Como
gente grande
Exposição mostra crianças
vestidas
e enfeitadas à maneira dos
adultos
em retratos do século XVI ao XIX
| Coleção Fundação
Yannick e Ben Jakober |
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| O
delfim, herdeiro do trono francês, em óleo de 1661: bebê com
expressão compenetrada |
Gêmeos,
pintura do século XVII: túnicas orientais e perucas cacheadas |
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| O
príncipe Luís, futuro rei da Espanha, em tela de 1710: faixa
e manto de monarca |
Menina
do século XVII, com gola de renda e arranjo de pérolas na cabeça:
minoria |
Quem
olha para as crianças de hoje se surpreende ao ver miniadultos
no modo de ser, nas preocupações e na aparência.
Pois há 400, 500 anos era muito pior. Pelo menos na forma
como eram retratadas, as crianças, no mundo pré-fotografia,
vestiam-se e posavam como adultos em miniatura, com o fausto e o
capricho de detalhes que empetecavam a vestimenta dos nobres naqueles
tempos. Uma chance preciosa de conhecer melhor esse lado curioso
da História é a exposição Nins
Retratos de Crianças dos Séculos XVI ao XIX, que
o Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares
Penteado, a Faap, inaugura nesta terça-feira em São
Paulo.
São quarenta quadros reunidos por Yannick Vu e Ben Jakober,
casal de artistas naturalizados ingleses que vive e mantém
uma fundação com seu nome na ilha de Palma de Maiorca,
na Espanha. Nas telas estão retratadas crianças de
idades variadas, a maioria de famílias nobres, outras sem
identificação nem do modelo nem do artista. Em comum,
têm a riqueza das roupas e dos acessórios, e a impressionante
expressão de gente grande no rosto e na pose. No mais marcante,
Retrato de Gêmeos, obra do século XVII da chamada
Escola Austríaca, o espanto vem em dose dupla, nas idênticas
túnicas de bordados dourados, ao estilo oriental, e perucas
de enormes cachos. Numa época em que mais crianças
morriam do que sobreviviam à primeira infância, ter
gêmeos era considerado uma graça excepcional, merecedora
de ser retratada em todo seu esplendor.
Manter
viva a lembrança de um descendente era um dos motivos pelos
quais os nobres, principalmente, encomendavam retrato dos filhos.
Outra função era mostrar aos pais distantes, por força
da guerra ou dos negócios, como cresciam seus herdeiros.
Uma terceira era exibir as feições dos candidatos
a noivo, nos arranjos de casamento esta a finalidade principal
dos retratos de meninas, minoria nesse tipo de arte, retratadas
desde cedo com as luvas, as jóias, as golas de renda e os
arranjos de cabeça de pérolas e pedras preciosas usados
pelas mães. Saias amplas e rodadas, também, mas aí
não havia distinção: em criança, meninos
e meninas as usavam. Isso, nos retratos. No dia-a-dia, a vestimenta
por excelência das crianças durante séculos
foi camisolão e gorro.
Ar compenetrado Das crianças ricas de então,
sabe-se que poucas eram amamentadas pela mãe e a maioria
vivia com a ama-de-leite, isolada da família, até
mais ou menos os 2 anos. Uma vez devolvidas à casa paterna,
brincam e são paparicadas até os 7 anos, quando passam
a ter rudimentos de escrita e leitura. Aos 13, os meninos costumam
ser mandados para a casa de parentes ou amigos, para terminar seu
aprendizado. As meninas começam nessa época a ser
preparadas pela mãe para a função primordial
de sua vida: saber cuidar da casa. No caso das famílias reais,
a rotina, claro, é outra, e muito mais elaborada. O futuro
Luís XIII, delfim (ou herdeiro do trono da França)
nascido em 1601, cuja vida foi registrada por seu médico,
Jean Héroard, em um inestimável diário, começou
a ter aulas de violino e canto com 1 ano e meio, gostava de dançar
e brincar de esconde-esconde e tinha um pássaro de estimação.
Na exposição, outro delfim Luís, nascido em
1661, aparece bebê, com cachinhos, laço na cabeça
e uma espécie de cueiro branco todo bordado. Em vez de sorriso
e mãozinha no ar, mostra-se compenetradíssimo, vertendo
rosas simbólicas.
Na pose e na expressão, Luís é um reizinho.
Na mesma linha, o arquiduque Carlos da Áustria, aos 5 anos,
vestindo armadura, é a miniatura de seu pai na guerra no
retrato de 1690. Outro Luís, o herdeiro da Coroa espanhola,
retratado ainda como príncipe das Astúrias em tela
de 1710, aos 3 anos só tem de criança a touca de renda
toda enfeitada e as bochechas rosadas. No mais, da faixa ao manto,
com cetro e coroa fulgurando atrás, é o perfeito monarca.
Só nos quadros feitos a partir do fim do século XVIII,
as roupas dos retratados ficam mais soltas, mais infantis. É
o começo da mudança de costumes que permitirá
a meninos e meninas, enfim, parecer o que são: crianças.
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