O jogo é
livre
Proibidos
no Brasil, cassinos atraem jogadores para as roletas e mesas de
bacará virtuais
Nilson
Vargas
Desde
1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos de
azar no país, os brasileiros assistem a discussões
intermináveis sobre a legalização dos cassinos.
Como faz em todas as áreas, a internet não teve paciência
para esperar o resultado de toda essa conversa. Também nesse
caso, a rede mundial de computadores derrubou fronteiras e atropelou
leis de diversos países, como o Brasil, com dezenas de
sites nos quais os jogadores podem fazer uma fezinha na roleta,
arriscar uns dólares no bacará ou testar a mão
no pôquer.
O
carioca Valter gasta pelo menos 50 dólares por mês
no Golden Cassinos, site em português que já possui
mais de 1.000 brasileiros cadastrados.
"Não tem o charme de um cassino de verdade, mas os jogos
são os mesmos", diz. Valter que tem outro nome e só
aceitou ser entrevistado se sua identidade fosse preservada
ajuda a alimentar um segmento promissor da internet mundial, formado
por quase 700 sites de jogos. Eles devem movimentar mais de 1,2
bilhão de dólares neste ano. Por trás das roletas
virtuais, com algumas exceções, não estão
os cassinos reais. É gente nova pilotando um velho negócio,
em que os lucros costumam ser bem altos, uma vez que, nos jogos
de azar, a probabilidade é sempre muito mais favorável
aos donos da banca. O negócio parece tão promissor
que, nos Estados Unidos, os cassinos tradicionais estão fazendo
lobby para que as leis restrinjam de alguma forma a atuação
dos concorrentes na internet.
Os
cassinos virtuais para brasileiros exibem telas multicoloridas,
cifrões, luzes e fotos de belas mulheres. O English Harbour
tenta tranqüilizar os visitantes: "Somos totalmente licenciados
pelo governo das Bermudas". Em termos de segurança, isso
pouco significa. Os endereços virtuais dos cassinos são
registrados em países que permitem o jogo, como Panamá
e Porto Rico. Operando a partir dessas bases no exterior, os donos
desses sites se acham autorizados a promover a jogatina mesmo onde
ela é proibida. "Dá para trabalhar sem problemas",
diz um jovem paulista, que também não quis identificar-se
e divulga, no Brasil, o Casino Fantasy. Seu cadastro não
passa de 100 pessoas, mas ele garante que cada uma gasta em média
300 dólares por semana. "Já tive um cliente que perdeu
10.000 dólares e outro que ganhou
8.000", afirma.
A
capacidade que a internet tem de transpor fronteiras nacionais como
quem atravessa uma rua sem movimento baratina as autoridades. As
leis antigas são incapazes de resolver os novos dilemas do
mundo digital, e cada governo tenta enfrentá-los de forma
diferente. O da Austrália criou leis amigáveis para
ser um pólo mundial de cassinos virtuais. Nos Estados Unidos,
a opção de restringir esses sites foi um tiro pela
culatra. Eles mudaram para a América Central e o Caribe,
de onde continuam recebendo milhões em apostas de americanos.
A Argentina regulamentou o CasinoSur.
No
Brasil, os organismos de fiscalização não sabem
o que fazer. "Punição por jogo exige flagrante, mas,
para quem está na internet, basta apertar um botão
que as provas somem", diz a chefe de comunicação da
Polícia Federal, Viviane da Rosa. O advogado José
Henrique Lima Neto, que ajudou a redigir o projeto sobre crimes
digitais, em discussão no Congresso, discorda. "Internet
não é faroeste", afirma. "O Brasil tem normas que
se aplicam também à rede." Segundo ele, há
leis e decretos que, levados ao pé da letra, colocariam em
maus lençóis, por exemplo, os vários sites
brasileiros que fazem propaganda de cassinos. Mas, a julgar pela
letargia do governo, todos podem dormir tranqüilos.
Para
quem tem o jogo correndo nas veias, ficou mais fácil mergulhar
no mundo das apostas. Elas são pagas em dólar, com
cartão de crédito internacional. Os valores dos prêmios
são creditados no próprio cartão ou pagos por
cheque emitido em dólar por um banco estrangeiro. "O cheque
chega à casa do jogador pelo correio", diz um publicitário
carioca que representa um cassino muito apreciado por brasileiros.
Alguns jogadores reclamam de atraso no pagamento ou do dinheiro
que nem chegou.
Bingo
e pôquer O sucesso dos jogos de azar virtuais animou
empreendedores da internet brasileira a colocar no ar sites de bingo,
pôquer e apostas mais populares. "Nós melhoramos os
prêmios de acordo com a quantidade de gente no bingo", diz
Alexandre Frankel, do site Banana Games. "Se conseguirmos reunir
50.000 pessoas, eu coloco um carro na
parada." O BitBet faz perguntas sobre tudo, de resultados eleitorais
a boatos sobre namoros entre artistas. O Coliseu pretende lançar
um bingo virtual "totalmente dentro da lei", segundo promete Erico
Azevedo, dono do site. Em geral, os responsáveis pelos sites
acham que essa precaução é desnecessária.
"Por que uma atividade cultural como a nossa precisaria ser autorizada?",
questiona Carlos Guidi, do BitBet. "Se distribui prêmios e
se os donos visam ao lucro, precisa da autorização",
afirma Claudio Considera, da Secretaria de Acompanhamento Econômico
do Ministério da Fazenda.
O
site Muito Legal resolveu desafiar a regra brasileira que proíbe
a distribuição de prêmios em dinheiro. "Como
o site está registrado no Panamá, não precisa
cumprir as leis do Brasil", diz Paulo Buchsbaum, que cuida do endereço.
A promessa é distribuir 1 milhão de dólares
em prêmios nos primeiros doze meses de operação.
O dinheiro viria da dona do site, a empresa americana Pretty Cool
Corporation. VEJA localizou um internauta que diz ter ganho nesse
site o equivalente a 10.000 dólares
em uma rodada de pôquer e, como os demais jogadores, não
quer aparecer. "Alguém ligou pedindo o número da minha
conta e cinco dias depois havia 18.000
reais depositados nela", ele conta. "Foi o dinheiro mais fácil
que já ganhei na minha vida."
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