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Edição 1 782 - 18 de dezembro de 2002
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O médico e a fera
do mercado

A cúpula da economia do governo do PT
será formada por um ex-trotskista e um
financista internacional. É incrível, mas
o pensamento deles é muito parecido

Lucila Soares e Malu Gaspar

 
Reuters
Depois da viagem aos Estados Unidos, Lula anunciou, na Granja do Torto, Henrique Meirelles para comandar o Banco Central. Palocci aplaudiu

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Mesmo para um país acostumado às surpresas na política, como o Brasil, o ritmo das últimas semanas está acelerado. Quem diria que o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, um homem de origem sindical e cuja vida foi dedicada a mudar "tudo isso que está aí", escolheria um banqueiro internacional e deputado tucano para dirigir o Banco Central? Pois Henrique Meirelles, o escolhido por Lula para o BC, é exatamente isso. O mesmo presidente, que demonizou o neoliberalismo e o belicismo americanos, visita o presidente George W. Bush e volta dos Estados Unidos dizendo que agora tem um "aliado" no morador da Casa Branca. Na mesma semana, Antônio Palocci, um médico, ex-trotskista que foi prefeito de Ribeirão Preto, é entronizado no Ministério da Fazenda e o mercado acha a coisa mais normal do mundo. Na arena política, Lula, que descrevera a Câmara Federal como um bando de "300 picaretas", bordão que virou até música do grupo Paralamas do Sucesso em 1996, agora está em franca negociação com deputados e senadores. O petista oferece alguns cargos ministeriais em troca de sustentação política com uma desenvoltura só vista em tempos mais acalorados do "toma-lá-dá-cá" das presidências anteriores. Está tudo muito estranho. Mas, por incrível que pareça, pode ser a coisa certa a fazer neste momento.

A equipe de governo que Lula começou a anunciar na semana passada é convincente. Além de Palocci e Meirelles, o petista adiantou outros nomes que combinam bem com os cargos que vão ocupar a partir de janeiro. No Brasil e no exterior, a senadora Marina Silva, do PT do Acre, é vista como dona de uma biografia adequada para ocupar a pasta do Meio Ambiente. José Dirceu estará na Casa Civil, como se apostava. Segundo deputado federal mais votado por São Paulo, Dirceu se mostrou um extraordinário estrategista e articulador. Ele convenceu Lula a levar o PT para o centro e fez os expurgos internos nas alas radicais do partido e as alianças externas que viabilizaram a candidatura petista à Presidência. Márcio Thomaz Bastos, apontado para o Ministério da Justiça, é um dos maiores criminalistas do país. Luiz Fernando Furlan, da Sadia, vai para o Ministério do Desenvolvimento. Ele é um dos exportadores brasileiros com maior familiaridade com o circuito dos negócios internacionais. Para a Agricultura, a escolha premia a agroindústria, setor que trouxe para o Brasil neste ano em suas transações de compra e venda com o exterior um saldo de 21 bilhões de dólares. Lula indicou para a pasta Roberto Rodrigues, atual presidente da Associação Brasileira de Agrobusiness (Abag). Finalmente, a escolha de Celso Amorim, embaixador do Brasil em Londres, para ser ministro das Relações Exteriores recompensa um dos bons quadros do Itamaraty. Até aqui, à luz de equipes passadas e de alguns inícios pífios de triste memória, é um bom ministério.

 
Joedson Alves/AE
Marina Silva, a senadora do Acre, vai cuidar do meio ambiente: renome internacional

O nome que mais chamou a atenção, por razões óbvias, foi o de Henrique Meirelles. O novo presidente do Banco Central foi recebido com ressalvas na quinta-feira. No dia seguinte ao anúncio de seu nome, aquela entidade fluida e reativa chamada mercado parecia ter assimilado melhor sua escolha e deu as demonstrações de praxe de satisfação: o dólar caiu 1,3% e fechou a 3,70 reais, o risco Brasil diminuiu, os papéis da dívida brasileira tiveram ligeira valorização. O PT mal conseguiu esconder sua decepção com a falta de entusiasmo pelo anúncio do presidente do Banco Central, a primeira incursão do partido no mundo real da economia de mercado. Os petistas acreditavam que a biografia de Meirelles teria o efeito de um choque elétrico de credibilidade em favor do governo Lula. Não foi bem isso. Como é de sua natureza, o mercado, antes mesmo de analisar os nomes da Fazenda e do BC, ficou ansioso porque ainda são desconhecidos os nomes do segundo escalão de Palocci e Meirelles.

A justificativa é que, não sendo propriamente especialistas em política econômica e em mesa de operação do câmbio, ambos ficarão dependentes de seus auxiliares mais próximos. Outra crítica a Meirelles é sua condição de político. Quem melhor resumiu essa dúvida foi Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da consultoria Tendências. "As decisões de taxa de juros em reuniões presididas por Meirelles poderão ser vistas pelos partidos e pelos mercados como impregnadas de conteúdo político", escreveu Mailson em sua newsletter sobre a conjuntura econômica. Mailson alerta para o fato de que "só em países subdesenvolvidos se encontram políticos dirigindo bancos centrais".

 
AP
Lula e Bush no Salão Oval: o petista saiu dos EUA chamando o americano de "aliado"
ESTRELA VERMELHA NA CASA BRANCA
Durante sua viagem aos Estados Unidos, Lula envergou na lapela do paletó uma estrela vermelha, símbolo do Partido dos Trabalhadores. Mesmo intencional, foi um deslize no protocolo. Lula é presidente de todos os brasileiros, e não apenas dos petistas. A seu lado, o presidente George W. Bush usava na lapela um pequeno broche com a bandeira dos Estados Unidos

É típico do mercado procurar fragilidades na condução das finanças públicas e imaginar cenários negativos. Nem mesmo os sacrossantos Pedro Malan e Armínio Fraga agradaram a todos, todo o tempo. Alguns especialistas da área financeira acham Henrique Meirelles uma aposta de boa qualidade justamente por razões que o mercado desconsidera. "O mercado reagiu mal, e a meu ver errado, porque queria um formulador de políticas macroeconômicas. O que importa é que ele tem interlocução com os principais banqueiros do Brasil, dos Estados Unidos e de muitos outros países", diz Walter Appel, do Banco Fator. "Ele tem compromisso com austeridade fiscal e é dos mais gabaritados para negociar com o mercado internacional", afirma Carlos Langoni, que presidiu o Banco Central nos anos 80.

Mailson acha também que a indicação de Meirelles abre um grave precedente. "Agora há espaço para que outros políticos pleiteiem o comando de empresas estatais, o que dá margem para sérias dúvidas sobre a gestão do governo como um todo. No curto prazo, é provável que o PT não dispusesse de melhor alternativa, mas o partido e Meirelles poderão mais tarde se arrepender amargamente da escolha." Mailson toca em outro ponto sensível. Foi mesmo duro para o PT encontrar quem topasse o cargo. Antes de fechar o foco sobre Meirelles, o PT se dividiu muito sobre o assunto. Palocci preferia que Armínio Fraga ficasse pelo menos até julho de 2003. A proposta foi detonada por José Dirceu. Foram sondados ou convidados diversos banqueiros de investimento. Jair Ribeiro, que acaba de deixar o JP Morgan, recusou um convite feito a ele diretamente por Lula. Fábio Barbosa, do ABN Amro, e Pedro Bodin, do Icatu, foram sondados, mas desanimaram seus interlocutores de ir em frente. Ao todo foi sondada uma dezena de nomes.

 
Alan Marques/Folha Imagem
Cúpula do PT não esconde negociação: PTB não quis só Ministério do Esporte

Aos 57 anos, Henrique Meirelles presidiu o BankBoston nos Estados Unidos. É o executivo financeiro brasileiro dono da mais brilhante carreira internacional, sucesso que ele alardeia em festas memoráveis (veja o perfil de Meirelles). Depois da fusão do BankBoston com o Fleet, um grande banco de investimento americano, para formar o FleetBoston, o sétimo maior banco dos Estados Unidos, coube-lhe chefiar o ramo de investimento e de administração de grandes fortunas da nova organização. Meirelles decidiu voltar ao Brasil. Em outubro, elegeu-se deputado federal por Goiás, seu Estado natal, concorrendo pelo PSDB. A aposta do PT na personalidade exuberante de Meirelles é que o Banco Central no Brasil adquiriu uma visibilidade maior que no passado. Segundo uma estrela petista, o partido espera que o perfil do novo presidente do BC tenha o mesmo peso político e a visibilidade do Ministério da Fazenda. "Não adianta tapar o sol com a peneira. O BC vai estar no nosso governo em constante observação. Por isso é melhor ter lá alguém que, além da competência técnica, seja acostumado aos holofotes", diz o petista.

Em países de economia equilibrada, os bancos centrais têm a função crucial de manter o poder de compra da moeda. Em países endividados como o Brasil, em que o Tesouro se apresenta diariamente ao mercado em busca de recursos para financiar o déficit público, o Banco Central é a principal linha de defesa do país contra a especulação e as pressões inflacionárias. Sua arma é a definição da taxa de juros básica da economia, a que regula os empréstimos entre bancos e a remuneração dos papéis do governo. No Brasil, o presidente e os diretores do Banco Central se somam no Comitê de Política Monetária (Copom) para definir a taxa de juros. Está nas mãos do presidente do BC e de seus diretores, portanto, evitar que progridam esses dois males que infernizaram os brasileiros nas duas últimas décadas: a inflação, nos anos 80, e a especulação, nos 90. A inflação bate à porta das casas com uma força que não se via sete anos atrás.

No espectro mais pessimista das estimativas feitas pelo Banco Central, com as previsões de uma centena de instituições financeiras, a inflação medida pelo IPCA, aquela de supermercados, farmácias e padarias, chegaria a quase 20% no fim de 2003. Em números exatos, 18%. Pela média das avaliações coletadas pelo BC, a inflação fica em 10,8% no Natal do ano que vem. O primeiro cenário é desastroso. O segundo, apenas ruim. Ambos preocupam. Para evitar o pior, a melhor terapia é a tolerância zero com a inflação. Um estudo clássico de Alan Blinder, professor de economia da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, mostra que, se as pessoas e o mercado tiverem certeza de que o Banco Central não hesitará em subir juros para combater a inflação, ela não subirá. Blinder estudou o comportamento de presidentes de bancos centrais de 84 países e concluiu que são armas poderosas cara feia e disposição para abrir a "caixinha de maldades do BC", na expressão auto-irônica do ex-presidente do BC Gustavo Franco.

 
Rogério Montenegro
Heloisa Bortz

Furlan foi para o Desenvolvimento: ênfase na exportação

Thomaz Bastos, indicado para a Justiça: um dos grandes criminalistas do país

Com o problema de preencher a presidência do BC superado, o PT tem mais dores de cabeça. No presidencialismo de coalizão brasileiro, é natural que o PT, na montagem de sua equipe, ouça o maior número de aliados para garantir o mais amplo apoio no Congresso Nacional, funil por onde terá de passar suas propostas de governo. Qualquer partido sensato e realista faz isso. No caso do PT, mesmo quando se sabe que passou oito anos esperneando contra o que chamava de fisiologismo de Fernando Henrique, é conveniente que tenha aceito essa prática. O que não se esperava é que o partido fosse com tanta sede ao pote. A dificuldade do PT é maior que a de outros partidos governistas do passado. Primeiro, porque o partido sempre andou sozinho, acompanhado, no máximo, pelo pequeno PC do B, seu mais fiel aliado em disputas presidenciais, e agora, repentinamente, precisa ampliar o leque. Em segundo lugar, tem um problema com os números. A aliança presidencial de Lula uniu seis legendas diferentes, que reúnem menos da metade dos parlamentares. O presidente Fernando Henrique Cardoso teve menos trabalho para compor seus aliados, porque era apoiado por um número menor de legendas que, somadas, tinham uma representatividade muito maior, perto dos 70%, dentro do Congresso Nacional.

Daí por que o balcão de negócios do PT ficou mais escrachado e barulhento. Sempre que um novo governo está para assumir, o apetite dos aliados se mostra particularmente ávido. É assim em qualquer governo. Agora, porém, a intensidade parece maior. Nos governos de José Sarney, Itamar Franco ou Fernando Henrique, o balcão de negócios era mais evidente em cargos de segundo escalão – e não nos cargos de ministro, que têm mais visibilidade. Isso não quer dizer que não houvesse barganha, mas apenas que ela se dava de forma mais discreta. Agora, além da leveza com que se negociam os postos, o balcão está cheio de cargos de primeiríssimo escalão.

Os ministérios fortes, centrais para um bom governo, foram preenchidos com o cuidado necessário. Na discussão sobre as outras pastas e cargos, no entanto, a festa foi mais barulhenta, como fazia muito não se via no Brasil. Quase sempre vigorou no Brasil uma regra de conduta respeitada para preservar a autoridade e a imagem do presidente. Segundo essa regra, o presidente convida alguém para ocupar um ministério e, em caso de recusa, cabe ao presidente revelar ou não as circunstâncias da negativa. O presidente comanda o espetáculo. Eventualmente, nos casos em que é o presidente quem não deseja convidar alguém que se julga ministeriável, ele dá ao enjeitado a oportunidade de dizer que foi convidado e não aceitou. Tudo com a necessária discrição, sem expor nenhuma das partes ao desgaste público. É uma liturgia que vinha sendo preservada no país. Em alguns convites feitos por Lula, essa norma foi quebrada. A negociação foi divulgada pelos convidados com uma falta de cerimônia inédita.

Candidatos a ministro saíram de reuniões com Lula desdenhando a oferta. O bispo Carlos Rodrigues, do PL, recusou o Ministério do Turismo e foi para a frente das câmeras de televisão dar conta de detalhes da negociação com o PT. "Queremos um ministério de expressão nacional para que os deputados do partido se fortaleçam em seus Estados", disse o bispo. O velho cacique, Leonel Brizola, do PDT, saiu-se tão mal quanto o bispo. Brizola rejeitou a oferta do PT de entregar a um dos deputados do seu partido, o carioca Miro Teixeira, o Ministério das Comunicações. O engenheiro Leonel Brizola, patriarca do PDT, falou abertamente do convite que recebeu e explicou, também abertamente, as razões da recusa. O pedetista histórico queria o ministério desde que as funções hoje exercidas pela Anatel, a agência reguladora do setor, fossem reincorporadas à pasta. Os motivos de Brizola seriam mais particulares.

Para saciar a fome do PTB de José Carlos Martinez e de Roberto Jefferson, o PT resolveu dividir em dois o atual Ministério do Esporte e Turismo, entregando a metade – Esportes – aos petebistas e a outra metade – Turismo – a outro aliado. Não deu certo. O PTB fez as contas – que, afinal, é o que interessa – e descobriu que o Esporte teria verba inferior à do Turismo. Resultado: o ministério deve ficar como está e não será dividido. "Não temos medo de que o espaço acabe porque tem muito cargo no Brasil", tranqüiliza-se o deputado João Caldas, do PL, para acrescentar em seguida: "O problema é que vai fechando, fechando, e para nós o que vai sobrar?", questiona ele. Seu partido não admite ficar com "apenas" dois ministérios. "O PMDB quer entrar no governo pela porta da frente", explicou o presidente do partido, Michel Temer. Eis a curiosidade: a necessidade do PT de atrair os votos do PMDB – 74 deputados e 21 senadores – é tão grande que Michel Temer se acha no direito de dizer por qual porta vai entrar num governo ao qual fez oposição durante a campanha presidencial, no primeiro e no segundo turno.

É possível que o apetite dos aliados tenha sido despertado por um erro estratégico do PT. Com receio de oferecer ministério a um partido e ter de ouvir a indicação de um nome desagradável, o partido tem apresentado o que os políticos chamam de "prato feito": indica o ministério e já diz o nome do ministro. "Isso ofende até as regras de civilidade política", diz um dirigente do PMDB, envolvido nas negociações. A coisa chegou a tal ponto que o ex-presidente do PT, deputado José Dirceu, finalmente oficializado como futuro ocupante da Casa Civil, aproveitou uma entrevista à imprensa na quinta-feira passada para dizer que havia um clima de paz entre os aliados, que não havia convites recusados e que não teria nenhum constrangimento em ter o PMDB no governo. É uma declaração diplomática. A realidade, porém, é outra.

 

 

 
 

 

 

   
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