Artes e Espetáculos Ensaio

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Edir Macedo acha que a Disney é o demônio
A moda do namoro na TV
Chico Anysio é afastado e acusa Globo de censurá-lo
Caixa de CDs traz gravações inéditas de Jimi Hendrix
Pearl Jam lança 25 CDs ao vivo
O sucesso de Björk como atriz
As Virgens Suicidas marca a estréia de Sofia Coppola
Jodie Foster quer filmar a vida de Leni Riefenstahl
Garotos Incríveis, com Michael Douglas
O efeito Harry Potter

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Roberto Pompeu de Toledo

O segredo do insucesso (2)

Onde se volta ao tema do desempenho brasileiro nas Olimpíadas, em resposta
a uma carta

Se Baloubet du Rouet negou fogo, no momento decisivo, teria sido porque teve tolhidas suas nobres patas pela trava perversa das mazelas sociais brasileiras? Tal indagação vem a propósito da carta enviada a esta revista pelo psicólogo Roberto Shinyashiki, que integrou a equipe de apoio à delegação brasileira nas Olimpíadas de Sydney. A intenção de Shinyashiki foi corrigir uma afirmação a ele atribuída pela Folha de S.Paulo e comentada neste espaço há duas semanas, segundo a qual o problema que o Brasil enfrenta nas competições esportivas é o fato de existirem adversários. Não, diz o missivista. O que disse é que o Brasil enfrenta dois adversários: "os outros atletas estrangeiros e, antes deles, a falta de estrutura do esporte no Brasil e nossas mazelas sociais" (veja-se seção Cartas). Fique consignada a correção. Junto, pedem-se desculpas pelo eventual embaraço causado ao missivista pela divulgação incorreta de seu comentário, mas...

Mas, com todo o respeito, e sem querer causar-lhe mais dissabores, seria preferível que tivesse dito que o problema são os adversários, eles mesmos, só eles, e ponto. Muito mais intrigante, mais fértil e aberto à especulação seria o diagnóstico de que nosso problema é esse – a competição, a comparação, a exposição ao outro. Em vez disso, Shinyashiki enumera argumentos, o das mazelas sociais e o da falta de estrutura do esporte, tão frágeis quanto tornozelo de atleta, fáceis de derrubar como técnico de futebol. Se a ausência de mazela social fosse passaporte para medalhas de ouro, como explicar que a Bélgica não tenha ganhado nenhuma? Ou que a Dinamarca, cuja última mazela social ocorreu quando o príncipe Hamlet detectou algo de podre naquele reino, já faz tempo, tenha ganhado só duas? Sobretudo, como explicar que a Rússia, onde hoje a miséria faz contraponto à máfia, para ficar só nas mazelas que começam com a letra "M", continue a mesma potência olímpica, com 32 medalhas de ouro em Sydney, só sete a menos que os Estados Unidos?

Quanto à falta de estrutura do esporte brasileiro, claro que no país falta de boa nutrição a educação física nas escolas e locais para a prática de esporte. Mas, em se tratando de atletas de primeiro time, como os que vão às Olimpíadas, faltará estrutura a jogadores de futebol que têm, no menor de seus mimos, o privilégio dos hotéis exclusivos, em lugar dos alojamentos da Vila Olímpica? Ou a jogadores de vôlei e basquete que, quando atingem o nível de seleção, já podem viver exclusivamente do esporte, como os escritores não conseguem viver só de escrever e os professores não conseguem viver só de um emprego? Não nos detenhamos nos iatistas. Nem nos nadadores que vivem e treinam nos Estados Unidos. Vamos direto a Baloubet du Rouet, cujo nome diz tudo. A um cavalo assim apelidado, o feno não será inferior ao que representa, para um ser humano, o jantar assinado por um Paul Bocuse. Nem o veterinário dispensará tratos menos hábeis do que os contidos em operação cardíaca com a chancela de um Adib Jatene.

Seria covardia assacar o argumento Camarões nesta história, mas vá lá, sejamos covardes e falemos de Camarões. A má sorte de Camarões começa pelo nome. Parece antes uma das terras fantásticas onde Gulliver costumava dar com os costados, em suas voltas pelo mundo. O país dos houyhnhnms, por exemplo. Os houyhnhnms, se o leitor não sabe, eram cavalos, mas que não empacavam, como Baloubet du Rouet. Eram inteligentes e sábios, e tinham o costume de domesticar e colocar a seu serviço certos seres cruéis e irracionais chamados humanos. A República de Camarões, transposta para essa esfera de países imaginários, seria a terra onde esses bichinhos do mar pontificariam, escreveriam livros e iriam à escola. Também possuiriam uma rica cozinha, onde preparariam, à grega ou à baiana, ao catupiry ou na moranga, a carne saborosa de um bicho chamado "homem", que teriam o costume de caçar lançando redes sobre as locas – chamadas "cidades" – onde habitam. Não lhe bastasse o nome, Camarões ainda fica na costa ocidental da África, local privilegiado por portugueses e brasileiros para aplacar a fome de escravos que, durante séculos, os consumiu. E, no entanto, ei-lo campeão olímpico de futebol. A vitória de Camarões mostra que, assim como aos pobres de espírito está reservado o reino dos céus, assim também, aos desprovidos de estruturas e aos providos de mazelas sociais, pode estar reservada uma medalha olímpica.

Esclareça-se, enquanto é tempo, e para evitar mais um mal-entendido, que em nenhum momento o que foi dito aqui teve a intenção de censurar atletas com o suposto argumento de que, apesar de contar com a devida estrutura, foram derrotados. A questão é outra. São as explicações do tipo "mazelas sociais" ou "falta de estrutura". Muito melhor é o argumento de que se perde, no esporte, porque se tem adversário. É isso o que o transforma numa atividade de risco, onde a um dia de vitória sucede um de derrota. Se Shinyashiki renega o argumento, esta página o assume.

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA |