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Música O
rock morreu. Viva o rock Com
o poder cada vez mais nas mãos do ouvinte, o ciclo de nascimento, florescimento
e morte de uma banda nunca foi tão veloz  Sérgio
Martins
Cinco anos atrás, anunciou-se
que o grupo americano The Strokes seria a salvação do rock. A festa
durou pouco: antes de chegarem ao terceiro disco, eles já são considerados
veteranos, tão distantes na linha do tempo quanto, digamos, os Ramones.
Há menos de dois anos, os escoceses do Franz Ferdinand, inspirados pelo
Strokes, se tornaram a bola da vez. Para o público que primeiro os consagrou,
entretanto, eles já soam ultrapassados. Alguns meses atrás, esse
pessoal decidiu trocá-los pelo Arctic Monkeys. A banda inglesa virou mania
entre os freqüentadores do site MySpace, que rapidamente a promoveram à
condição de fenômeno. Assim que a indústria fonográfica
e as rádios convencionais encamparam o Arctic Monkeys, porém, sua
popularidade evaporou, num processo que consumiu não mais do que um semestre.
Podem-se tirar duas lições daí. A primeira é que o
novo som de garagem inaugurado pelo Strokes parece estar perto de se esgotar.
Ou seja, o rock morreu de novo. Presume-se que renascerá em breve,
embora sua próxima roupagem ainda seja desconhecida. A segunda lição
é bem mais curiosa: à medida que cresce o poder da internet para
coroar e depor reis do rock, diminui o poder da indústria fonográfica
para fabricá-los, e mais se acelera o ciclo de nascimento, vida e morte
de uma banda de rock. Como em tudo o mais, as preferências musicais do público
que já nasceu na rede são efêmeras: mal o pessoal se entusiasma
com um brinquedo, já se cansa dele e o descarta. E, para quem se dispuser
a olhar esse quadro com mais atenção, ele contém ainda uma
terceira e mais momentosa lição: trilha sonora indisputável
do século XX, o rock chega ao século XXI na condição
embaraçosa de apenas mais um entre muitos dos fundos musicais possíveis
para a vida de um jovem ou de um adolescente.
O flanco mais vulnerável do rock, claro, é o do comportamento que
se costumava associar a ele. Desde seu surgimento, no início dos anos 50,
o primeiro mandamento do gênero foi provocar o máximo de desconforto
nos mais velhos. Todos os seus ícones o cumpriram à risca: Elvis
Presley com seu rebolado, os Rolling Stones com seu deboche, os Beatles com seu
esoterismo, o The Who com suas atitudes destrutivas (que contemplavam inclusive
o equipamento da banda), o Led Zeppelin com sua malícia. Mas como alguém
pode se valer do rock para chocar pais que foram, eles próprios, roqueiros?
A resposta é que não pode. Para atingir esse objetivo, hoje, existem
ferramentas mais eficazes. Por exemplo, o batidão das raves, que irrita
os remanescentes dos anos 60 com seu chamado à alienação.
Ou o rap, que os preocupa com sua insolência, seu machismo e sua apologia
da violência. Já cantar Whole Lotta Love imitando a lascívia
de Robert Plant é capaz de, no máximo, despertar uma certa ternura
nostálgica em papai e mamãe.
O assédio decisivo ao rock, porém, veio do mesmo instrumento que
lhe deu origem a tecnologia. Mais especificamente, de sua popularização.
O momento está registrado com precisão no filme A Festa Nunca
Termina, sobre a revolução que se operou a partir da cidade
inglesa de Manchester, na virada da década de 70 para a de 80, com o nascimento
de bandas eletrônicas como Joy Division e sua sucessora, o New Order. Durante
uma festa no clube Hacienda, que serviu de sede ao fenômeno, o empresário
Tony Wilson se vira para a câmera e alerta o espectador para um fato inédito:
a multidão não está aplaudindo a banda, e sim o DJ. Em outras
palavras, não a música, mas o meio. Aí começava a
morte do riff de guitarra e o nascimento da batida. O "saber tocar", segundo mandamento
do rock (que o punk e o grunge, liderado pelo Nirvana, já tinham como bandeira
transgredir), simplesmente deixou de fazer sentido.
O terceiro golpe contra o rock está em pleno curso, graças a uma
arma minúscula e poderosíssima o tocador de MP3. A cada iPod
vendido no mundo, tira-se mais uma lasca da fundação sobre a qual
o gênero se construiu a partir dos anos 60: o "conceito", expresso em álbuns
elaborados para conter novas propostas musicais ou temáticas. O consumidor
abaixo dos 30 anos compra cada vez menos CDs, e cada vez mais baixa suas faixas
preferidas do computador. Sem esse suporte físico, já não
é possível ao artista determinar como suas criações
serão ouvidas; o ouvinte agora é que manda no tal "conceito", ou
na absoluta falta dele, conforme lhe convenha. Não é exatamente
um ambiente propício para que despontem novas lideranças na música
e a prova vem da velocidade crescente com que megassucessos como Strokes,
White Stripes ou Franz Ferdinand são desbancados pelos similares a que
eles mesmos dão origem. Se você está com o rock e não
abre, portanto, só há uma conclusão possível: um trintão
mora na sua alma. |