Geral Perfil

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
O buraco gigantesco na camada de ozônio
Pesquisas apontam vírus entre as causas da obesidade
A clonagem como solução para bichos extintos
Avestruz já é criado em 500 fazendas brasileiras
A inauguração do mega-resort baiano
Joey Skaggs, o impostor criativo
Os cassinos virtuais
Jardins de Santos entram para o Guinness de recordes
Estudo diz que o Viagra não aumenta os riscos cardíacos
GM faz o maior recall da indústria automobilística brasileira
Larry Ellison, da Oracle, anuncia o terremoto pontocom
Exposição mostra trajes infantis da antiga nobreza
Americano invade a alta-costura francesa

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Cuidado com esse sujeito

O americano Joey Skaggs inventa absurdos que
a imprensa e a TV engolem como verdadeiros

João Gabriel de Lima

 

SOPA DE CACHORRO
Em 1994, Skaggs enviou a um canil uma carta de um falso empresário coreano propondo sociedade. Ele pagaria 10 centavos de dólar por animal, com a finalidade de fazer sopa. O caso virou notícia

CIGANOS CONTRA O ESTEREÓTIPO
Em 1982, Skaggs desfilou pelas ruas de Nova York disfarçado de líder cigano. Protestava contra o fato de um mosquito ter recebido o nome da etnia

Em 1995, Baba Wa Simba desembarcou em Londres com fama de terapeuta revolucionário. Nascido no Quênia, filho de missionários americanos, inventara um método para desenvolver o "lado animal" de homens e mulheres. A terapia consistia em ficar de quatro e urrar, para liberar instintos reprimidos. Baba Wa Simba resolveu demonstrá-la em sua turnê londrina. Na frente de uma chusma de jornalistas, exortou os voluntários a emitirem "graaauuurrrrs". "Graaaaaaauuuuuurrrrr, graaaaaaauuuuurrr", responderam os leões de araque, todos de quatro no chão. Para tornar tudo mais realista, atirou ao bando pedaços de carne crua e, em seguida, os convidou a tirar uma soneca reparadora nos moldes da savana africana – amontoados uns sobre os outros. A sessão foi mostrada em vários noticiários da TV inglesa. Dias depois, veio a bomba. Baba Wa Simba era um impostor e alguns de seus seguidores não passavam de atores contratados. O terapeuta era, na verdade, o artista plástico americano Joey Skaggs, famoso nos Estados Unidos pelas peças que prega em programas de TV e jornais. "Assim como os pintores usam telas, eu uso a imprensa como suporte para a minha arte", teoriza, em tom zombeteiro, em seu site na internet. Em sua página eletrônica, é possível encontrar também uma contabilidade dos veículos que já foram enganados por ele. Na lista aparece até a Rede Globo, que teria caído na farsa Baba Wa Simba, ao exibi-la no telejornal Bom Dia Brasil. A Globo não confirma nem desmente ter caído na esparrela.

 

BABA WA SIMBA
O artista aportou em Londres em 1995, na pele de um terapeuta africano. Seu método consistia em fazer as pessoas urrar como leões e comer carne crua. Alguns voluntários ficaram de quatro

CONFESSIONÁRIO AMBULANTE
Vestido como padre, Skaggs foi até onde os pecadores estavam: a convenção do Partido Democrata. Todo mundo achou que era mesmo um religioso

Skaggs, hoje com 53 anos, estudou artes plásticas nos anos 60 e começou como a maioria dos artistas performáticos de seu tempo de juventude: protestando. Participou de eventos contra a Guerra do Vietnã e contra a fome no mundo. No final da década de 70 apurou seu foco. Elegeu um alvo – a mídia – e adotou um estilo – a sátira. Um de seus primeiros trabalhos foi a organização de uma passeata de falsos ciganos. Eles protestavam contra o fato de o inseto responsável por uma praga agrícola ter recebido o nome de "mosquito cigano". Em 1986, inventou que havia uma empresa chamada "Fat Squad", ou "Brigada dos Gordos", cujo serviço básico era enviar parrudões à casa de pessoas que estivessem burlando regimes alimentares. Os integrantes do esquadrão evitariam, usando a força se preciso, que os clientes atacassem a geladeira. Saíram reportagens sobre o assunto nas TVs americana, inglesa, francesa e italiana. Em 1992, desfilou pelas ruas de Nova York disfarçado de padre, pedalando um triciclo acoplado a um confessionário. A intenção era ir até onde os pecadores estavam: a convenção do Partido Democrata. Lá, recebeu vasta cobertura da imprensa. Todos achavam que se tratava mesmo de um religioso.

As brincadeiras de Skaggs são tão absurdas que é difícil imaginar que alguém possa ser enganado. Ele próprio embute em suas "hoaxes" – palavra que usa para definir sua atividade e que em inglês se refere a uma peça que alguém prega – várias pistas de que tudo não passa de piada. O nome do dono da empresa Fat Squad, aquela dos gordos, se chamava Joe Bones, ou Joãozinho Ossos. Interpretando um médico que prometia a cura da calvície mediante transplante de escalpo, ele deu entrevistas dizendo ser descendente de uma tribo de peles-vermelhas. "Os jornais e os programas de TV gostam de mostrar coisas absurdas, e não se importam em checar a veracidade. Eu apenas dou o que eles querem", disse Skaggs a VEJA, por telefone. Não é só isso. Suas mentiras são também cuidadosamente planejadas, como aquela que aproveitou a polêmica em torno da credibilidade dos jurados do caso O.J. Simpson – o "Projeto Salomão", um programa de computador que seria capaz de substituir um júri de carne e osso. Para perpetrá-la, ele pediu emprestado a um amigo um escritório de informática e contratou atores para posar de cientistas co-responsáveis pela empreitada. Ele próprio, na pele do falso Ph.D. Joseph Bonuso (seu sobrenome por parte de mãe), deu entrevista à rede CNN sobre o assunto. Ao fundo, monitores mostravam o retrato de O.J. Simpson. A emissora repercutiu a notícia com juristas. Mais tarde, foi obrigada a se retratar. A peça data de 1995.

Skaggs planeja aportar no Brasil no próximo dia 25 para uma série de palestras em universidades. Ele vive disso e de dar aulas, já que a "arte" que cultiva não é vendável em galerias. Já foi processado algumas vezes. A imprensa, obviamente, o odeia – e ele não pára de dar motivos para tanto. Quando é convidado para entrevistas na televisão, freqüentemente manda amigos em seu lugar – que, é claro, fingem ser ele. Faz o mesmo quando é chamado a posar para fotos. Com Skaggs, todo cuidado é pouco. Em 1994, o jornal The New York Times resolveu publicar um perfil seu, por ocasião de uma "hoax" em que ele forjou a existência de uma empresa coreana que comprava cães para fazer sopa. O artista posou com uma máscara de cachorro. O repórter, para não se comprometer, escreveu a legenda: "Um homem que garante ser Joey Skaggs". É fácil enganar jornalistas? "Eles caem porque a realidade costuma ser mais absurda do que as mentiras que eu invento", disse a VEJA por telefone. Disse mesmo? Quem garante que era ele? Melhor desconfiar. Nesta reportagem, a frase "disse Skaggs" deve ser substituída por "declarou um homem que garante ser Joey Skaggs". É mais seguro.

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco