O efeito multiplex

Salas novas e bem equipadas servem de
chamariz para um público cada vez maior

Celso Masson

Foto: Jader da Rocha
Movimento em frente do Cinemark de Curitiba: 1
milhão de espectadores

O cinema contra-ataca. Depois de duas décadas esvaziadas pela invenção do videocassete e pela popularização da TV a cabo, que lhes comeram grande parte dos espectadores, as salas de projeção começam finalmente a reverter a situação. Nos Estados Unidos, o público de cinema cresceu 30% nos últimos quatro anos. No Brasil, essa reação começa a se fazer sentir agora (veja quadro). A razão para essa virada é a mesma nos dois países. Os empresários da área chegaram à conclusão de que era necessário um bom motivo para tirar o espectador de casa, onde ele pode assistir a filmes refestelado na poltrona, sem precisar enfrentar trânsito ou procurar estacionamento. Esse bom motivo se chama multiplex, ou seja, um aglomerado de cinemas, geralmente instalados dentro de um shopping center, que oferece altíssima qualidade de projeção e comodidades que o espectador só teria em casa — como espaço para acomodar a pipoca e o refrigerante no braço da poltrona, por exemplo. O espantoso no fenômeno multiplex é que passou a ser uma atração em si. Ele cria o hábito de ir ao cinema mesmo em cidades onde a única telona havia sido encostada.

Pode parecer exagerada a construção de um complexo com doze salas numa cidade como São José dos Campos, em São Paulo, que tem apenas 500.000 habitantes. A iniciativa, no entanto, foi um sucesso. Entre janeiro e setembro deste ano, o multiplex da cidade vendeu 750.000 ingressos. Em Curitiba, a capital paranaense, com 1,4 milhão de habitantes, o multiplex local teve 1 milhão de espectadores em menos de um ano. "Não há dúvida de que o sucesso se repetirá em Canoas, no Rio Grande do Sul, onde estamos inaugurando nosso próximo empreendimento", aposta Valmir Fernandes, diretor da Cinemark, empresa americana que já conta com 86 salas de exibição funcionando no Brasil, todas abertas de 1997 para cá. Juntamente com a Cinemark, há outras empresas, nacionais e estrangeiras, dispostas a investir algo como 100 milhões de dólares na disputa desse mercado. Com os multiplex, as companhias do ramo querem estourar as bilheterias. Para tanto, valem promoções como baixar o preço do ingresso para 2 reais ou sortear passagens para Los Angeles, como fez o grupo United Cinemas International, UCI, em Curitiba.

Essa ênfase no público das pequenas e médias cidades é resultado da percepção de que o cinema-espetáculo atual e as crescentes necessidades de conforto não cabem nas salinhas de estilo "cinema paradiso". Que no Brasil, diga-se de passagem, viviam uma péssima fase. Os poucos cinemas que resistiam fora dos grandes centros urbanos apresentavam apenas filmes de terceira linha, como os de kung fu e sexo explícito. Ou então reprises. Ocupando o 11º lugar no ranking mundial no que se refere ao número de salas de projeção, o Brasil continua oferecendo apenas um cinema para cada 100.000 habitantes. No México, a proporção é de um para 44.000 pessoas. Os exibidores desejam melhorar o aproveitamento desse potencial. Ribeirão Preto, cidade-símbolo da riqueza do interior paulista que possui 450 000 habitantes, terá 32 cinemas até o final do próximo ano, administrados por três empresas concorrentes.

Roupa de casamento — Do ponto de vista cultural, o fenômeno do multiplex inaugura uma outra maneira de encarar a atividade no Brasil. Dos anos 30 aos 50, o cinema era um evento social. Pipocavam no país salas enormes, algumas com capacidade para mais de 1.500 espectadores, salões elegantemente decorados e bonbonnières luxuosas. Nessa época, o programa exigia roupa de casamento. Isso entrou em decadência com o advento da televisão. Na década de 60, as pessoas freqüentavam o cinema principalmente para informar-se sobre a última moda, tanto na indumentária quanto em termos de comportamento. Hoje, a maioria entra numa sala de projeção com expectativa similar à de quem viaja para a Disney. Os multiplex dão conta dessa necessidade com eficiência. Haja pipoca e refrigerante.

Infográfico de Tcha-Tcho sobre foto Renata Ursaia




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