Seções
• VEJA.comPanorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Energia: O apagão do governo LulaInternacional
• Estados Unidos: A volta do terror islâmicoGeral
• Maílson da NóbregaCopaPátrias de chuteiras alheiasA Fifa quer restringir os estrangeiros em seleções
nacionais.
|
Vanderlei Almeida/AFP![]() |
| SELEÇÃO ÍTALO-BRASILEIRA A Itália conquistou a medalha de bronze no Mundial de Futsal do ano passado com um time de brasileiros |
VEJA TAMBÉM |
| • Quadro: A legião estrangeira |
| • Blog da Copa |
Na próxima quarta-feira, dia 18, jogadores brasileiros
vão tentar uma vaga na Copa do Mundo de futebol. Não se trata
de notícia velha, apesar de o Brasil já ter se classificado há
dois meses para a competição na África do Sul. Quem entra
em campo nesta semana são o zagueiro Pepe, o meia Deco e o atacante Liedson,
todos nascidos no Brasil e integrantes da seleção de Portugal,
que disputa a repescagem das eliminatórias europeias com a Bósnia-Herzegovina.
Se os portugueses conseguirem a classificação, tudo indica que
haverá doze brasileiros vestindo a camisa de outros países na
Copa de 2010. Dá para montar um time completo só com os expatriados
e ainda sobra um para o banco. O recorde de brasileiros em outras seleções
está assegurado mesmo se Portugal fracassar (veja o quadro abaixo). Passada a copa africana, a Federação Internacional de Futebol
(Fifa) planeja não deixar mais essa bola rolar. Até maio deste
ano, um jogador estrangeiro precisava viver no mínimo dois anos em um
país antes de ganhar autorização para integrar seu time
nacional. Atualmente, a regra estabelece uma espera de cinco anos. O plano da
Fifa é aumentar ainda mais esse prazo. O objetivo é evitar
situações como a da Copa do Mundo de Futsal, realizada em 2008,
em que todos os catorze atletas da seleção italiana eram nascidos
no Brasil. "Há um excesso de jogadores sul-americanos que obtêm
com facilidade o passaporte do país em que atuam. Isso pode resultar
numa Copa de 2014 disputada, na maioria, por jogadores do Brasil e da Argentina",
disse na semana passada o presidente da Fifa, o suíço Joseph Blatter.
Pedro Pereira/Cityfiles![]() |
| LIEDSON MUNIZ O atacante do Sporting de Lisboa, um dos três brasileiros da seleção de Portugal |
A presença de brasileiros em seis seleções
(sete, se Portugal se classificar) na próxima Copa do Mundo é
uma consequência natural da intensa transferência de talentos para
outros países. Na atual Liga dos Campeões, a principal competição
entre clubes da Europa, há 75 brasileiros. O número poderia ser
ainda mais alto, pois na maioria dos países há limites na quantidade
de estrangeiros que os clubes podem colocar em campo. Da mesma forma que muitas
nações como o Canadá, os Estados Unidos e a Noruega
incentivam a imigração de cientistas, engenheiros e outros
trabalhadores com conhecimentos técnicos valiosos, os cartolas querem
recrutar os melhores craques disponíveis. A diferença é
que não existe para a engenharia e outras profissões uma entidade
internacional que, em vez de estimular o fluxo de mão de obra entre os
países, procura reduzi-lo, como faz a Fifa. "A federação
parece temer que haja um problema de identificação entre os torcedores
e os jogadores de sua seleção", diz o italiano Raffaele Poli,
pesquisador do Centro Internacional de Estudos do Esporte (Cies), na Suíça.
Muitos torcedores franceses, por exemplo, recusavam-se a torcer pela seleção
da França vice-campeã em 2006. Apelidado de Legião Estrangeira,
o time tinha jogadores oriundos de ex-colônias francesas, como Camarões
e Senegal, e o seu principal jogador, Zinedine Zidane, era filho de argelinos.
Nesse comportamento, também havia uma dose de racismo, é claro.
É compreensível que, num evento esportivo cujo maior apelo é o embate simbólico entre países, se incentive certa coesão na identidade cultural dos jogadores. O problema é estabelecer um critério razoável para definir o que significa ser alemão, italiano, português, espanhol... "Compartilhar valores, idioma, cultura e, em alguns casos, religião é mais relevante para a identidade nacional do que o fato de ter nascido em determinado território", diz o sociólogo inglês Krishan Kumar, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. Se é assim, as estatísticas mostram que, provavelmente, a preocupação da Fifa é exagerada. Muitos jogadores expatriados atuam em países com os quais têm grande identificação cultural. Na temporada 1999/2000, por exemplo, havia 74 jogadores brasileiros na liga portuguesa e 42 argentinos na espanhola. Apenas cinco atletas do campeonato inglês, no entanto, eram nascidos no Brasil ou na Argentina. Pepe, Deco e Liedson, por exemplo, antes de se naturalizarem, construíram quase toda a sua carreira futebolística em Portugal. De certa forma, são tão portugueses quanto um pastel de belém.