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Home  »  Revistas  »  Edição 2139 / 18 de novembro de 2009


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Uma ciência oculta

Como Dan Brown, em O Símbolo Perdido, mistura de novo os ingredientes – sociedades secretas, códigos enigmáticos, os subterrâneos de monumentos famosos e alguma elucubração filosófica – que o tornaram o maior best-seller da ficção adulta


Jerônimo Teixeira, de Exeter

Universo paralelo
O Capitólio, o afresco que o adorna

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As estantes envidraçadas no último andar da biblioteca da Academia Phillips Exeter exibem obras escritas por ex-alunos dessa tradicional instituição de ensino médio americana, fundada no século XVIII. É uma coleção heterogênea, com livros de história e de culinária, guias para criação dos filhos e biografias de personagens como o general Ulysses S. Grant. Escritores como Gore Vidal e John Irving destacam-se nas prateleiras. E também está lá um thriller com cores meios esotéricas que vendeu mais de 1 milhão de cópias nas suas primeiras 24 horas no mercado americano, em setembro – e que nesta semana chega às livrarias brasileiras. O Símbolo Perdido (tradução de Fernanda Abreu; Sextante; 496 páginas; 39,90 reais) é o quinto romance de Dan Brown, 45 anos, autor de um dos maiores fenômenos editoriais do século – O Código Da Vinci, que vendeu 80 milhões de exemplares no mundo todo (1,6 milhão só no Brasil).

Brown nasceu em Exeter – uma charmosa cidadezinha de cerca de 15.000 habitantes em New Hampshire, na Nova Inglaterra – e até hoje mora, com a mulher, em uma localidade próxima. Estudou na Academia Phillips, onde seu pai era professor de matemática. E, antes de se tornar o maior best-seller internacional da ficção adulta, chegou a dar aulas de inglês na escola. Foi, portanto, por razões afetivas que ele escolheu essa biblioteca como local para conversar com VEJA. Brown veste uma calça esporte e uma blusa Polo Ralph Lauren. Sobre a mesa da sala de conferências da biblioteca, deixou seu casaco de tweed, item obrigatório do figurino de seu herói, o professor de Harvard Robert Langdon. Também como Langdon, ele possui um relógio do Mickey Mouse – mas não o estava usando na entrevista. "Langdon tem muitas características minhas: tem um grande interesse intelectual por símbolos e códigos, estudou em Exeter, sofre de claustrofobia. Mas ele é mais inteligente e corajoso. E, claro, leva uma vida bem mais interessante", diz Brown.

Muito interessante, de fato: nos dois livros e filmes anteriores, Langdon – interpretado no cinema por Tom Hanks – sobreviveu à explosão de uma cápsula de antimatéria (nem pergunte o que é isso) e desvendou o mistério da descendência de Jesus Cristo. Em O Símbolo Perdido, ele se envolve em uma espécie de caça ao tesouro metafísica: tem de desvendar códigos e símbolos projetados pela maçonaria, para chegar ao esconderijo que abriga os Antigos Mistérios – a sabedoria ancestral que promete dar poderes sobre-humanos a seu detentor. Langdon e sua co-heroína, Katherine – uma pesquisadora da chamada "ciência noética", que pretende estudar os efeitos da mente sobre o mundo físico –, são acossados pelo vilão mais tenebroso já concebido por Brown: Mal’akh, um satanista alucinado cujo corpo musculoso é completamente tatuado com símbolos místicos.

Toda a história se passa em Washington, mas essa não é a capital americana que costuma aparecer no noticiário. "Não há política no livro. Mostrei a cidade que ninguém vê, repleta de mistérios, segredos e locais estranhos", diz o escritor. O Capitólio, sede do Congresso americano, transfigura-se em templo dos Antigos Mistérios. Uma mão amputada, com um anel maçônico e símbolos esotéricos tatuados na ponta dos dedos, é encontrada em um de seus salões. E, nos porões do Congresso, esconde-se uma pirâmide maçônica cujas inscrições crípticas são o centro da narrativa.

Essa é a fórmula que Brown experimentou em Anjos e Demônios e calibrou em O Código Da Vinci: uma história de mistério envolvendo uma sociedade secreta, códigos e enigmas, ação acelerada e o lado "oculto" de monumentos públicos famosos. Além de alguma especulação filosófico-religiosa. "Anjos e Demônios é sobre o embate entre ciência e religião. O Código Da Vinci apresenta uma perspectiva alternativa sobre a vida de Jesus e o Santo Graal. Já O Símbolo Perdido é sobre o poder da mente humana. É o mais filosófico dos meus livros", diz o autor. E há quem ache que os romances só pretendem distrair o leitor em suas horas de espera no aeroporto...

A ordem secreta de O Símbolo Perdido é a maçonaria. Muitos fundadores da nação americana – como George Washington, seu primeiro presidente – eram maçons, e os símbolos esotéricos da irmandade até hoje estão presentes na vida do país (o exemplo mais proeminente é a pirâmide com olho na nota de 1 dólar). Brown é bom em coletar miudezas históricas que se relacionam com seu tema central. O Símbolo Perdido faz referência, por exemplo, a uma das representações mais estranhas que já se fizeram de Washington: uma estátua de mármore esculpida por Horatio Greenough no século XIX representava o presidente como o deus grego Zeus, de toga, espada em uma das mãos, peito desnudo – e com os músculos salientes de um lutador de vale-tudo. A estátua esteve alguns anos no Congresso, mas acabou retirada de lá, segundo Brown (ou Langdon) porque seu ostensivo paganismo ofendia os congressistas cristãos. Um afresco do Capitólio, A Apoteose de Washington, também representa o primeiro presidente como uma espécie de Deus, alçando-se aos círculos celestes mais elevados. E está dado o mote para Brown desenvolver um dos temas mais caros ao novo livro: a divindade intrínseca de todo ser humano.

Divulgação

Herói de ação
Hanks como Langdon: o simbologista é um grande achado


Brown ainda dá um tremendo crédito à tal da "noética", com seus duvidosos estudos sobre poder mental. O escritor diz que demorou a aceitar as conclusões da nova disciplina, e que seu ceticismo é parcialmente responsável pelo tempo alongado – seis anos desde a publicação de O Código Da Vinci – que levou para escrever O Símbolo Perdido. Hoje, porém, está convencido: "A noética é uma ciência de verdade. Está estudando quantitativamente a influência do pensamento sobre o universo físico". Mais adiante na entrevista, porém, ele admite que os resultados ainda são escorregadios. "As grandes questões da filosofia são difíceis e etéreas", diz. Sim. De fato.

No geral, não é preciso comprar as teses esotéricas de Brown para divertir-se com O Símbolo Perdido. É um bom thriller, com algumas das melhores cenas de ação já escritas pelo autor, como o eletrizante jogo de gato e rato entre o bandido Mal’akh e Katherine dentro de um galpão fechado, sem nenhuma fonte de luz. "É uma cena curta, mas levei uma semana para escrevê-la. No final, estava com dores na mandíbula – percebi que estava apertando os dentes, por causa da tensão", diz Brown.

Robert Langdon, herói de ação e professor da inexistente disciplina da simbologia em Harvard, é um grande achado. O próprio Brown não se deu conta imediatamente do potencial do personagem: depois de apresentá-lo em Anjos e Demônios, abandonou-o no livro seguinte, Ponto de Impacto. Mas teve a sorte de ter mudado de agente na mesma época. "Li umas vinte páginas de Anjos e Demônios e disse para Brown: ‘Você tem de escrever mais livros com Langdon. Ele é seu grande personagem’", conta Heide Lange, o atual agente do escritor. Depois de O Código Da Vinci, outros tentaram a mesma fórmula do "thriller acadêmico", sem tanto sucesso. Brown parece de fato conhecer alguma ciência oculta.



A Nova Era de Dan Brown

As opiniões do autor de O Símbolo Perdido sobre Deus, o futuro da humanidade
e outras coisinhas mais

UMA MUDANÇA IMINENTE
Estamos nos movendo, astrologicamente, para uma nova era, e não é no sentido etéreo e vago que essa expressão costuma ter. Como espécie, nós, humanos, estamos no limiar de algumas escolhas cruciais. Nossa evolução moral e filosófica vai ser ultrapassada por nossos avanços científicos? Vamos evoluir filosoficamente, a ponto de dominar de fato a ciência que estamos desenvolvendo, ou vamos destruir a nós mesmos? Essas decisões serão tomadas, eu creio, nos próximos quinze anos. Teremos problemas sérios se não evoluirmos filosoficamente. Mas sou otimista. Sinto que há uma mudança iminente.

CIÊNCIA E RELIGIÃO
Estudei muito religião e ciência. E, de início, a ciência fazia mais sentido para mim do que a religião. Não conseguia conciliar o Gênesis com o Big Bang. Mas, quanto mais você se aprofunda na ciência, mais percebe que os cientistas buscam respostas para perguntas filosóficas, e mais a ciência se aproxima da religião. São duas linguagens contando a mesma história. Sou uma pessoa espiritual. Considero minha religião uma obra em aberto.

OS PERIGOS DA RELIGIÃO
Um dos perigos da religião é quando as pessoas começam a encarar a mitologia como fatos literais. Muitas histórias antigas não têm pé nem cabeça, e você precisa torcer a lógica para que façam sentido. É por isso que O Código Da Vinci incomodou tanto: era uma nova versão da história de Jesus, que para mim fazia mais sentido do que aquela que eu ouvi na escola dominical. Mas isso ameaça as pessoas cujo poder depende da manutenção da história original como verdade absoluta. Para minha sensibilidade, O Código Da Vinci não era um livro blasfemo. O fato de Jesus ter se casado não altera a verdade da sua mensagem. Não sou uma ameaça para a religião. Acho que ela tem apenas um inimigo: a apatia. Quer você goste dos meus livros, quer você os deteste, creio que são bons remédios contra a apatia. Levam as pessoas a pensar no que elas acreditam e em por que acreditam.

POLÍTICA, NÃO
Não gosto de falar de política. A política é contingente, temporal. Vai e vem, muda sempre com a última onda. Tenho mais interesse nas questões duradouras do universo, o continuum, o pulso da humanidade, que atravessa os séculos.

UMA IDEIA LINDA
Sou um tremendo patriota. Como qualquer país, cometemos erros. Nossa história está repleta deles. Mesmo assim, a ideia original dos Estados Unidos – uma nação iluminista, que aceita pessoas de todas as raças e crenças e deixa que elas tentem realizar seus sonhos – é uma ideia linda.

O DEUS AMERICANO
A maçonaria teve muita influência na origem dos Estados Unidos. É interessante que muita gente pense que os Estados Unidos são um país cristão. Talvez sejam, hoje. Mas não o eram na sua fundação. Os pais da nação eram deístas, não teístas. Os teístas acreditam que Deus interfere no mundo, que, se você rezar, Deus vai consertar as coisas para você. Os deístas acreditam que um ser poderoso colocou o universo em movimento – mas a partir daí é tudo conosco.

SUCESSO E RIQUEZA
Ganhei muito dinheiro, mas não penso muito nisso. Não tenho um iate e ainda dirijo um Toyota híbrido. Não estou interessado nos símbolos convencionais de riqueza. Tenho interesse, sim, em arte e arquitetura. Minha mulher e eu estamos construindo uma casa que será uma verdadeira obra de arte. É nossa grande extravagância. E o sucesso de O Código Da Vinci não mudou minha rotina de escritor. Ainda me levanto às 4 da manhã para escrever. Os meus personagens não se impressionam com o número de livros que eu vendi.

 

"Meu símbolo preferido"

Em O Símbolo Perdido, o circumponto tem papel fundamental. Segundo o livro,
representa tudo e mais um pouco: "a iluminação do deus-sol egípcio, o triunfo do ouro
alquímico, a sabedoria da pedra filosofal, a pureza da rosa dos Rosa-Cruzes, o instante da criação, o Todo
". Na casa nova que Brown e sua mulher estão construindo, haverá um circumponto em uma janela.
"Dependendo do dia e do ângulo do Sol, ele vai projetar seu ponto de sombra em azulejos específicos, com inscrições. Nossa casa vai ser cheia de códigos", diz o autor

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