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Finanças
Uma cena em extinção
Número de robôs que lucram investindo
no
mercado financeiro cresce e mostra que a
economia pende cada vez mais para o virtual

Ana Paula Baltazar
Beto Barata/AE
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Se o desafio pode ser expresso em termos matemáticos,
ninguém melhor do que um computador para resolvê-lo.
É por isso que, sem descargas de adrenalina nem riscos de
infarto, cérebros eletrônicos estão substituindo
o homem em decisões de investimento nos principais centros
financeiros do planeta. Esses robôs já administram
1,5 trilhão de dólares o equivalente a 7% do
volume mundial gerido por fundos de investimento. Ininterruptamente,
analisam o mercado e compram e vendem ações, moedas
e commodities. Um estudo feito com base em setenta fundos americanos
geridos por esses sistemas, chamados de quantitativos, demonstrou
que os analistas virtuais por vezes apresentam melhor desempenho
do que os rivais de carne e osso. De 2001 a 2004, o volume de recursos
administrados por máquinas cresceu 21%, enquanto os geridos
de forma convencional, 9%. A Lipper, empresa internacional de pesquisa
financeira, indica que surgiram nos Estados Unidos 81 novos fundos
robóticos em 2006. Eram 21 em 2005 e somente três em
2001.
Ninguém deve sair correndo de casa para
colocar dinheiro sob o comando dessas máquinas, mas elas
começam a representar um contraponto estridente ao mundo
analógico dos investimentos. Esses novos fundos têm
outra singularidade: não são administrados por economistas,
mas, normalmente, por físicos, matemáticos e engenheiros.
Os robôs investidores usam conceitos e técnicas computacionais
baseados na teoria do caos. Tal doutrina defende a idéia
de que sempre é possível encontrar ordem, mesmo em
fenômenos tidos como caóticos. Um exemplo: antes de
soltar um lápis no ar, não há como saber exatamente
o que vai acontecer com ele ao tocar o chão. Mas, assim que
é solto, as primeiras informações sobre seu
movimento permitem prever o restante da trajetória de queda.
Os fundos quantitativos processam as variações no
mercado financeiro, que correspondem ao início da descida
do lápis, e estimam o que vem depois.
Fabiano Accorsi
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| Bretas, da Phynance: "Computadores decidem
sem a influência de emoções" |
No Brasil, os fundos quantitativos engatinham,
mas, ainda assim, o volume de recursos gerenciados por computadores
dobrou em 2006, atingindo 0,8% dos 800 bilhões de reais que
a indústria de fundos movimenta no país. Uma dessas
empresas, a Phynance, é administrada pelo astrofísico
Fabio Bretas. Há dez anos, ele começou a experimentar
os altos e baixos da bolsa e decidiu aplicar seus conhecimentos
científicos para destrinchar essas flutuações.
Com uma equipe de doze pessoas, com apenas dois economistas e seis
físicos ou especialistas em computação, desenvolveu
um modelo matemático que dá aos computadores condições
de acompanhar o comportamento das trinta ações com
maior liquidez da Bovespa. As máquinas processam perto de
1 milhão de dados por semana e examinam padrões estatísticos.
"Os computadores decidem sem nenhuma influência das emoções",
diz Bretas. "Dessa forma, eliminamos da decisão fatores
como a paixão ou o ódio, comuns em pessoas que ganharam
ou perderam dinheiro com determinado papel."
O sonho dos fundos quantitativos é imitar
a trajetória bem-sucedida de dois físicos americanos
que estudaram na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz.
Na década de 1970, a dupla desenvolveu um minicomputador
embutido no sapato para vencer as roletas dos cassinos de Las Vegas.
Eles lucraram 10 000 dólares. Em 1991, Doyne Farmer (veja
entrevista) e Norman Packard fundaram a Prediction
Company, aplicando seus conhecimentos sobre sistemas complexos e
teoria do caos para fazer previsões em torno dos preços
de ações. O sucesso foi tão grande que, em
2000, eles venderam 25% da empresa ao banco suíço
UBS por 300 milhões de dólares. Em novembro do ano
passado, concluíram a venda do restante da companhia, mas
silenciaram sobre o valor final do negócio.
Fernando Cavalcanti
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| Segurança: a inteligência artificial tem sido
incorporada aos cartões |
Os críticos de modelos como os da Prediction
argumentam que eles se baseiam em dados históricos e, portanto,
não estão preparados para lidar com eventos inesperados.
Além disso, não conseguem levar em conta fatores humanos,
como o lançamento de um produto por uma empresa ou uma mudança
administrativa que pode ter impacto nos resultados de uma companhia.
"Eles apenas monitoram certas condições do mercado
e compram ou vendem reagindo a elas. Já uma pessoa é
capaz de ler jornais, conversar com outras pessoas e refletir sobre
o que está acontecendo. Por isso, há coisas que os
modelos que construímos só serão capazes de
fazer quando as máquinas começarem a pensar",
disse Farmer a VEJA.
Hoje, esses sistemas têm algo de humano,
por exemplo, no comportamento de manada que podem apresentar diante
de uma crise sistêmica ou de um ataque especulativo. Como
as regras que estão por trás dos computadores apresentam
muitas semelhanças, as máquinas podem tomar as mesmas
decisões sobre compra e venda de ativos em uma determinada
situação. E isso cria um movimento, que pode apontar
para o buraco, semelhante ao de uma manada. Com o tempo, acredita
Farmer, uma espécie de seleção natural pelo
lucro tenderá a favorecer os robôs que se comportam
de maneira diferente.
A inteligência artificial também
tem sido incorporada em larga escala por bancos e operadores de
cartões. Eles usam redes neurais, por exemplo, para reforçar
a segurança de seus sistemas de computadores. Essas redes
tentam simular em máquinas o funcionamento do cérebro
humano em atividades de aprendizado, associação de
idéias e abstração. Elas são capazes
de identificar o comportamento dos clientes e avaliar se uma operação
específica de saque ou de compra por cartão pode ser
fraudulenta. Caso se detecte uma atividade fora dos padrões,
a operação não é autorizada.
O processo de virtualização do
dinheiro, movido pela indústria financeira, começou
com os caixas eletrônicos, na década de 1970, passou
pelos sistemas de internet banking e, atualmente, pode ser observado
no crescimento do mercado de cartões. Enquanto o número
total de cheques trocados no Brasil caiu 35% nos últimos
oito anos, o uso de cartões de crédito cresceu mais
de 150% desde 2000. Nas transações realizadas pelos
consumidores, que excluem as pessoas jurídicas, o cartão
superou o cheque como meio de pagamento em 2004 e sua participação
vem crescendo. Neste ano, a estimativa é que os cartões
sejam usados em 20% dos pagamentos feitos pelas famílias
brasileiras, em comparação com 13% realizados com
cheques. Segundo projeção da consultoria Boanerges
& Cia., em 2015 a participação dos cartões
deve crescer para 32% e a dos cheques cairá para 8%.
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Entrevista:
Doyne Farmer
"As máquinas
vão pensar"
Divulgação
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Quando os estudos sobre a teoria do caos apenas engatinhavam
na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz,
na década de 1970, os físicos Doyne Farmer
e Norman Packard decidiram usar cálculos para
vencer as roletas de Las Vegas. Os anos de estudo e
as incursões aos cassinos renderam 10 000 dólares
à dupla, mas eles perceberam que podiam usar
suas teorias para apostar mais alto. Em 1991, fundaram
a Prediction Company, especializada no desenvolvimento
de modelos computacionais para a gestão de recursos
no mercado financeiro. O sucesso da empresa chamou a
atenção da União de Bancos Suíços
(UBS), que, no ano passado, adquiriu o controle da empresa.
Packard atua hoje na área de biotecnologia. Farmer
é professor do Instituto Santa Fé, no
Novo México, e concedeu a seguinte entrevista
a Ana Paula Baltazar.
Veja Os modelos
para previsão de movimentos do mercado financeiro
se mostraram eficientes em alguns aspectos. Mas onde
podem falhar?
Farmer Esses modelos são primitivos.
Essencialmente, respondem a estímulos, de modo
muito mais parecido com o cérebro de uma barata
do que com o de um ser humano. Eles não apresentam
um modelo cognitivo do mundo. Apenas monitoram certas
condições do mercado e compram ou vendem
em resposta a essas variações. Em contrapartida,
uma pessoa pode ler jornais, conversar com outras e
pensar sobre o que está acontecendo. Portanto,
existem coisas que uma pessoa é capaz de fazer
que os modelos do tipo que construímos só
poderão fazer quando as máquinas começarem
a pensar.
Veja Como esses
modelos devem evoluir?
Farmer Esses tipos de modelo ficarão
cada vez mais precisos e se estenderão a outros
domínios. Com o tempo, eles começarão
a processar informações de texto e a modelar
o comportamento dos agentes financeiros. Enfim, um dia
as máquinas começarão a analisar
o cenário usando modelos cognitivos complexos.
Vão superar totalmente os operadores humanos.
Veja Quando isso
deve acontecer?
Farmer Nos próximos vinte anos,
o poder de hardware dos computadores será multiplicado
por 1 000. Com isso e com o lento aperfeiçoamento
do software, eles poderão executar tarefas cada
vez mais complexas até que terminem pensando,
mesmo que façam isso por métodos completamente
diferentes do nosso. Não consigo dizer quando
isso acontecerá, mas ficaria surpreso se levasse
mais do que 100 anos. O grande desafio é entender
como fazer com que os computadores se programem sozinhos,
estabeleçam objetivos espontaneamente e construam
modelos abstratos sobre o mundo. Esses são problemas
difíceis, mas não há razão
para acreditar que não tenham solução.
Afinal, nós fazemos isso. Nossos cérebros
são apenas máquinas, com lentas unidades
biológicas de processamento e grande quantidade
de processamento paralelo. Ainda não entendemos
a arquitetura que nos permite pensar, mas isso também
é uma questão de tempo.
Veja Então,
os robôs investidores vão dominar os mercados
financeiros no futuro?
Farmer Eu acredito que sim. Hoje é
verdade que, na maioria dos casos, a decisão
de comprar e vender é tomada por um ser humano
e que a máquina apenas gerencia a tática
e o momento de execução da ordem. No entanto,
sistemas como os da Prediction Company, em que todas
as decisões são tomadas por máquinas,
estão se tornando cada vez mais comuns.
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