O
efeito Potter
Pequeno bruxo cativa
os adultos
e leva crianças a novos autores
Flávio Moura
Ilustração de Attilio inspirada
em charge da revista The NewYorker
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A
exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos e na Europa, o fenômeno
Harry Potter no Brasil vem acompanhado de efeitos inesperados. O
primeiro deles é a conquista de adeptos no mundo adulto.
Muitos pais aderiram à febre por tabela, mas até aqueles
que não têm uma criança em casa começam
a se curvar ao pequeno bruxo. "Harry Potter nos faz lembrar do menino
que fomos", diz, por exemplo, o ator Miguel Falabella, que já
leu os três primeiros livros da série. Todos os meses,
cerca de 1.000 e-mails sobre Potter chegam à Rocco, editora
que publica a obra no Brasil. Cerca de 20% são de adultos,
ansiosos pelos próximos números ou surpresos com a
reação dos filhos. O resto vem das próprias
crianças. Já tendo lido os dois primeiros títulos
da série, muitas vezes elas escrevem para pedir dicas de
livros parecidos. É aí que entra o segundo efeito
colateral da mania Potter. Uma série de escritores de literatura
infanto-juvenil vem pegando carona na vassoura do jovem mago, graças
à descoberta dessa nova brincadeira a leitura. À
espera do terceiro volume, que chega em dezembro, as crianças
vão às livrarias em busca de obras com temática
semelhante. E acabam encontrando escritores fundamentais do gênero,
que décadas atrás já haviam criado mundos tão
encantados quanto aquele imaginado pela "mãe" de Potter,
a escocesa J.K. Rowling.
Mestres no assunto, os autores Roald Dahl, C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien
compõem a linha de frente desse time. Desde abril, quando
Potter chegou ao Brasil, seus livros, lançados em sua maioria
pela editora Martins Fontes, têm experimentado aumentos consideráveis
nas vendas. Da mesma maneira que Rowling, Tolkien e Lewis (veja
quadro) escreveram sagas ambientadas em terras de fantasia.
Sem desmerecer Rowling, pode-se dizer que eles foram ainda além:
Tolkien chegou a conceber uma linguagem inteiramente nova para sua
terra mítica de elfos e anões. Quanto a Roald Dahl,
embora não tenha feito saga alguma, criou alguns dos personagens
mais queridos pelos ingleses. No início do ano, ele foi eleito
o escritor preferido do país, à frente de Shakespeare
e, claro, de J.K. Rowling, que ficou em segundo lugar. Seu livro
A Girafa, o Pelicano e Eu (tradução de Monica
Stahel; Martins Fontes; 80 páginas; 12 reais) acaba de ser
lançado em português. É bom, mas não
tanto quanto Gremlins e A Fantástica Fábrica
de Chocolate, seus textos mais conhecidos. Adaptados para o
cinema, ambos foram sucesso de bilheteria. Harry Potter segue no
mesmo caminho. O filme baseado nas aventuras do personagem já
está em produção e tem estréia prevista
para novembro de 2001. Para ser literalmente um estouro mundial,
Harry Potter precisa emplacar na China. A um dos maiores mercados
do mundo, os três primeiros romances de J.K. Rowling chegaram
há uma semana, com tiragem de 600 000 cópias no total,
as maiores desde o livro vermelho de Mao Tsé-tung. As vendas
ainda não corresponderam.
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O
feitiço das sagas
Ilustração
Victor
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Potter:
na linha
de Tolkien
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A saga é um gênero literário que nasceu
na Islândia, no século XII, e logo se difundiu
em outros países nórdicos. A princípio
de cunho realista, as histórias de clãs e de
guerreiros pouco a pouco incorporariam elementos míticos.
A influência da saga pode ser vislumbrada nos poemas
e romances de cavalaria da Idade Média, especialmente
naqueles produzidos entre os anglo-saxões. C.S. Lewis
e J.R.R. Tolkien reprocessaram essa tradição.
J.K. Rowling costuma citar os dois autores como suas principais
referências na criação da saga de Harry
Potter, que deve estender-se por sete livros. Crônicas
de Nárnia (1950-56), obra mais conhecida de Lewis,
também tem sete partes. Descreve um reino mágico
que quatro crianças descobrem no interior de um armário.
Tolkien é autor da famosa trilogia O Senhor dos
Anéis (1954-1955). Seus enredos são ambientados
num passado povoado por elfos e anões. Os livros de
Tolkien se esgotaram no Brasil nas últimas semanas.
A editora Martins Fontes promete recolocá-los em circulação
em novembro.
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