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Larry Ellison
o profeta do caos

Do alto de sua montanha de 50 bilhões de
dólares e da fama de enxergar longe e ser
o homem mau do Vale do Silício, o presidente
da Oracle prevê um terremoto na internet

Eurípedes Alcântara, de Redwood Shores

 
Alan Levenson
Ellison: ele deve ser o Gates da era da internet. O mercado parece concordar e há dois anos infla as ações de sua empresa, a Oracle, que faz programas para gerenciar empresas. Fora do trabalho, ele tem fama de gastador, mulherengo e de arriscar a vida em aventuras no mar e no ar

Larry Ellison, o segundo homem mais rico do mundo e presidente da empresa americana Oracle, quer ganhar ainda mais dinheiro e ser o primeiro, à frente de Bill Gates. Não é tanto pelo dinheiro. Depois do primeiro bilhão, já não faz tanta diferença ter mais no terreno aquisitivo. "Quando você conquista o primeiro bilhão, os carros ficam mais velozes, os aviões mais confortáveis e as mulheres a sua volta ficam com as pernas mais compridas." A partir daí, a pessoa já comprou tudo o que os dólares permitem.

A Oracle, criada por Ellison em 1977, é a segunda maior empresa do mundo de software, os programas de computador. Ainda perde para a Microsoft, que fabrica o onipresente Windows. Questão de tempo, acha Ellison. "A Microsoft não vai morrer. Vai ficar aí como um fóssil de uma era grandiosa mas que, infelizmente, para eles acabou: a era do computador pessoal. A economia mundial agora gira em torno da internet. E a empresa de Gates não é 100% de internet, como a Oracle", diz.

Sua empresa valorizou-se 400% no último ano e vem resistindo bravamente ao terremoto na bolsa de alta tecnologia, a Nasdaq (veja a reportagem seguinte). Ele tem algo mais assombroso a dizer. Chega a ser assustador vindo de alguém cujos programas de banco de dados, gerenciamento e contabilidade via internet são comprados por nove em cada dez empresas de comércio eletrônico na web. Larry Ellison afirma que vai sobreviver apenas uma de cada 1.000 empresas que estão tentando viabilizar-se na internet, as chamadas pontocom. "O reino da fantasia acabou", decreta o bilionário americano. "As companhias gigantes da economia tradicional vão continuar dominando a cena. A internet caiu do céu para elas. Com um custo mínimo podem aumentar dramaticamente sua eficiência."

Há alguns anos, ele não seria levado a sério. Primeiro porque se acreditava que a internet provocaria uma reviravolta sem precedentes na ordem econômica. Pela primeira vez na história do capitalismo, surgira um meio de inverter a cadeia alimentar: os tubarões poderiam em tese ser engolidos pelos lambaris. As pontocom ágeis, tocadas a custo quase zero na internet, iriam pouco a pouco expulsando do cenário as empresas tradicionais. Isso não aconteceu. Ellison não era ouvido também por outra razão. Sua própria empresa chamava a atenção menos do que ele próprio. Era sólida, bem administrada, mas tinha o charme de uma fábrica de bicarbonato. O próprio Ellison distanciava-se das operações, dedicando todas as suas energias a gastar bem o primeiro bilhão de dólares. Sua imagem era a de um playboy, fanfarrão e boquirroto. Estava hipnotizado pelas belas mulheres, as Ferrari, os veleiros e os jatos. Tentou importar um MiG 29, um caça russo de combate velocíssimo e difícil de pilotar, mas o governo americano vetou. Contentou-se com um caça italiano Marchetti, que, sem mísseis nem canhões e com uma eletrônica de bordo modificada, ainda é um de seus brinquedos favoritos. Numa oportunidade, depois de ganhar uma regata com larga vantagem sobre os outros velejadores, Ellison correu para seu jato, decolou e deu rasantes desafiadores sobre os perdedores. "Foi uma criancice", lembra ele.

Aos 56 anos, depois de três divórcios e dois filhos, Ellison passa por uma fase pessoal menos intensa. O projeto que mais o absorve atualmente é a construção de sua casa, réplica de um palácio medieval japonês, orçada em 40 milhões de dólares, às margens de um lago artificial nas colinas de Santa Cruz, na costa dourada da Califórnia. O primeiro bilhão virou 50 bilhões, pela última cotação das ações da Oracle. Há alguns meses sua fortuna pessoal beirou os 60 bilhões de dólares, encostando nos 68 bilhões de Bill Gates. Tudo isso faz sua aura tornar-se cada vez mais iluminada e intrigante, especialmente quando o homem que ela ilumina é muito parecido com um roqueiro madurão que ainda se dá ares de rebelde.

Nesta fase de perplexidade com os rumos das empresas da internet, neste momento em que esse mundo virtual parece equilibrar-se no abismo, entre duas eras diferentes, a da decolagem gloriosa e a do vôo sólido de cruzeiro, aparentemente mais complicado, Larry Ellison pilota uma máquina que não perdeu o impulso para o alto. Ao contrário, a Oracle é uma organização administrativa cada vez mais apoiada na internet e crescentemente mais rica. Todos os processos externos, como venda e assistência ao consumidor, são feitos pela web. Os internos também. Ninguém usa papel na Oracle. Todos os relatórios, a maioria das reuniões e todas as ordens de trabalho são dadas pela web para as 170 filiais espalhadas pelo mundo.

"Usamos a web para tudo e, só com isso, economizamos 1 bilhão de dólares em um ano. No próximo vou economizar mais 1 bilhão", diz Ellison. "A boa notícia é que todas as empresas podem fazer o mesmo." Além dessa distinção prática, Ellison tem sido uma fonte de referência porque poliu sua já famosa reputação de ser um dos poucos visionários do Vale do Silício capazes de enxergar adiante de seu tempo. Sobre esse ponto é interessante conhecer o depoimento de Raymond Lane, o superexecutivo que Ellison contratou para tocar a Oracle em sua fase de playboy e ele próprio demitiu em junho passado para retomar o comando da companhia. "Ellison enxerga três, cinco anos à frente dos competidores. Ele sabe que tem agora a chance real de passar à história como o Bill Gates da era da internet", afirma Lane. Larry Ellison demitiu-o pelo telefone, mas garante que foi Lane que pediu demissão. Quando mostra a sala vazia do ex-homem forte da Oracle, ele conta emocionado que sente falta do colaborador, mas logo recobra a compostura e informa com frieza de contador que só a estrutura administrativa montada em torno de Ray Lane e seu quartel-general custava 100 milhões de dólares por ano. Aos 52 anos, Lane levou da Oracle uma bolada em ações e bônus que, segundo o próprio Ellison, chegou a 2 bilhões de dólares. "Graças à web e a nosso software posso comandar a companhia, uma empresa que fatura 10 bilhões de dólares e tem filiais em todos os continentes", diz Ellison. "Nosso sucesso vem daí, de vender aos outros uma solução que nós mesmos usamos e nos permitirá economizar 2 bilhões de dólares em dois anos."

Como toda grande e genuína revolução tecnológica que a precedeu, a internet veio para ficar. Da mesma forma que o desenvolvimento da energia elétrica, das ferrovias, do telégrafo e do telefone, no final do século XIX, a internet fechou o século XX como uma euforia econômica muito mais febril que todo seu formidável potencial permite sonhar. Exatamente como as revoluções anteriores, a rede mundial começa agora a viver sua hora da verdade, um período de depuração em que a imensa maioria das aventuras comerciais que foram um sopro de alegria nos primeiros anos da web vai simplesmente falir. É o que vem dizendo Larry Ellison.

Recentemente, a revista americana de negócios Business Week listou as empresas que considera as locomotivas da nova economia: Cisco, EMC, Oracle e Sun. Elas têm duas coisas em comum. Primeiro, pouca gente sabe exatamente o que produzem. O Windows, da Microsoft, por exemplo, vem numa caixa colorida e pode ser comprado em lojas especializadas pelo próprio usuário. Todo mundo conhece ou já ouviu falar do sistema operacional Windows. Por outro lado, os programas da Oracle ou da Sun são comprados pelo "pessoal de sistema" das empresas e rodam invisíveis aos olhos dos usuários nas redes de computador e nas máquinas dos provedores de acesso à web. O segundo ponto em comum é que elas são todas empresas que nada têm a ver com computadores pessoais. São empresas cujos produtos servem para fazer funcionar as redes de computadores. "A cada dia surgem maneiras diferentes de se conectar à internet sem um PC. A internet chega pelo telefone, pelo celular, por aparelhos simples e baratos", diz Ellison. Isso significa que Microsoft, IBM e Intel continuam a existir e a prosperar, mas deixam de ser a vanguarda. "Elas saíram de moda", alfineta Larry Ellison.

Claramente a internet encerra agora sua fase inicial de vida. É o fim do começo, na avaliação da revista americana The Industry Standard, que, com a Fast Company e a Wired, compõe o tripé das melhores publicações nascidas com a missão de cobrir a nova economia. O fim do começo tem duas características. Uma delas é a gradativa mas aparentemente irreversível perda de importância do computador pessoal, em benefício de aparelhos mais leves, baratos e simples de navegação na web. A outra é o furacão que se abate sobre as aventuras comerciais nascidas na onda de euforia dos primeiros anos da internet. Há um pessimismo galopante nessa área. No início do ano, na famosa reunião anual do Fórum Econômico, em Davos, na Suíça, Masayoshi Son, o japonês dono do Softbank, diagnosticava do alto de sua autoridade de maior investidor da web: "Apenas uma em 100 empresas pontocom vai sobreviver". Nove meses depois, os prognósticos estão muito mais sombrios. Ellison fala em uma sobrevivente em 1.000. A consultoria americana Merryll Lynch produziu um relatório cuja previsão é de que 100 das 400 empresas de alta tecnologia com ações na bolsa Nasdaq vão estar fora do negócio até 2005. Em que a internet falhou? Com a palavra, Larry Ellison:

"Uma empresa que vende comida de cachorro na internet precisa antes ser uma boa companhia de comida de cachorro na economia tradicional. Não é porque montou umas páginas atraentes na internet que ela se viabilizará. E como ela competirá com dezenas, centenas e até milhares de outros concorrentes que tiveram a mesma idéia? Um belíssimo restaurante com um chef de primeira linha pode e deve passar a quilômetros da internet. É preciso parar de pensar em empresas pontocom como empresas de tecnologia. A maioria das outras pontocom são apenas deformações, fantasias que logo vão sumir no ar tão rápido quanto surgiram".

 

As idéias do homem que deve ser
o Bill Gates da era da internet

Larry Ellison, o segundo homem mais rico do mundo, recebeu Eurípedes Alcântara, diretor adjunto de VEJA, em sua sala na sede da Oracle, em Redwood Shores, cercanias de San Francisco, Califórnia, para a entrevista que se segue:

Veja – Que diferença faz na vida de uma pessoa ter 1 bilhão ou 50 bilhões de dólares?
Ellison – Com 50 bilhões você é ouvido. Isso é muito bom.

Veja – Sua fortuna é do tamanho do PIB de alguns países...
Ellison – É uma coisa louca, surreal. Pensei que tinha ficado rico quando comprei minha primeira casa. Fui criado numa região de classe média, no sul de Chicago. Nunca tivemos muito dinheiro. Ficamos sem trocar de carro por dez anos. Ter 50 bilhões permite atacar questões que de outra forma continuariam intocáveis. Profissionalmente, é o máximo. Porque a Oracle ficou tão rica pudemos fazer algo que nenhuma empresa havia tentado antes, uma solução completa de programas empresariais baseada na internet.

Veja – O que mudou para o senhor pessoalmente?
Ellison – Um bilhão, dois bilhões, um punhado de bilhões de dólares... bem, depois do primeiro bilhão, é tudo a mesma coisa. Você vira uma celebridade, é isso. Mas com 1 bilhão não existe nada mais no mundo que você não possa comprar – carros, casas, jatos, qualquer coisa está dentro de seu orçamento.

Veja – Bem, por maior que seja seu sucesso, o senhor será mais lembrado como o anti-Bill Gates. Isso o incomoda?
Ellison – Não. A Microsoft, a empresa de Bill Gates, cometeu um crime pelas leis deste país. Dona de um monopólio, dos sistemas operacionais com o Windows, ela tentou alavancar outro monopólio, o dos softwares de internet com o Explorer. A empresa de Gates tem problemas com a Justiça deste país, e eles não vão abandoná-lo facilmente. Eles agiram fora da lei. Isso não pode ficar impune. Gates e a Microsoft conseguiram destruir a Netscape. A empresa teve de ser vendida. Do ponto de vista comercial, o monopólio da Microsoft foi um sucesso, pois destruiu o concorrente, mas, do ponto de vista legal, eles ficaram bastante encrencados. A ironia é que eles descobriram muito tarde que roubaram o banco errado. Na visão deles, a destruição da Netscape asseguraria para a Microsoft o monopólio dos programas de navegação pela internet. Foi um erro estratégico. A guerra real não se trava nos PCs individuais de cada usuário, mas num plano mais alto, nos computadores que chamamos de servidores e que controlam o tráfego na rede, entre outras coisas. E nesse mercado a presença da Microsoft não é significativa.

Veja – O senhor ainda acredita que prestou um serviço público contratando uma empresa de detetives para espionar a Microsoft?
Ellison – Sem dúvida. A empresa de Gates queria esconder do público um segredinho sujo, o de que eles financiavam por baixo do pano algumas empresas e instituições que defendiam publicamente a Microsoft no processo de abuso do monopólio que lhe move o governo. Bem, os detetives que nós contratamos descobriram que os defensores da Microsoft não eram independentes como pareciam. Eram contratados pela Microsoft. Tornamos essa armação pública, e com isso acho que prestamos um grande serviço ao povo americano. Claro que os investigadores fizeram algumas coisas desagradáveis, como fuçar no lixo da Microsoft, mas foi esse o preço de trazer à tona fatos de interesse público que a empresa de Gates tentava ocultar.

Veja – Há alguns anos o senhor disse que os PCs estavam com os dias contados e que as pessoas e empresas acabariam comprando máquinas mais simples e baratas, capazes apenas de navegar pela internet. O senhor continua pensando assim?
Ellison – O sol está se pondo sobre a era do computador pessoal. As pessoas não vão mais pagar caro para tê-los em casa quando tudo que querem é navegar pela internet. O PC é uma máquina de transição. Mais alguns anos e ele será esquecido. Não totalmente, é claro. Mas será visto como um equipamento sem charme, complicado, caro. Ninguém mais escreverá reportagens sobre fábricas de PC ou sobre a Microsoft e seu sistema operacional Windows. Agora mesmo se multiplicam os equipamentos para navegar na internet e que não são PCs. A Microsoft vai continuar existindo, mas não será mais a vanguarda tecnológica. Ela se tornará uma empresa tão chata quanto uma fábrica de geladeira. Ou em outra comparação: empresas da era PC, como a Microsoft e a IBM, faziam moda. Agora fazem roupas no atacado. Quem dita a alta moda agora sou eu e as outras empresas vanguardistas da era da internet.  

Veja – O senhor não acha que as pessoas têm fascínio especial pelo PC, como têm pelo automóvel? Ou seja, pouco importa que elas tenham à disposição o melhor sistema de transporte público do mundo, ainda assim ninguém vai querer abrir mão do próprio carro?
Ellison – É uma questão interessante. Mas eu lhe proponho outra: o que você acha mais fascinante, um PC que não pode ser conectado à internet ou um equipamento mais simples e barato cuja única virtude é navegar na rede? Não tenho dúvida de que a maioria das pessoas ficaria com a segunda opção. As pessoas compram PCs por hábito. Cada vez mais as funções de um PC estarão sendo feitas totalmente pelos servidores da internet.

Veja – Qual o próximo passo para a nova economia? Há sensação no ar que para os otimistas é apenas o fim do começo e para os pessimistas, o começo do fim.
Ellison – A idéia de que as empresas novas criadas na internet poderiam dominar o cenário está totalmente sepultada. Elas é que serão varridas da vida econômica numa velocidade muito maior do que o mais pessimista dos analistas poderia prever. Essas companhias começaram a vender ações na bolsa e, mesmo sem gerar um centavo de lucro, passaram a valer, em alguns casos, bilhões de dólares. Ou seja, milhões de pessoas investiram fortunas nelas e perderam tudo. As companhias chamadas BtoB, que fazem a intermediação de vendas entre empresas, têm atividades mais sólidas e certamente não vão desaparecer da noite para o dia. Mas, com exceção do Yahoo! e da Amazon.com, não vejo muitas outras empresas pontocom que tenham chance mínima de sobrevivência no médio prazo.

Veja – Em que elas falharam?
Ellison – Primeiro, não souberam entender o que é a internet. Depois, acreditaram que ela revogaria todas as leis econômicas. A meu ver não existe sequer uma nova economia. Nem velha. O que existe é apenas a economia. A novidade é a tecnologia, especialmente a que permite comunicações globais instantâneas a um custo baixíssimo, ou seja, a internet. Por meio dela, as empresas podem comunicar-se com seus empregados, clientes, fornecedores em qualquer parte do mundo a um custo quase insignificante. As companhias da chamada velha economia que reagirem com vigor a essa nova fronteira aberta pela internet podem tornar-se mais eficientes do que jamais sonharam. Por essa razão, as empresas que têm mais chance de ser fabulosamente bem-sucedidas na internet, diferentemente do que diz o senso comum, são justamente as gigantes da economia tradicional, as GE, as GM, as multinacionais, as companhias bilionárias com operações globais. Quase todas as empresas pontocom vão sumir do mapa.

Veja – Mas sua empresa não é uma pontocom?
Ellison – O Citibank é uma empresa da velha economia? A General Motors é da velha economia? Então eu quero a Oracle funcionando como na velha economia, tomando o partido das novas tecnologias.

Veja – Bem, pelo jeito vai haver uma sangria ainda maior na Nasdaq, a bolsa de valores das empresas de alta tecnologia...
Ellison – A imensa maioria das empresas listadas na Nasdaq vai desaparecer, inevitavelmente. Tive uma conversa interessante com Michael Dell (o maior acionista da Dell Computers e o homem mais rico do mundo com menos de 40 anos – tem 35) num jantar em casa há alguns dias. Michael me lembrava que essa febre já existiu no começo dos anos 80, quando todo mundo achava que podia ficar rico fabricando computadores pessoais, os PCs. Michael lembrava que existiam cerca de 500 montadoras de PCs. Bem, menos de vinte anos depois sobraram apenas três grandes fabricantes nos Estados Unidos. A diferença dessa tolice atual de achar que se pode facilmente fazer fortuna na internet é que, naquela época, os fabricantes de PC não venderam ações antes de gerar lucros. Hoje, qualquer empresa sem pé nem cabeça, como essas pet.coms da vida, que vendem comida de cachorro e gato pela internet, acham que podem ter ações na bolsa. Pobre investidor. Bem, se de 500 fabricantes de PC sobraram três, eu digo que de cada 5 000 aventuras comerciais na web vão sobrar quatro ou cinco. Acredite em mim. Eu conheço o coração dessas pontocom como poucas pessoas no Vale do Silício. Elas parecem nada? Pois bem, elas são nada.

Veja – Seus críticos dizem que seu sistema de administração via web transforma as empresas em computadores, em que todo o lado humano se perde. Os funcionários viram meros robôs...
Ellison – Certos procedimentos funcionam em qualquer parte do mundo. Não adianta querer inventar. Querer ser muito criativo. Isso custa caro. Quer ser criativo? Escreva um romance. As empresas não precisam de criatividade. Precisam de inovação, e isso só se consegue com uma gerência centralizada que una todos os esforços de todas as filiais espalhadas pelo mundo. Isso só se consegue, por um preço viável, via internet. Inove ou morra. Seja uma empresa realmente global ou morra. Esse é nosso lema. Graças à web podemos manter essa estratégia mundial com eficiência e custo baixo. Não quero que nosso pessoal no Brasil se lance a produzir um plano de marketing próprio, enquanto a filial alemã está trabalhando num projeto semelhante. Não quero preços discrepantes. Temos um preço único para qualquer mercado do mundo. Nos 170 países onde estamos presentes, nossos programas custam a mesma coisa em dólar. Basta entrar em nosso site na internet e ver o preço. Acabou aquele blablablá interminável de negociar preços e descontos que tanto feriu nossa imagem no passado. Chegamos a ter 97 diferentes sistemas de e-mails funcionando ao mesmo tempo na empresa. Agora, temos apenas um. Via internet. Todo nosso sistema de e-mail é gerido por um único computador. Antes, eram quase 100, cada um com sua equipe de técnicos. Nossa receita interna é justamente os produtos que vendemos a nossos clientes. Se funcionou aqui, se economizamos 1 bilhão de dólares em um ano, temos segurança de comercializar nosso sistema. Ou seja, vendemos aos outros a mesma ração que comemos.

Veja – E sua ração tem tido aceitação?
Ellison – Bem, nossas ações valorizaram 400% em um ano. Estamos em mais de 90% dos sites de comércio eletrônico do mundo e mais de 90% das maiores empresas americanas são nossas clientes. A General Electric, nossa maior cliente, é considerada a companhia mais admirada dos Estados Unidos. O pessoal da GE tem usado agressivamente nossos programas e nossa visão com o objetivo de ter uma presença dominante na internet. Outras megacompanhias nos Estados Unidos estão fazendo o mesmo. Nós tínhamos um famoso outdoor informando que 93% das companhias pontocom usam nosso software. Mas esse não é mais o foco. Agora o foco do nosso negócio são as 500 maiores e tradicionais. Amamos a GE, amamos o Citibank, amamos os gigantes. A vantagem é que médias e pequenas companhias podem também comprar nosso software.

 

 

 

 

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