A
escolha de Sofia
A filha de Francis Ford Coppola estréia
como
diretora
e mostra que é digna do sobrenome
Isabela
Boscov
Paramount Classics
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| Kirsten
(ao centro), como a mais sensual das virgens, e suas
irmãs: originalidade |
Nenhuma
figura do cinema foi objeto de tanto ridículo e escárnio
na década passada quanto Sofia Coppola, a filha do diretor
Francis Ford Coppola. Aos 18 anos, ela foi convocada às pressas
pelo pai para substituir Winona Ryder (que acabava de ter um chilique
de proporções irremediáveis) no papel da filha
de Al Pacino em O Poderoso Chefão III. Sofia mal tinha
preparo para fazer uma ponta, quanto mais para interpretar a heroína
de um drama. Saiu-se muito mal e entrou para a crônica cinematográfica
como um de seus maiores fiascos. Pois tudo indica que Sofia, agora
com 29 anos, já se livrou do passado. Sua primeira incursão
na direção, As Virgens Suicidas (The
Virgin Suicides, Estados Unidos, 1999), que tem estréia
prometida para esta sexta-feira no Rio de Janeiro, mostra que ela
está longe de ser a ovelha negra do clã que
inclui ainda Nicolas Cage, sobrinho do diretor, e Spike Jonze, o
diretor de Quero Ser John Malkovich, com quem Sofia se casou
no ano passado. A estreante consegue extrair resultados surpreendentes
de um material árduo até para cineastas experimentados:
a história de cinco irmãs que, no espaço de
apenas um ano, cometem suicídio.
Lindas e loiras, as irmãs Lisbon têm entre 13 e 17
anos. Vivem num regime de semiclausura imposto pela mãe,
uma matrona excessivamente religiosa e reprimida, e pelo pai, um
professor de matemática que não tem coragem de contrariar
as ordens da mulher. São o fruto proibido da vizinhança,
em especial Lux (interpretada pela ótima Kirsten Dunst, a
menininha de Entrevista com o Vampiro), a mais provocante
delas. Nem a morte da mais nova, que abre o filme, é capaz
de alertar o casal Lisbon para as conseqüências potencialmente
trágicas de suas regras. É um estudo um tanto radical
das aflições que cercam a adolescência e o despertar
da sexualidade. Sofia, porém, não deixa a mão
pesar. Sua reconstituição quase mitológica
dos anos 70 época em que a trama se passa é
a base sobre a qual ela constrói cenas carregadas de atmosfera,
muito mais eficientes em levar o espectador para dentro do filme
do que a narração que, supostamente, explica os estranhos
fatos. Esse, aliás, é o grande senão da fita.
A diretora baseou-se no livro homônimo (disponível
no Brasil pela editora Rocco), do americano Jeffrey Eugenides. O
romancista imprimiu um tom de perplexidade à sua narrativa,
valendo-se exatamente deste recurso uma "voz" que rememora
as irmãs. No filme, com personagens de carne e osso em cena,
que pouco deixam à imaginação, o truque soa
artificial. Enquanto o narrador insiste em dizer que o suicídio
das irmãs é um "mistério", as imagens mostram
o contrário que os motivos estavam lá e, como
é comum na adolescência, pareciam inexoráveis.
É um problema menor diante da originalidade de As Virgens
Suicidas e da qualidade das atuações, entre as
quais se destacam as de Kathleen Turner e James Woods, como o casal
Lisbon. Sofia, que já trabalhou com moda e fotografia, diz
ter relutado muito em se lançar na nova carreira por se sentir
intimidada por seu sobrenome famoso. Mas numa coisa, pelo menos,
ele a ajudou a conseguir atores e técnicos de primeira
linha para uma produção de orçamento modesto.
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