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O alquimista da cozinha
Inventar
e surpreender a cada
prato esse é o desafio do maior
chef do mundo, Ferran Adrià
Raul Juste
Lores, de Barcelona
Fotos Francesc Guillamet/El Bulli/divulgação
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O
tagliatelli de consomê à carbonara (à esq.)
parece espaguete, mas é feito com gelatina de algas e
vem acompanhado
de óleo de trufas e bacon. O sorbet de morango (à
dir.) tem recheio de queijo com Campari e laranja
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Veja também |
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Nada é
o que parece no cardápio do restaurante El Bulli, celebrado como
o melhor do mundo. Os raviólis não são feitos de
massa, e sim de lula. O recheio não é de queijo, mas de
leite de coco. A farofa não leva farinha, mas foie gras reduzido
a pó gelado que se desfaz na boca. Os pratos inusitados são
a marca do chef Ferran Adrià, um catalão de 40 anos. Suas
experiências gastronômicas são tão radicais
que ele ganhou o apelido de "O Alquimista". Adrià está para
a culinária moderna como Pedro Almodóvar para o cinema
um símbolo da criatividade da nova Espanha. "Sempre há movimentos
criativos neste país, mais recentemente nas artes. Falo de Picasso,
Miró, Dalí", disse Adrià a VEJA. "Hoje, esse movimento
está na cozinha." O El Bulli fica a três horas de carro de
Barcelona, perto da fronteira com a França, tem 48 lugares e só
abre para o jantar, entre abril e setembro. A lista de espera é
lendária. O restaurante recebe mais de 240.000
pedidos de reserva, mas só atende 9.000
felizardos por temporada. Ansiosos, muitos gourmets ligam incessantemente,
rezando por cancelamentos de reserva.
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| Doce
com salgado: camarão temperado com ervas, raiz-forte, gengibre,
soja e gergelim. A cabeça é caramelizada |
A aventura
gastronômica começa no caminho para o restaurante. El Bulli
é uma construção isolada dentro de um parque ecológico,
com uma magnífica vista do Mediterrâneo. É necessário
enfrentar uma estradinha sinuosa nos últimos 7 quilômetros,
onde estão os hotéis mais próximos. A maior aventura
é à mesa. Adrià reinventou a comida, a apresentação
dos pratos e até o modo de saborear uma refeição.
O freguês nem sequer fica sabendo de antemão o que será
servido (o cardápio só é distribuído no fim,
para que ele possa rememorar o que foi saboreado). Também não
há nenhuma espera pela comida. Quem se senta à mesa é
logo servido. Adrià acha descabido entrar em um restaurante caro
e só meia hora depois ter algo para comer. "Quando não me
servem nada, como até cinco pãezinhos", diz.
Um jantar
no El Bulli custa cerca de 100 dólares por pessoa, o que não
é muito para uma casa com a cotação de três
estrelas, a máxima do Guia Michelin. Menos comum é
o tempo que se fica lá dentro: um jantar leva, em média,
quatro horas. Chegam a ser servidos 32 pratos diferentes, de entradas
a sobremesas. "De alguns restaurantes modernos, você volta para
casa com fome", explica Adrià. "Eu quero satisfazer quem vem aqui."
O banquete é minimalista, servido em porções minúsculas.
O chef usa a comida para criar formas e cores, como seus conterrâneos
ilustres usaram a tela de pintura. Visualmente, os pratos são deslumbrantes.
Cada iguaria é uma surpresa, muitas delas difíceis de identificar.
Os garçons fazem apenas algumas recomendações (isto
se corta, isto se coloca direto na boca...). O tradicional melão
com presunto é servido em forma líquida, como uma sopinha.
Junto vem um pirulito com gosto de gaspacho, a sopa fria mais comum da
Espanha. Para acompanhar, uma bala com sabor de caipirinha. A paella chega
à mesa no formato de pequenos grãos em saquinhos de celofane
e... sim, tem gosto de paella.
A estratégia
de Adrià é inovar com formas e sabores. Ele alterna o formato
e a textura dos ingredientes (chama a isso de "desconstrução").
O que era sólido vira espuma, gelatina ou líquido. O que
podia estar na sobremesa acompanha um prato salgado, e vice-versa. A finalidade?
Surpreender a visão e o paladar, intensificar o sabor e brincar
com a memória gustativa de cada um. As receitas e os sabores são
criados no quartel-general de Adrià, instalado num convento do
século XVIII no Bairro Gótico, em Barcelona. Nessa cozinha
experimental, criada em 2000, o chef e sua equipe passam os seis meses
em que o restaurante fica fechado. Depois de inventar por pura intuição,
sem conhecimento científico formal, Adrià agora testa seus
novos pratos e a resistência dos ingredientes ao frio e ao calor
com o auxílio de dois químicos e dois físicos da
Universidade de Barcelona.
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| "Parrillada
de verduras": gelatina quente com pimentões, cenoura, cebola e aspargos
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Os chefs
franceses morrem de inveja, mas não há nada a fazer senão
tentar imitar o colega catalão. É, por sinal, o que mais
está ocorrendo. Só na Espanha, estima-se que tenha influenciado
o cardápio de sessenta ou setenta restaurantes. Aliás, ele
não faz segredo de sua culinária. Quem quiser se aventurar
a copiá-lo pode começar com a leitura de seu livro de receitas,
recém-publicado na Espanha. É uma edição caprichada,
pesa 5 quilos e vem dentro de uma caixa. Ele conta como chegou a cada
ingrediente, o modo de preparar cada prato e os conceitos envolvidos na
criação da iguaria. As receitas propriamente ditas estão
num CD-ROM que acompanha o livro. Para os candidatos a chef, um aviso:
mesmo com as receitas, seus pratos são dificílimos. Por
trás das estripulias criativas do cozinheiro, há uma pesquisa
cerebral com ingredientes, texturas, composições dos pratos.
Cada forma, cada cor e cada sabor foi meticulosamente pensado. A cozinha-espetáculo
de Adrià não serve, é claro, para a vida cotidiana.
Para começar, a elaboração dos pratos não
requer apenas ingredientes variadíssimos. Também exige recursos
tecnológicos, como máquinas e equipamentos de laboratório
químico, difíceis de encontrar num restaurante comum.
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| Morango
e framboesa sobre peito de pato, com óleo de girassol: beleza põe
mesa |
A criação
mais popular de Adrià são as espumas. Elas podem ser de
caldo de galinha, consomês, sucos de frutas, legumes e verduras.
Para dar densidade às espumas, sem alterar o sabor, ele usa gelatina,
que produz espumas cremosas. Para fazer gelatina quente, coisa que era
teoricamente impossível, o chef utiliza um tipo de alga que resiste
ao calor. É incrível que Adrià não leve a
gastronomia no sangue, como é comum entre os grandes cozinheiros.
Seu pai tinha uma pequena loja de suvenires, e a mãe não
era grande coisa na cozinha. Ele começou como lavador de pratos,
aos 17 anos, no restaurante de um amigo de seu pai, que o obrigava a estudar
os livros dos grandes chefs franceses. Foi durante o serviço militar
que passou a cozinhar de verdade, fazendo comida para o regimento. Em
1983, começou a trabalhar no El Bulli, que existia desde 1957 e
era um bom restaurante de comida francesa. Sete anos depois comprou a
casa, com um sócio. Primeiro aprendeu os fundamentos, depois partiu
para a criatividade sem limites. De forma também acidental, seu
irmão caçula, Albert, foi parar na cozinha do El Bulli.
Hoje, aos 33 anos, é o mestre das sobremesas. São doces
capazes de fazer gourmets derramar lágrimas de emoção.
El Bulli
é um empreendimento dispendioso. Para servir apenas 48 fregueses
por dia, há setenta funcionários, quarenta deles cozinheiros,
e muitas despesas com pesquisas. Adrià tem outros negócios.
São menos espetaculares, mas muito rendosos. Primeiro, ele criou
serviços de bufê em Madri e em Barcelona. Também opera
o restaurante do Cassino de Madri. No ano passado, inaugurou um hotel
nos arredores de Sevilha e vai abrir outro, em 2003, em Palma de Maiorca
a cozinha é a estrela de ambos, claro. Ele pretende implantar
outros hotéis chiques, e o Brasil está em seus planos. Adrià
também cria produtos sob encomenda. Um deles é o café
espesso como uma musse, para a marca italiana Lavazza. Casado há
apenas quatro meses com uma funcionária do Aquário de Barcelona,
ele contou a VEJA que tem agora uma nova tarefa: cozinhar em casa. Sua
esposa não quer saber de fogão e panelas.
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