Cuidado com
esse sujeito
O
americano Joey Skaggs inventa absurdos que
a imprensa e a TV engolem como verdadeiros
João
Gabriel de Lima
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SOPA
DE CACHORRO
Em 1994, Skaggs enviou a um canil uma carta de um falso empresário
coreano propondo sociedade. Ele pagaria 10 centavos de dólar
por animal, com a finalidade de fazer sopa. O caso virou notícia
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CIGANOS
CONTRA O
ESTEREÓTIPO
Em
1982, Skaggs desfilou pelas ruas de Nova York disfarçado de
líder cigano. Protestava contra o fato de um mosquito ter recebido
o nome da etnia |
Em
1995, Baba Wa Simba desembarcou em Londres com fama de terapeuta
revolucionário. Nascido no Quênia, filho de missionários
americanos, inventara um método para desenvolver o "lado
animal" de homens e mulheres. A terapia consistia em ficar de quatro
e urrar, para liberar instintos reprimidos. Baba Wa Simba resolveu
demonstrá-la em sua turnê londrina. Na frente de uma
chusma de jornalistas, exortou os voluntários a emitirem
"graaauuurrrrs". "Graaaaaaauuuuuurrrrr, graaaaaaauuuuurrr", responderam
os leões de araque, todos de quatro no chão. Para
tornar tudo mais realista, atirou ao bando pedaços de carne
crua e, em seguida, os convidou a tirar uma soneca reparadora nos
moldes da savana africana amontoados uns sobre os outros.
A sessão foi mostrada em vários noticiários
da TV inglesa. Dias depois, veio a bomba. Baba Wa Simba era um impostor
e alguns de seus seguidores não passavam de atores contratados.
O terapeuta era, na verdade, o artista plástico americano
Joey Skaggs, famoso nos Estados Unidos pelas peças que prega
em programas de TV e jornais. "Assim como os pintores usam telas,
eu uso a imprensa como suporte para a minha arte", teoriza, em tom
zombeteiro, em seu site na internet. Em sua página eletrônica,
é possível encontrar também uma contabilidade
dos veículos que já foram enganados por ele. Na lista
aparece até a Rede Globo, que teria caído na farsa
Baba Wa Simba, ao exibi-la no telejornal Bom Dia Brasil.
A Globo não confirma nem desmente ter caído na esparrela.
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BABA
WA SIMBA
O
artista aportou em Londres em 1995, na pele de um terapeuta
africano. Seu método consistia em fazer as pessoas urrar como
leões e comer carne crua. Alguns voluntários ficaram de quatro
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CONFESSIONÁRIO
AMBULANTE
Vestido
como padre, Skaggs foi até onde os pecadores estavam: a convenção
do Partido Democrata. Todo mundo achou que era mesmo um religioso
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Skaggs,
hoje com 53 anos, estudou artes plásticas nos anos 60 e começou
como a maioria dos artistas performáticos de seu tempo de
juventude: protestando. Participou de eventos contra a Guerra do
Vietnã e contra a fome no mundo. No final da década
de 70 apurou seu foco. Elegeu um alvo a mídia
e adotou um estilo a sátira. Um de seus primeiros
trabalhos foi a organização de uma passeata de falsos
ciganos. Eles protestavam contra o fato de o inseto responsável
por uma praga agrícola ter recebido o nome de "mosquito cigano".
Em 1986, inventou que havia uma empresa chamada "Fat Squad", ou
"Brigada dos Gordos", cujo serviço básico era enviar
parrudões à casa de pessoas que estivessem burlando
regimes alimentares. Os integrantes do esquadrão evitariam,
usando a força se preciso, que os clientes atacassem a geladeira.
Saíram reportagens sobre o assunto nas TVs americana, inglesa,
francesa e italiana. Em 1992, desfilou pelas ruas de Nova York disfarçado
de padre, pedalando um triciclo acoplado a um confessionário.
A intenção era ir até onde os pecadores estavam:
a convenção do Partido Democrata. Lá, recebeu
vasta cobertura da imprensa. Todos achavam que se tratava mesmo
de um religioso.
As
brincadeiras de Skaggs são tão absurdas que é
difícil imaginar que alguém possa ser enganado. Ele
próprio embute em suas "hoaxes" palavra que usa para
definir sua atividade e que em inglês se refere a uma peça
que alguém prega várias pistas de que tudo
não passa de piada. O nome do dono da empresa Fat Squad,
aquela dos gordos, se chamava Joe Bones, ou Joãozinho Ossos.
Interpretando um médico que prometia a cura da calvície
mediante transplante de escalpo, ele deu entrevistas dizendo ser
descendente de uma tribo de peles-vermelhas. "Os jornais e os programas
de TV gostam de mostrar coisas absurdas, e não se importam
em checar a veracidade. Eu apenas dou o que eles querem", disse
Skaggs a VEJA, por telefone. Não é só isso.
Suas mentiras são também cuidadosamente planejadas,
como aquela que aproveitou a polêmica em torno da credibilidade
dos jurados do caso O.J. Simpson o "Projeto Salomão",
um programa de computador que seria capaz de substituir um júri
de carne e osso. Para perpetrá-la, ele pediu emprestado a
um amigo um escritório de informática e contratou
atores para posar de cientistas co-responsáveis pela empreitada.
Ele próprio, na pele do falso Ph.D. Joseph Bonuso (seu sobrenome
por parte de mãe), deu entrevista à rede CNN sobre
o assunto. Ao fundo, monitores mostravam o retrato de O.J. Simpson.
A emissora repercutiu a notícia com juristas. Mais tarde,
foi obrigada a se retratar. A peça data de 1995.
Skaggs
planeja aportar no Brasil no próximo dia 25 para uma série
de palestras em universidades. Ele vive disso e de dar aulas, já
que a "arte" que cultiva não é vendável em
galerias. Já foi processado algumas vezes. A imprensa, obviamente,
o odeia e ele não pára de dar motivos para
tanto. Quando é convidado para entrevistas na televisão,
freqüentemente manda amigos em seu lugar que, é
claro, fingem ser ele. Faz o mesmo quando é chamado a posar
para fotos. Com Skaggs, todo cuidado é pouco. Em 1994, o
jornal The New York Times resolveu publicar um perfil seu,
por ocasião de uma "hoax" em que ele forjou a existência
de uma empresa coreana que comprava cães para fazer sopa.
O artista posou com uma máscara de cachorro. O repórter,
para não se comprometer, escreveu a legenda: "Um homem que
garante ser Joey Skaggs". É fácil enganar jornalistas?
"Eles caem porque a realidade costuma ser mais absurda do que as
mentiras que eu invento", disse a VEJA por telefone. Disse mesmo?
Quem garante que era ele? Melhor desconfiar. Nesta reportagem, a
frase "disse Skaggs" deve ser substituída por "declarou um
homem que garante ser Joey Skaggs". É mais seguro.
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