Entrevista Abraham Lowenthal
Será diferente com Obama?
O
estudioso da América Latina diz que a visão míope dos Estados
Unidos sobre a região impede o entendimento das diferenças cruciais
entre os países

Ronaldo Soares
Oscar Cabral
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"A força
das organizações civis, da imprensa,
é parte muito importante
na manutenção
da estabilidade" |
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O professor
de relações internacionais da Universidade do Sul da Califórnia
Abraham Lowenthal, 68 anos, é dos mais respeitados observadores das relações
entre Estados Unidos e América Latina. Sua análise do que ocorre
hoje no continente contraria a ideia de que existe um bloco sul-americano homogêneo,
o que impede uma relação mais profícua. Ele tem alertado
a administração de Barack Obama para o risco de se repetir a visão
distorcida que vigorou nos últimos vinte anos. Esse é o ponto central
de seu livro The Obama Administration and the Americas: Agenda for Change,
em coautoria com outros dois especialistas, ainda não publicado no Brasil.
Lowenthal está em viagem pela América Latina, preparando um novo
livro sobre a região. Na semana passada, esteve no Rio de Janeiro, onde
concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Os americanos enxergam a América
Latina, não sem certo desprezo, como uma região homogênea
que fica "ao sul do Rio Grande". Por que o senhor acha isso um equívoco?
Nos
últimos vinte anos, especialmente em Washington, houve uma tendência
do governo e dos dois principais partidos políticos de enxergar entre os
países latino-americanos padrões convergentes de estabilidade macroeconômica,
governança democrática, economia de mercado e integração
regional. Isso fez com que muitos acreditassem que os países da América
Latina e Caribe estão se tornando similares, indo numa mesma direção,
ainda que em velocidades diferentes. E isso é um equívoco em relação
ao que está realmente acontecendo na região. Prefiro trabalhar com
características mais profundas para fazer essa distinção.
Quais
são elas?
Há cinco dimensões que distinguem esses
países. A primeira é o nível de dependência econômica
e demográfica em relação aos Estados Unidos. Ele é
muito alto no México, que tem 20% de sua força de trabalho empregada
nos Estados Unidos. O mesmo se dá na região do Caribe e na maioria
das nações da América Central. Esses países experimentam
alto nível de interconexão, têm uma maneira diferente de se
relacionar com a economia mundial. Possuem diversos problemas para resolver internamente
e ao mesmo tempo apresentam desafios diferentes para os Estados Unidos. Há
neles uma gama de questões que podem ser mais bem descritas com o neologismo
"intermésticas". São questões internacionais e
domésticas que se combinam. São assuntos relativos a imigração,
carteira de habilitação e gangues juvenis.
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| "Duvido
que o Mercosul como instituição possa ser fortalecido pelo envolvimento
de Chávez. Pode ocorrer que, como na maioria das situações,
ele traga divisões à organização" |
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Em que outros
planos essas diferenças podem ser notadas?
A segunda dimensão
que distingue esses países está no grau e na natureza de sua relação
com a economia mundial. Quanto se encontram abertos à competição
internacional e suas diferentes formas e graus de inserção. O Chile
é talvez o melhor exemplo de país aberto ao mercado internacional.
Tem grande atratividade para investimentos estrangeiros e mantém relações
comerciais intensas e igualmente divididas com América do Norte, América
do Sul, Ásia e Europa. Na outra ponta está Cuba, que por razões
históricas é um país muito pouco integrado à economia
mundial. A terceira dimensão tem a ver com a natureza e a força
das instituições políticas. Particularmente, o grau de responsabilidade
e de equidade na relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Da existência de imprensa livre e dos vários tipos de instituição
que permitem a construção de um consenso e a tomada de decisões
com confiança, criando estabilidade. Isso é vital para o futuro
de um país. Não só para grandes indústrias, mas também
para os cidadãos comuns, para os alunos que terminam a escola poderem decidir
que caminho seguir. Tem muito a ver com a força das instituições
políticas. Acho que elas são mais fortes em países como Chile,
Uruguai e Costa Rica, e estão se fortalecendo no Brasil e caminhando para
um nível significativo, embora não no mesmo patamar, na Colômbia.
São fracas na Venezuela, na Argentina, na Bolívia.
As instituições
políticas no Brasil não estão no mesmo nível que as
do Chile, Uruguai e Costa Rica?
Bem, talvez estejam. Mas elas ainda vêm
sendo testadas. Às vezes, é muito difícil entender o Congresso
brasileiro. Seus integrantes trocam de partido frequentemente, volta e meia alguns
deles estão sob investigação. Mas é inegável
que houve avanços no país em termos de instituições
políticas nos últimos anos. Graças, em parte, a um alto grau
de consenso entre os dois principais partidos, PT e PSDB, no trato com a economia.
Aquilo
que no passado se convencionou chamar de "sociedade civil" ainda tem
voz?
A existência dela, que é a quarta dimensão desse
meu mapa mental, continua tão vital quanto antes. Os países latino-americanos
são bastante diferentes quando se examinam a natureza e a força
das organizações não governamentais, da imprensa e das entidades
que ajudam o cidadão a fiscalizar o governo. É uma parte muito importante
na conquista e manutenção da estabilidade política. Em alguns
países, houve avanços nessa área; em outros, a situação
se deteriorou. A deterioração pior deu-se na Argentina. O setor
não governamental argentino é mais instrumentalizado do que o setor
governamental. Houve uma inversão. Isso enfraquece as instituições
políticas. Quando estive na Argentina em 2006, logo no primeiro dia perguntei
quando seriam as próximas eleições. Disseram-me: é
uma questão complicada, vai depender do que a Suprema Corte decidir. Então
me explicaram que a Suprema Corte deveria ter nove juízes, mas havia apenas
sete. Só que, na Argentina, as decisões da corte são tomadas
por maioria, ou seja, pelo voto de pelo menos cinco juízes. É muito
difícil obter essa maioria com o total de sete. O Judiciário, então,
insistia com o presidente para indicar outros dois juízes, mas este via
uma vantagem em não ter uma corte em condições de funcionar,
então simplesmente não os nomeava.
Segundo sua análise,
os países podem ser classificados também pelas conquistas de suas
minorias étnicas...
Sim. Essa é a quinta dimensão
do meu painel de diferenciação na América Latina. Diz muito
sobre o grau de desenvolvimento de um país a maneira como ele integra grupos
sociais com longo histórico de exclusão. Refiro-me principalmente
aos povos indígenas, aos descendentes dos africanos e às populações
pobres que ainda sofrem discriminação e são exploradas em
vários países. Encontrar uma forma de incorporar mais satisfatoriamente
esses grupos é um desafio para os países que os têm em grande
contingente populacional. O Brasil está obtendo uma conquista histórica
nessa área, o que não acontece com tanta clareza na Colômbia,
onde também houve avanços. Apesar de todo o proselitismo em contrário,
a população indígena foi excluída na Bolívia,
na Guatemala, em partes do México e do Peru.
Entender essas diferenças
ajudaria o governo americano a se interessar mais pela região, não?
Muitos
latino-americanos, incluindo vários amigos que tenho no Brasil, perguntam
por que o governo, o presidente, o secretário de Estado e a imprensa americana
não estão tão atentos ao que se passa por aqui. Estou há
mais de quarenta anos nesse ramo e cheguei a uma conclusão. É preciso
olhar para o grande número de interesses internacionais e relações
que os Estados Unidos têm com a Europa, a Ásia, o Oriente Médio
e a África. São muitas questões diferentes para resolver
e ainda duas guerras a combater. Não é realista pensar que eles
realmente vão gastar mais tempo e dar mais atenção ainda
a outras regiões. Então mudei meu objetivo. Não acredito
mais na eficácia de tentar aumentar o grau de atenção do
governo ou da imprensa americana em relação à América
Latina.
O senhor simplesmente desistiu?
Quase. Acho que ainda
vale a pena tentar melhorar a qualidade da limitada atenção que
eles têm devotado à região. Pode também ser melhorada
a natureza das políticas oficiais americanas para a América Latina.
Acho válido tentar a implantação de políticas para
reforçar instituições financeiras, restaurar fluxos de crédito,
acabar com problemas de energia, de crimes, saúde, habitação
e educação. Isso é mais eficiente do que realizar um encontro
de cúpula das Américas, trazer 34 ou 35 presidentes e dizer o.k.,
vamos desenhar um programa de cooperação. Nunca se desenha algo
minimamente compreensível, algo com substância, justamente porque
os países são tão diferentes entre si.
O que mais
poderia mudar?
Primeiramente, olhar para as relações com
a região não sob o prisma da guerra internacional contra o terrorismo,
que foi imposta como uma agenda de Washington. Segundo, reconhecer que a chamada
guerra contra as drogas tem de ser conduzida de outra forma, com mais ênfase
em redução de danos e redução da demanda. Temos de
reconhecer também que muitas das fontes do problema vêm dos Estados
Unidos. O contrabando de armas de pequeno porte é um exemplo. Precisamos
ainda resolver nossos problemas domésticos. O presidente Obama, em sua
visita ao México, deixou claro que tem essa mesma visão, o que foi
muito bem recebido. Já começamos a ver uma mudança no relacionamento
com Cuba, abandonando o objetivo primário de troca de regime e nos concentrando
em reconstruir a confiança. Trabalha-se no sentido de uma relação
pautada por uma cooperação pragmática.
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| "O Congresso
brasileiro, às vezes, é difícil de entender. Seus integrantes
trocam de partido frequentemente, volta e meia alguns deles estão sob investigação" |
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O Brasil
deveria ser mais efetivo na contenção do ímpeto de Hugo Chávez?
O Brasil, como qualquer outro país, tem de perseguir boas políticas
e relações internacionais, em seu próprio interesse. Não
deve ser instrumento de ninguém. O Brasil faz fronteira com vários
países, historicamente tem relações pacíficas e produtivas
com os mais diferentes vizinhos. Acho que faz sentido manter relações
saudáveis com realidades tão diversas como Bolívia e Venezuela,
usando sua influência para se certificar de que não haja explosões
de violência na região. Tenho certeza de que o crescimento da tensão
entre Colômbia e Venezuela é uma questão na qual o Brasil
pode ter um papel construtivo. O país tem importância não
apenas regional, mas global.
A iminente visita de Ahmadinejad, presidente
do Irã, ao Brasil pode arranhar nossa imagem no exterior?
Bem, não
sei exatamente o que vai acontecer com essa visita. Alguns dos comentários
feitos sobre o Irã são difíceis de entender e interpretar.
Se estou bem informado, quando o resultado das eleições no Irã
foi contestado, com acusações de fraude, alguns representantes da
diplomacia brasileira, e parece que o próprio presidente, disseram algo
do tipo "é como com times de futebol, quem perde reclama das regras".
Foi
isso mesmo.
Então essa atitude brasileira é um desafio à
razão. Não parece uma atitude de uma diplomacia séria e bem
informada. Esse tipo de declaração não combina com a reputação
de análise e julgamento equilibrado que diplomatas brasileiros e figuras
políticas brasileiras, incluindo Lula, construíram nos últimos
anos. Talvez essa visita seja uma boa oportunidade para esclarecer essas questões.
O Irã faz parte de uma série de importantes questões internacionais,
e talvez o Brasil tenha um papel positivo a desempenhar nesse sentido.
O Senado brasileiro está para aprovar a entrada da Venezuela no Mercosul.
É uma decisão acertada?
Se o objetivo for fortalecer a integração
regional, seria mais efetivo aprofundar as relações já existentes
entre os atuais parceiros do que promover uma abertura rápida a novos parceiros.
Mas pode ser que o objetivo principal tenha sido produzir repercussões
comerciais favoráveis a empresas brasileiras com negócios na Venezuela.
Então, tudo depende realmente dos objetivos. Não acho que, como
instituição, o Mercosul possa ser fortalecido pelo envolvimento
de Chávez. O que pode acabar ocorrendo é que, como na maioria das
situações em que se meteu, Chávez divida e enfraqueça
a organização em vez de fortalecê-la. |