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Brasil
| Entrevista
"O Brasil está
se suicidando"
Livro mostra como a Previdência
se tornou o veneno invisível
das contas públicas do país

Giuliano Guandalini
Chega às livrarias nesta semana Reforma
da Previdência O Encontro Marcado (Campus/Elsevier;
256 páginas; 59 reais), do economista Fabio Giambiagi, um
dos maiores especialistas em contas públicas do país.
Nesta entrevista, Giambiagi argumenta que a reforma previdenciária
será inevitável, por mais que os candidatos fujam
do assunto.
Oscar Cabral
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| Giambiagi: sem o ajuste na Previdência, o
futuro será pouco promissor |
TODOS OS ESTUDOS SÉRIOS APONTAM A PREVIDÊNCIA COMO
O MAIOR PROBLEMA NAS CONTAS PÚBLICAS. POR QUE OS POLÍTICOS
FOGEM DESSE TEMA?
Porque temem perder votos. A questão tem sido maltratada
no ambiente político porque há muitos anos deixamos
de fazer política de verdade. Esse assunto não pode
e não deve ser abordado como tema partidário ou ideológico,
mas com números. Precisamos explicar para a população
que, sem uma mudança de regras, será muito difícil,
para não dizer impossível, ter daqui a vinte ou trinta
anos o Brasil que todos almejamos. O Brasil está se suicidando
lentamente.
DE ONDE VEM A RESISTÊNCIA AO TEMA?
O brasileiro médio tem dificuldade para enfrentar a
questão previdenciária da mesma maneira que os franceses
não aceitam a reforma trabalhista. Quando os estudantes franceses
foram às ruas no início do ano, no fundo queriam dizer:
"Eu não gosto de como o mundo é". A questão
é que o resto do mundo está se lixando para eles.
QUAIS OS PRINCIPAIS DESEQUILÍBRIOS
DO SISTEMA?
No resto do mundo, os aposentados, na melhor das hipóteses,
recebem reajustes de acordo com a inflação. Preservar
o poder aquisitivo é uma coisa, mas dar aumentos reais, como
ocorre no Brasil, não faz sentido. Nos últimos doze
anos, o mínimo teve um aumento real de 95%. Dois de cada
três aposentados ganham salário mínimo, que
é o piso dos benefícios do INSS. Além disso,
o Brasil é um dos únicos países em que não
se exige idade mínima para a aposentadoria. Um sueco precisa
trabalhar até os 65 anos de idade. No Brasil, um cidadão
de classe média, com expectativa de vida semelhante à
dos escandinavos, pode se aposentar aos 50 anos ou menos.
MAS O SALÁRIO MÍNIMO AINDA
NÃO É MUITO BAIXO? NÃO FARIA SENTIDO RECUPERAR
SEU VALOR?
Nos valores de alguns anos atrás, era difícil
ser contra o aumento do mínimo. Hoje penso que já
seja possível defender o fim da política de dar aumentos
acima da inflação. Na sociedade brasileira impera
a convicção de que a melhora do mínimo significa
a diminuição da desigualdade. No entanto, pesquisas
recentes revelam que o efeito do salário mínimo na
distribuição de renda é precário. Um
estudo de Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), mostra que um aumento de 10% do mínimo gera
uma despesa extra de 3,3 bilhões de reais. Desse valor, apenas
100 milhões vão para as pessoas classificadas como
extremamente pobres. Estamos gastando rios de dinheiro para obter
resultados sociais ínfimos.
COMO SERIA POSSÍVEL FAZER A REFORMA,
CONTORNANDO QUESTÕES POLÍTICAS E A RESISTÊNCIA
DA SOCIEDADE?
Defendo uma transição gradual. Em primeiro lugar,
precisamos adotar uma idade mínima para aposentadorias. Isso
poderia valer a partir de 2010, para não afetar aqueles que
estejam na iminência de se aposentar. Outro passo seria reduzir
a diferença do tempo de contribuição entre
homens e mulheres. Hoje as mulheres podem se aposentar cinco anos
mais cedo, mas elas têm expectativa de vida maior. Precisamos
abandonar a política de dar reajustes ao salário mínimo
acima da inflação. Os aposentados teriam seu poder
de compra preservado, mas sem ganhos reais. Não vejo por
que o presidente eleito não possa ir a público defender
medidas como essas. São propostas de bom senso, das quais
depende o futuro de nossos filhos. Os impostos cairiam, os juros
também, os investimentos aumentariam e todos ganhariam, com
mais crescimento e empregos.
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