Roberto Pompeu de Toledo
Em defesa do Muro de Berlim
"Sem sua derrubada, onde as cores, onde o movimento,
onde
a emoção de que carecem os grandes eventos da
história
- o assassinato de César, a queda da Bastilha?"
Que bom que o Muro de Berlim foi construído. Se não
tivesse sido construído, não teria sido destruído. E, se
não tivesse sido destruí-do, como assinalar no curso da história,
da maneira vistosa e dramática que merece, esse evento capital que foi
o desmoronamento do mundo comunista? Com que cenário? Com que povo? Com
que artefato, concreto como um muro, contra o qual investir? Ainda bem que existem
os eventos simbólicos a marcar a marcha da história. Sem eles,
estaríamos condenados aos "processos", essas fluidas cadeias
de circunstâncias políticas, relações sociais, estados
psicológicos, oscilações econômicas, percepções
e acidentes que, temperadas por inevitáveis doses de acaso, conduzem
a corrente da história, de forma frequentemente misteriosa, para este
ou aquele leito. Atos como a derrubada do muro que dividia a antiga capital
do Reich dão visibilidade à história. Servem de farol contra
a falta de rosto, de cor e de volume dos "processos".
A derrubada do Muro de Berlim é evento da mesma natureza
da queda da Bastilha. Claro que não foi a investida contra a mal-afamada
fortaleza da Rua Saint-Antoine, em Paris, ainda mais que àquela altura
já andava meio desativada, como prisão, e não continha
senão sete escassos prisioneiros, que determinou a Revolução
Francesa. Mas, sem o episódio da Bastilha, como dar corpo e - de
fundamental importância - como dar uma data ao conjunto de transformações
ocorrido naquele período da vida francesa? A própria história
brasileira contém um exemplo similar - o "independência
ou morte" das margens do Ipiranga. O evento salvou o advento da independência
do destino de, submerso num mar de "processos", apresentar-se sem
corpo e sem data. Os atos simbólicos têm o efeito de agarrar o
tempo e forçá-lo a uma parada, majestosa e densa como uma escultura.
Eles dão inteligibilidade à história da mesma forma como
a sucessão das estações dá inteligibilidade ao ano.
A queda do Muro de Berlim, no dia 9 de novembro de 1989, permitiu
que, na semana passada, houvesse uma festa na capital alemã e comemorações
pelo mundo afora, pelos vinte anos da data. Sem ela, como comemorar a derrocada
do império soviético e as tiranias do Leste Europeu? Uns indicariam
as greves conduzidas na Polônia pelo movimento Solidariedade de Lech Walesa.
Outros se inclinariam para as manifestações que compuseram a "Revolução
de Veludo" da Checoslováquia. Mas qual das greves e qual das manifestações,
se foram várias? Mais seguro seria apontar para o dia da ascensão
de Mikhail Gorbachev à secretaria-geral do Partido Comunista - 11
de março de 1985. Mas, se foi possível a Gorbachev ascender ao
mais alto cargo da hierarquia soviética, e junto com ele o impulso reformista
que fermentava no interior do regime, é porque algum tipo de fissura
já minava a carapaça do poder comunista.
E minava mesmo. A União Soviética já não
tinha fôlego para sustentar a corrida armamentista imposta pela concorrência
com os Estados Unidos. Além disso, via-se num atoleiro sem saída
em seu envolvimento militar contra os talibãs do Afeganistão.
Além disso, já ficara irremediavelmente para trás do Ocidente
nas conquistas tecnológicas. Além disso, seu sistema econômico
mostrava-se pateticamente incompetente no provimento dos bens de consumo de
que carecia a população. Pronto. Estamos no emaranhado de fios
que tecem os "processos", e tantos fios acharemos quanto mais nos
detivermos a procurá-los. O historiador inglês Timothy Garton Ash
lembrou a "lei da cornucópia infinita", formulada por outro
historiador, o polonês Leszek Kolakowski. Para qualquer evento, segundo
a lei de Kolakowski, é possível encontrar um número infinito
de explicações.
Onde, se nos atemos aos processos, a cenografia, onde as cores,
onde o movimento, onde a emoção de que carecem os grandes eventos
da história - o assassinato de César, o martírio de
Joana dArc, a batalha de Waterloo? Precisamos de teatro, esta é
que é a verdade, como de ar para respirar. Dai-nos uma cena e com ela
marcaremos o tempo, de forma a tirá-lo da uniformidade sem graça
e sem sentido de seu fluxo contínuo. No campo das miudezas cotidianas,
o momento do "parabéns a você" é o teatro que
assinala a passagem de mais um ano de vida. No campo das grandiosidades históricas,
o muro forneceu o cenário, e as pessoas que trepavam em cima dele, dançavam
e lhe arrancavam pedaços, num misto de levante e festa popular, compuseram
a dramaturgia de que carecia um evento do porte da queda da fortaleza comunista.
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