembro de 2002
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Entre a gaiola e a extinção

A maior parte dos casacos de pele
vem de animais criados em cativeiro



Fotos Reuters
A modelo Cindy Crawford desfila com casaco de mink em Milão: sem medo do ecoxiismo


Com a aproximação do inverno, as lojas americanas e européias enchem as vitrines e os olhos das mulheres com casacos e estolas de mink, raposa e chinchila. Nesta época do ano, como bem sabe a modelo Gisele Bündchen, também saem da toca os militantes da campanha para exterminar o mercado de peles. Gisele, xingada por ativistas que invadiram o desfile da Victoria's Secret no mês passado, não foi a única vítima. Alguns dias depois, a Frente de Libertação da Terra, um grupo ecoterrorista, ateou fogo a uma fazenda de criação de minks nos Estados Unidos, mas não conseguiu soltar os bichinhos. Na França, outra patrulha "libertou" 1.000 desses peludinhos. Ações como essas fazem muito barulho, mas não têm o impacto intimidatório do passado. No início dos anos 90, os protestos conseguiram jogar o mercado de peles no fundo do poço. Nos últimos anos, o ecoxiismo perdeu fôlego e já não consegue perturbar significativamente a indústria de roupas com pele de animais, que hoje movimenta 8 bilhões de dólares por ano.


As peles estão presentes com toda a força nas coleções de outono-inverno nos Estados Unidos e na Europa. Pelo menos 300 estilistas internacionais incluíram peles em suas criações. Dolce & Gabbana, John Galliano e Jean-Paul Gaultier mostraram em coleções recentes peças que usavam pele de zibelina, castor, coiote e espécies silvestres de raposas. O que garante o crescimento do consumo é a existência de uma bem assentada cadeia de produção: 85% de toda a produção de peles vem de animais criados em cativeiro. As campanhas ambientalistas são, em boa parte, baseadas em imagens do que ocorre com os outros 15%, os caçados na natureza. Não há quem não sinta o coração apertado com a imagem de um filhote de foca sendo morto a pauladas na cabeça para evitar danos ao pêlo. Todos os anos, 275.000 animais são mortos desse jeito no Canadá. Cada pele é vendida a 30 dólares. Na verdade, focas e zibelinas siberianas (150.000 peles por ano) são os únicos animais caçados em grande escala por sua pele. As raposas-vermelhas não passam de algumas centenas.

 

Carcaças de foca no Canadá: animais mortos a pauladas para não estragar a pele

As quantidades mudam de grandeza quando se trata de animais criados em cativeiro. Mais de 70% da produção anual de 26 milhões de peles de mink vem de animais nascidos em gaiolas. Com essa montanha de couro pode-se fabricar 450.000 casacos, ao preço médio de 40.000 reais cada um. As peles de raposas chegam a 4,5 milhões por ano, ao preço de 70 dólares a unidade. Uma roupa vale 60.000 reais. Os defensores dos bichos têm uma causa sólida. Eles reclamam que, diferentemente do que ocorre com animais como vacas, frangos e porcos, que são sacrificados para alimentar pessoas, o mundo da moda tira a vida dos mais peludinhos não para matar a fome, mas apenas por vaidade. A argumentação é correta, mas contém uma contradição: a existência de uma razão econômica é o melhor modo de garantir a preservação das espécies ameaçadas. Qual deve ser a prioridade de quem se preocupa com os animais: a sobrevivência ou o bem-estar da espécie?


AP

Protesto contra o uso de pele nos Estados Unidos: sem o poder do passado


Infelizmente, é difícil garantir a segurança de animais silvestres cuja pele tem valor comercial. Uma agravante é que não há controle do que se caça: pode-se matar uma fêmea prenhe, filhotes muito novos ou até mesmo outros animais que passem pelo caminho e que não têm utilidade para a indústria, como cães e gatos. No caso de uma criação em cativeiro, o abate leva em conta a necessidade da reprodução do plantel. Um exemplo é a chinchila, pequeno roedor originário dos Andes, extinto na natureza pela caça excessiva na década de 20. Na época, um engenheiro americano apaixonou-se pelos bichinhos e criou uma dúzia deles em cativeiro. Todas as 350.000 chinchilas existentes em gaiolas são descendentes daquele grupo. Cada pele do bichinho vale 35 dólares. Com 120 delas se faz um casaco vendido por 240.000 reais. A gaiola salvou a espécie da extinção.


   
 
   
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