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escritores no salão: sentados, a partir da esquerda, Leon Tolstoi, Carlos Drummond, James Joyce e Eça de Queiroz |
Ansioso por uma promoção na firma? Esqueça, então, aqueles livros chatérrimos de gestão empresarial que abarrotam as estantes de lançamentos e que todo gerente sente-se na obrigação de ler pelo menos a orelha. Ninguém mais se impressiona com expressões como "break even", "market share", "target", "downsizing" ou "foco no cliente". Há muito tempo elas deixaram de emprestar ainda que um reles brilhareco à imagem de quem as pronuncia. Para sobressair em uma reunião de trabalho, o melhor a fazer talvez seja recorrer à tradição humanista. Isso mesmo, a velha e boa literatura. Não, não se assuste: você não precisa tornar-se um especialista em prosa irlandesa dos anos 20. Para igualar-se àquele colega carreirista que, esperto, já enveredou por esse caminho e não pára de citar Machado de Assis e outros autores, não é preciso tanta leitura assim. Os que destilam citações eruditas sabem apenas duas coisas que você não sabe. A primeira é que 99% das pérolas que enfeitam as conversas ditas "intelectuais" são tiradas sempre dos mesmos livros. A segunda é que, para brilhar em tais ocasiões, não é necessário sequer ter lido essas obras até o fim. Basta decorar meia dúzia de observações retiradas delas. Fazer citações não é uma questão de cultura, e sim de "verniz cultural". Que é algo que poderia ser ensinado em manuais, como etiqueta ou elegância.
Listas de livros fundamentais costumam ser motivo de discussões acaloradas, mais ou menos como acontece em relação ao futebol. As catorze obras elencadas a seguir, é bom que se diga, compõem apenas uma das centenas possíveis. Além de fazer com que você se diferencie no ambiente profissional, elas podem conferir-lhe mais charme no convívio social. Comecemos com Shakespeare. Suas peças são cheias de tiradas engraçadas ou espirituosas. A maior parte delas está concentrada em sua peça mais famosa, Hamlet. Leia-a como quem resolve um caça-palavras, com um lápis na mão, para sublinhar as citações. Quando, no meio da happy-hour, alguém mentir deslavadamente, saia-se elegantemente com a frase "as palavras sem o pensamento nunca chegam ao céu". Quando um colega de escritório lhe pedir algum emprestado, vá de "não faço empréstimos, para não correr o risco de perder o dinheiro e o amigo". Está na lista de conselhos que o personagem Polônio dá a seu filho Laertes. Decore todos. Eles são capazes de livrá-lo de boas encrencas, com elegância. Em matéria de teatro, vale a pena conhecer também algo de tragédia grega. Basta ler Édipo Rei, de Sófocles. Além de ser a melhor obra do gênero, ajuda quando um psicanalista chato começa a falar de complexo de Édipo nas festas. Como você não será páreo para ele numa discussão sobre Freud, mude o assunto para a Grécia antiga. Faça uma observação espirituosa: a de que Édipo Rei é a mais antiga história policial de todos os tempos. Acrescente que é uma das poucas peças policiais em que o assassino é o próprio detetive. Todos se espantarão.
Romances do século passado: concentre-se em três. Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, O Primo Basílio, do português Eça de Queiroz, e Dom Casmurro, do brasileiro Machado de Assis. Todos falam do grande objeto de desejo do século XIX: a mulher do próximo. No terceiro, não dá para saber se a traição se consumou ou não. Tome cuidado apenas para não fazer observações sobre o charme da mulher casada perto da esposa do seu chefe ela poderá pensar que é uma cantada. Bom, pelo menos não quando ele estiver por perto. Em Dom Casmurro, ficou célebre a característica que Machado de Assis empresta à personagem central, Capitu: "olhos de ressaca". Também é uma cantada e tanto. Deve ser dirigida, no entanto, a mulheres bem escolhidas. Ficou famoso o caso de uma socialite alagoana que, ao ouvir tal galanteio, respondeu: "Eu não bebo".
Abortando Sartre De literatura russa, compre apenas um livro: Crime e Castigo, de Dostoievski. Apesar de tida por alguns como sentimentalóide, a história de Raskolnikov é empolgante. Tem especial utilidade se você for mulher e quiser algo com aquele rapaz de gola rolê que estuda filosofia. Quando ele começar a falar de existencialismo, diga: "Eu prefiro beber na fonte". Cite uns dois ou três trechos de Crime e Castigo e arremate: "Toda a literatura francesa do século XX jorra daí". Ele vai achá-la brilhante, com a vantagem adicional de que será abortado um papo chatíssimo sobre Sartre e quejandos. Chegamos, assim, ao século XX. Todo o mundo adora citar Ulysses, de James Joyce, como a grande obra do período. Dê uma de erudito dizendo que leu e não gostou. Diante dos olhares surpresos, afirme que você concorda com a escritora inglesa Virginia Woolf, que definiu Ulysses como um livro "pretensioso, um tiro que saiu pela culatra". De Joyce, leia apenas Dublinenses. São contos belos, inteligíveis e curtos. Leia também Lolita, de Nabokov, este sim o melhor texto escrito no século. Diga que, assim como o século XIX preferia as casadas, o século XX é das ninfetas. Cite também A Metamorfose, do checo Franz Kafka, a famosa história de um homem que vira barata. Impressione os convivas dizendo que é impossível precisar em que inseto o personagem Gregor Samsa se transformou. Quem leu sabe que não há nenhuma menção a baratas no livro.
Na literatura brasileira, além de Dom Casmurro, há outro livro fundamental: Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Leia Graciliano. É curto, maravilhosamente bem escrito e é a obra mais bem realizada de todo um período nefasto da prosa brasileira: o do regionalismo. Quando alguém começar a citar Fogo Morto, A Bagaceira ou Menino de Engenho, diga que há mais substância nas digressões da cachorra Baleia do que em toda a vã filosofia sobre cactos e ossadas. De Guimarães Rosa, não se arrisque com Grande Sertão: Veredas. Prefira os contos. Ou melhor, um conto: A Terceira Margem do Rio, que resume todos. Ao discorrer sobre a história, não se esqueça de observar que Caetano Veloso e Milton Nascimento destroçaram essa obra-prima na música insuportável que leva o mesmo nome.
Bordões Em poesia, leia apenas o essencialíssimo. Por exemplo, sonetos de Luís de Camões como "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" ou "Amor é fogo que arde sem se ver". Poupa alguns constrangimentos. Quando o cantor Renato Russo fez uma música sobre esse último poema de Camões, não foram poucos os que a saudaram como a melhor letra do ex-líder do Legião Urbana. Das unanimidades Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, decore aqueles versos que viraram bordões, como "E agora, José?" ou "Vou-me embora pra Pasárgada". São frases que sempre pegam bem. Experimente entrar na sala do chefe no final do expediente e dizer: "Vou-me embora pra Pasárgada. Lá sou amigo do rei". Ele certamente vai ficar intrigado, porque, como a maior parte das pessoas, seu chefe também não leu muita coisa, mas essa do Manuel Bandeira pode apostar que ele já ouviu em algum lugar. Se ele perguntar se Pasárgada é o nome de uma nova boate, talvez seja o caso de mudar mesmo de emprego.
Essas são as regras básicas. Se você atravessar os catorze livros recomendados, tenha certeza de que já leu muito mais do que 90% das pessoas que gravitam a seu redor. Gustave Flaubert, o genial escritor francês que criou Madame Bovary, escreveu, numa carta à namorada, que "já seríamos bastante inteligentes se chegássemos a conhecer bem três ou quatro livros". Pode ser até que você tome gosto pela coisa. Cada um dos escritores da lista é um universo fascinante. Mas aí já terá passado da fase do verniz cultural, e estará começando a adquirir cultura. Na vida profissional ou social, não há muita diferença entre uma coisa e outra. Mas você descobrirá que os clássicos que o ajudam em público podem tornar-se um grande prazer na intimidade.

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