Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 782 - 18 de dezembro de 2002
Geral Gastronomia
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
 

A onda agora é o nutricionista particular
As praias do sossego do litoral baiano
O melhor restaurante do mundo
Vírus atrapalha os cruzeiros no Caribe
A reforma de 200 milhões de reais do Air Force One
A pele das roupas que vem da criação em cativeiro
Calcinhas à mostra
Os avanços sociais do governo FHC
O mergulho em cavernas

Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

O alquimista da cozinha

Inventar e surpreender a cada
prato – esse é o desafio do maior
chef do mundo, Ferran Adrià

Raul Juste Lores, de Barcelona

 
Fotos Francesc Guillamet/El Bulli/divulgação

O tagliatelli de consomê à carbonara (à esq.) parece espaguete, mas é feito com gelatina de algas e vem acompanhado de óleo de trufas e bacon. O sorbet de morango (à dir.) tem recheio de queijo com Campari e laranja


Veja também
Galeria de fotos: Restaurante El Bulli

Nada é o que parece no cardápio do restaurante El Bulli, celebrado como o melhor do mundo. Os raviólis não são feitos de massa, e sim de lula. O recheio não é de queijo, mas de leite de coco. A farofa não leva farinha, mas foie gras reduzido a pó gelado que se desfaz na boca. Os pratos inusitados são a marca do chef Ferran Adrià, um catalão de 40 anos. Suas experiências gastronômicas são tão radicais que ele ganhou o apelido de "O Alquimista". Adrià está para a culinária moderna como Pedro Almodóvar para o cinema – um símbolo da criatividade da nova Espanha. "Sempre há movimentos criativos neste país, mais recentemente nas artes. Falo de Picasso, Miró, Dalí", disse Adrià a VEJA. "Hoje, esse movimento está na cozinha." O El Bulli fica a três horas de carro de Barcelona, perto da fronteira com a França, tem 48 lugares e só abre para o jantar, entre abril e setembro. A lista de espera é lendária. O restaurante recebe mais de 240.000 pedidos de reserva, mas só atende 9.000 felizardos por temporada. Ansiosos, muitos gourmets ligam incessantemente, rezando por cancelamentos de reserva.

 
Doce com salgado: camarão temperado com ervas, raiz-forte, gengibre, soja e gergelim. A cabeça é caramelizada

A aventura gastronômica começa no caminho para o restaurante. El Bulli é uma construção isolada dentro de um parque ecológico, com uma magnífica vista do Mediterrâneo. É necessário enfrentar uma estradinha sinuosa nos últimos 7 quilômetros, onde estão os hotéis mais próximos. A maior aventura é à mesa. Adrià reinventou a comida, a apresentação dos pratos e até o modo de saborear uma refeição. O freguês nem sequer fica sabendo de antemão o que será servido (o cardápio só é distribuído no fim, para que ele possa rememorar o que foi saboreado). Também não há nenhuma espera pela comida. Quem se senta à mesa é logo servido. Adrià acha descabido entrar em um restaurante caro e só meia hora depois ter algo para comer. "Quando não me servem nada, como até cinco pãezinhos", diz.

Um jantar no El Bulli custa cerca de 100 dólares por pessoa, o que não é muito para uma casa com a cotação de três estrelas, a máxima do Guia Michelin. Menos comum é o tempo que se fica lá dentro: um jantar leva, em média, quatro horas. Chegam a ser servidos 32 pratos diferentes, de entradas a sobremesas. "De alguns restaurantes modernos, você volta para casa com fome", explica Adrià. "Eu quero satisfazer quem vem aqui." O banquete é minimalista, servido em porções minúsculas. O chef usa a comida para criar formas e cores, como seus conterrâneos ilustres usaram a tela de pintura. Visualmente, os pratos são deslumbrantes. Cada iguaria é uma surpresa, muitas delas difíceis de identificar. Os garçons fazem apenas algumas recomendações (isto se corta, isto se coloca direto na boca...). O tradicional melão com presunto é servido em forma líquida, como uma sopinha. Junto vem um pirulito com gosto de gaspacho, a sopa fria mais comum da Espanha. Para acompanhar, uma bala com sabor de caipirinha. A paella chega à mesa no formato de pequenos grãos em saquinhos de celofane e... sim, tem gosto de paella.

A estratégia de Adrià é inovar com formas e sabores. Ele alterna o formato e a textura dos ingredientes (chama a isso de "desconstrução"). O que era sólido vira espuma, gelatina ou líquido. O que podia estar na sobremesa acompanha um prato salgado, e vice-versa. A finalidade? Surpreender a visão e o paladar, intensificar o sabor e brincar com a memória gustativa de cada um. As receitas e os sabores são criados no quartel-general de Adrià, instalado num convento do século XVIII no Bairro Gótico, em Barcelona. Nessa cozinha experimental, criada em 2000, o chef e sua equipe passam os seis meses em que o restaurante fica fechado. Depois de inventar por pura intuição, sem conhecimento científico formal, Adrià agora testa seus novos pratos e a resistência dos ingredientes ao frio e ao calor com o auxílio de dois químicos e dois físicos da Universidade de Barcelona.

 

"Parrillada de verduras": gelatina quente com pimentões, cenoura, cebola e aspargos

Os chefs franceses morrem de inveja, mas não há nada a fazer senão tentar imitar o colega catalão. É, por sinal, o que mais está ocorrendo. Só na Espanha, estima-se que tenha influenciado o cardápio de sessenta ou setenta restaurantes. Aliás, ele não faz segredo de sua culinária. Quem quiser se aventurar a copiá-lo pode começar com a leitura de seu livro de receitas, recém-publicado na Espanha. É uma edição caprichada, pesa 5 quilos e vem dentro de uma caixa. Ele conta como chegou a cada ingrediente, o modo de preparar cada prato e os conceitos envolvidos na criação da iguaria. As receitas propriamente ditas estão num CD-ROM que acompanha o livro. Para os candidatos a chef, um aviso: mesmo com as receitas, seus pratos são dificílimos. Por trás das estripulias criativas do cozinheiro, há uma pesquisa cerebral com ingredientes, texturas, composições dos pratos. Cada forma, cada cor e cada sabor foi meticulosamente pensado. A cozinha-espetáculo de Adrià não serve, é claro, para a vida cotidiana. Para começar, a elaboração dos pratos não requer apenas ingredientes variadíssimos. Também exige recursos tecnológicos, como máquinas e equipamentos de laboratório químico, difíceis de encontrar num restaurante comum.

 
Morango e framboesa sobre peito de pato, com óleo de girassol: beleza põe mesa

A criação mais popular de Adrià são as espumas. Elas podem ser de caldo de galinha, consomês, sucos de frutas, legumes e verduras. Para dar densidade às espumas, sem alterar o sabor, ele usa gelatina, que produz espumas cremosas. Para fazer gelatina quente, coisa que era teoricamente impossível, o chef utiliza um tipo de alga que resiste ao calor. É incrível que Adrià não leve a gastronomia no sangue, como é comum entre os grandes cozinheiros. Seu pai tinha uma pequena loja de suvenires, e a mãe não era grande coisa na cozinha. Ele começou como lavador de pratos, aos 17 anos, no restaurante de um amigo de seu pai, que o obrigava a estudar os livros dos grandes chefs franceses. Foi durante o serviço militar que passou a cozinhar de verdade, fazendo comida para o regimento. Em 1983, começou a trabalhar no El Bulli, que existia desde 1957 e era um bom restaurante de comida francesa. Sete anos depois comprou a casa, com um sócio. Primeiro aprendeu os fundamentos, depois partiu para a criatividade sem limites. De forma também acidental, seu irmão caçula, Albert, foi parar na cozinha do El Bulli. Hoje, aos 33 anos, é o mestre das sobremesas. São doces capazes de fazer gourmets derramar lágrimas de emoção.

El Bulli é um empreendimento dispendioso. Para servir apenas 48 fregueses por dia, há setenta funcionários, quarenta deles cozinheiros, e muitas despesas com pesquisas. Adrià tem outros negócios. São menos espetaculares, mas muito rendosos. Primeiro, ele criou serviços de bufê em Madri e em Barcelona. Também opera o restaurante do Cassino de Madri. No ano passado, inaugurou um hotel nos arredores de Sevilha e vai abrir outro, em 2003, em Palma de Maiorca – a cozinha é a estrela de ambos, claro. Ele pretende implantar outros hotéis chiques, e o Brasil está em seus planos. Adrià também cria produtos sob encomenda. Um deles é o café espesso como uma musse, para a marca italiana Lavazza. Casado há apenas quatro meses com uma funcionária do Aquário de Barcelona, ele contou a VEJA que tem agora uma nova tarefa: cozinhar em casa. Sua esposa não quer saber de fogão e panelas.

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS