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O deus das cordas elétricas

Jimi Hendrix morreu há trinta anos. Mas
ele continua insuperável na guitarra

Kiko Nogueira


Leo Feltran


Não são poucos os exemplos de roqueiros que renderam mais dinheiro mortos do que vivos. Para ficar em alguns nomes cultuados: Elvis Presley, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, Raul Seixas, Renato Russo. O guitarrista americano Jimi Hendrix faz parte desse time. Ele morreu em 1970, aos 27 anos, asfixiado em seu vômito por causa de uma overdose de álcool e barbitúricos. Desde então, mais de 100 lançamentos póstumos foram colocados no mercado, a maioria deles meros caça-níqueis. Calcula-se que anualmente sejam vendidos mais de 3 milhões de discos de Jimi Hendrix em todo o mundo. Acabam de ser lançados mais quatro CDs, acomodados em uma caixa, contendo sua valiosa assinatura. Desta vez, porém, a história é diferente: The Jimi Hendrix Experience é uma edição cuidadosa, embalada em capa de veludo, contendo um livro de oitenta páginas com texto e fotos. Papa fina. Ouvindo as 5 a maior parte delas inéditas, sai-se com a certeza de que Jimi Hendrix não é apenas um bom negócio para seus herdeiros: ele ainda é o maior guitarrista do mundo.

A caixa foi organizada por sua família, que ganhou o controle sobre a obra em 1995 e tem relançado seu trabalho de uma forma digna. Não houve necessidade de desenterrar fitas perdidas. Jimi Hendrix registrou praticamente tudo o que tocou. "Ele sempre levava um gravador consigo", diz sua irmã, Janie. Não é um produto feito apenas para fãs. Você acha que Jimi Hendrix era um sujeito histriônico, dado a micagens e a incendiar instrumentos em transe? Ele realmente gostava disso. Mas os CDs apresentam outra face do homem: a de um criador corajoso, aberto a experimentações, que expandiu as possibilidades da guitarra até, praticamente, esgotá-las. Uma versão da psicodélica Purple Haze, de 1967, abre o pacote. Mais longa e hipnótica do que a oficial, tem um final abrupto, acompanhado de risadinhas constrangidas. A balada Little Wing, predileta de guitarristas amadores e profissionais, aparece instrumental, com arpejos delicados. Hey Joe foi gravada num show que o grupo Experience, completado pelos ingleses Mitch Mitchell na bateria e Noel Redding no baixo, abriu para o cantor francês Johnny Hallyday.

Assim como João Gilberto fez com o violão e John Coltrane com o sax tenor, Jimi Hendrix reinventou a guitarra. A partir dele, efeitos antes tidos como indesejados, como a microfonia, passaram a fazer parte da música. Sua interpretação do hino nacional americano, Star Spangled Banner, é uma sinfonia de ruídos harmoniosos. Claro que o selvagem também está presente nos CDs, principalmente na execução ao vivo de Johnny B. Goode, de Chuck Berry, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e Like a Rolling Stone, de Bob Dylan. A exemplo de Dylan, diga-se, Jimi Hendrix era um cantor interessante que foi subestimado. Confira a emoção da inédita It's Too Bad. Esse blues é inspirado em sua relação com o meio-irmão, Leon, e com as patrulhas que o criticavam por não se envolver na militância racial. Mais tarde, ele se dobraria a tais pressões e contrataria um baixista e um baterista negros, montando a chatíssima Band of Gypsys. Essa formação é responsável pelos momentos mais aborrecidos do pacote, quando Jimi Hendrix mergulha em improvisos e solos intermináveis, como em Country Blues.

Jimi Hendrix começou a carreira como acompanhante de gente como Little Richard. Em 1966, visto que não podia brilhar mais do que os chefes, pediu demissão e passou a dar shows nos barzinhos de Nova York. Numa dessas ocasiões, foi visto pelo baixista do grupo Animals, Chas Chandler, que o convenceu a ir a Londres. Lá, montou a banda com Redding e Mitchell, detonou seu arsenal de truques (tocava com os dentes, atrás das costas, o diabo) e virou um fenômeno. De volta à América, o jornal The New York Times chamou-o de Elvis Negro. Gravou apenas quatro discos oficiais. Os três primeiros são clássicos: Are You Experienced, Electric Ladyland e Axis: Bold as Love. Vítima do estilo de vida autodestrutivo dos anos 60, tomou LSD, heroína e outras drogas em quantidades cavalares, namorou várias mulheres e teve uma morte estúpida e precoce. Em quatro anos, revolucionou a música popular, deixando um legado espetacular e milhares de seguidores. Foi entronizado na mitologia do rock como um deus da guitarra jovem, bonito e genial. Se fosse vivo, provavelmente estaria tocando seus antigos hits, diante de platéias prontas a urrar quando aquele senhor conseguisse, afinal, rebolar com seu instrumento, como nos velhos tempos. Além de continuar sendo uma mina de ouro, Jimi Hendrix morreu sem dar tempo para que o tornassem patético.

 

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