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Roberto
Pompeu de Toledo
O
segredo do insucesso (2)
Onde
se volta ao tema do desempenho
brasileiro nas Olimpíadas, em
resposta
a uma carta
Se
Baloubet du Rouet negou fogo, no momento decisivo, teria sido porque
teve tolhidas suas nobres patas pela trava perversa das mazelas
sociais brasileiras? Tal indagação vem a propósito
da carta enviada a esta revista pelo psicólogo Roberto Shinyashiki,
que integrou a equipe de apoio à delegação
brasileira nas Olimpíadas de Sydney. A intenção
de Shinyashiki foi corrigir uma afirmação a ele atribuída
pela Folha de S.Paulo e comentada neste espaço há
duas semanas, segundo a qual o problema que o Brasil enfrenta nas
competições esportivas é o fato de existirem
adversários. Não, diz o missivista. O que disse é
que o Brasil enfrenta dois adversários: "os outros atletas
estrangeiros e, antes deles, a falta de estrutura do esporte no
Brasil e nossas mazelas sociais" (veja-se seção
Cartas). Fique consignada a
correção. Junto, pedem-se desculpas pelo eventual
embaraço causado ao missivista pela divulgação
incorreta de seu comentário, mas...
Mas,
com todo o respeito, e sem querer causar-lhe mais dissabores, seria
preferível que tivesse dito que o problema são os
adversários, eles mesmos, só eles, e ponto. Muito
mais intrigante, mais fértil e aberto à especulação
seria o diagnóstico de que nosso problema é esse
a competição, a comparação, a exposição
ao outro. Em vez disso, Shinyashiki enumera argumentos, o das mazelas
sociais e o da falta de estrutura do esporte, tão frágeis
quanto tornozelo de atleta, fáceis de derrubar como técnico
de futebol. Se a ausência de mazela social fosse passaporte
para medalhas de ouro, como explicar que a Bélgica não
tenha ganhado nenhuma? Ou que a Dinamarca, cuja última mazela
social ocorreu quando o príncipe Hamlet detectou algo de
podre naquele reino, já faz tempo, tenha ganhado só
duas? Sobretudo, como explicar que a Rússia, onde hoje a
miséria faz contraponto à máfia, para ficar
só nas mazelas que começam com a letra "M", continue
a mesma potência olímpica, com 32 medalhas de ouro
em Sydney, só sete a menos que os Estados Unidos?
Quanto
à falta de estrutura do esporte brasileiro, claro que no
país falta de boa nutrição a educação
física nas escolas e locais para a prática de esporte.
Mas, em se tratando de atletas de primeiro time, como os que vão
às Olimpíadas, faltará estrutura a jogadores
de futebol que têm, no menor de seus mimos, o privilégio
dos hotéis exclusivos, em lugar dos alojamentos da Vila Olímpica?
Ou a jogadores de vôlei e basquete que, quando atingem o nível
de seleção, já podem viver exclusivamente do
esporte, como os escritores não conseguem viver só
de escrever e os professores não conseguem viver só
de um emprego? Não nos detenhamos nos iatistas. Nem nos nadadores
que vivem e treinam nos Estados Unidos. Vamos direto a Baloubet
du Rouet, cujo nome diz tudo. A um cavalo assim apelidado, o feno
não será inferior ao que representa, para um ser humano,
o jantar assinado por um Paul Bocuse. Nem o veterinário dispensará
tratos menos hábeis do que os contidos em operação
cardíaca com a chancela de um Adib Jatene.
Seria
covardia assacar o argumento Camarões nesta história,
mas vá lá, sejamos covardes e falemos de Camarões.
A má sorte de Camarões começa pelo nome. Parece
antes uma das terras fantásticas onde Gulliver costumava
dar com os costados, em suas voltas pelo mundo. O país dos
houyhnhnms, por exemplo. Os houyhnhnms, se o leitor não sabe,
eram cavalos, mas que não empacavam, como Baloubet du Rouet.
Eram inteligentes e sábios, e tinham o costume de domesticar
e colocar a seu serviço certos seres cruéis e irracionais
chamados humanos. A República de Camarões, transposta
para essa esfera de países imaginários, seria a terra
onde esses bichinhos do mar pontificariam, escreveriam livros e
iriam à escola. Também possuiriam uma rica cozinha,
onde preparariam, à grega ou à baiana, ao catupiry
ou na moranga, a carne saborosa de um bicho chamado "homem", que
teriam o costume de caçar lançando redes sobre as
locas chamadas "cidades" onde habitam. Não
lhe bastasse o nome, Camarões ainda fica na costa ocidental
da África, local privilegiado por portugueses e brasileiros
para aplacar a fome de escravos que, durante séculos, os
consumiu. E, no entanto, ei-lo campeão olímpico de
futebol. A vitória de Camarões mostra que, assim como
aos pobres de espírito está reservado o reino dos
céus, assim também, aos desprovidos de estruturas
e aos providos de mazelas sociais, pode estar reservada uma medalha
olímpica.
Esclareça-se,
enquanto é tempo, e para evitar mais um mal-entendido, que
em nenhum momento o que foi dito aqui teve a intenção
de censurar atletas com o suposto argumento de que, apesar de contar
com a devida estrutura, foram derrotados. A questão é
outra. São as explicações do tipo "mazelas
sociais" ou "falta de estrutura". Muito melhor é o argumento
de que se perde, no esporte, porque se tem adversário. É
isso o que o transforma numa atividade de risco, onde a um dia de
vitória sucede um de derrota. Se Shinyashiki renega o argumento,
esta página o assume.
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