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Uma nova safra de Dollys

Cientistas apostam na clonagem para salvar
espécies animais em risco de extinção

Bia Barbosa

 
AP
AP
A vaca Bessie, que dará à luz um gauro, "parente" distante do búfalo: filhote produzido das células da pele

Na escola, o professor pergunta aos aluninhos:

– Como se chama o filhote do leão?

E a criançada responde confiant>

– Leãoziiiiinhooooo, professor!

– E o filhote da vaca?

– Bezeeeeerrooooo!!!!, grita a classe.

Imagine o que vai acontecer com a vida do professor e com a cabeça da criançada se a ciência for bem-sucedida na seqüência de experimentos genéticos ligados à clonagem de animais. Do útero de uma leoa vai nascer um tigrinho. Da barriga de uma ursa parda sai o filhote de outro tipo de urso, um pandinha. A série terá início dentro de um mês, quando uma vaca do Estado de Iowa, nos Estados Unidos, irá parir um filhote de um gauro, um parente distante do búfalo, típico do sudeste da Ásia. Noé, como já foi batizado o animal, foi clonado e implantado pelos cientistas no útero da "mamãe" vaca, chamada Bessie. O anúncio da gravidez foi feito na semana passada. O feto ainda não nasceu, mas a equipe que o fabricou em laboratório já comemora o resultado.

Esses animais são descendentes diretos da tecnologia que criou a ovelha Dolly, há três anos. Além disso, todos eles estão em via de extinção. Os ambientalistas calculam que só existam 1.000 pandas no mundo. Daí por que os laboratórios planejam cloná-lo e gestá-lo no útero de uma ursa. O mesmo acontece com o tigre de Sumatra, espécie com menos de 400 animais. A barriga da leoa pode ser a salvação. "O homem acabou com as chances de esses animais sobreviverem", diz Robert Lanza, o responsável pela pesquisa e vice-presidente da empresa Advanced Cell Technology. "Agora chegou a hora de usar a ciência para tentar salvá-los."


Bios

Bucardo (foto), tigre de Sumatra e panda gigante: bichos podem ganhar sobrevida no útero de outras espécies animais


Para produzir Noé, a equipe de Robert Lanza retirou o código genético de um dos óvulos de Bessie, a vaca, e inseriu nele o DNA de uma célula da pele de um gauro macho. O resultado foi um embrião geneticamente puro, com as mesmas características do gauro doador. A célula gerou um embrião saudável e foi bem-aceita no útero da vaca. Antes de chegar a Noé, os pesquisadores da Advanced Cell fizeram 692 tentativas. Noé foi o único sobrevivente. É um processo de pouca eficiência. Comparada à criação de Dolly, a gestação de Noé foi mais complexa. Para fabricar sua ovelha, Ian Wilmut precisou implantar 277 embriões. Todos, com exceção de Dolly, foram abortados prematuramente porque apresentavam deformações.

Na mesma semana em que a gestação de Noé foi divulgada, os pesquisadores americanos anunciaram um passo ainda mais ousado. Dentro de três semanas pretendem clonar um cabrito montês morto há nove meses. Ele era o último exemplar de um bucardo, espécie típica dos Pirineus espanhóis, e teve seu DNA recolhido pouco antes da morte. A amostra foi congelada e deve ser colocada no óvulo de uma cabra de outra raça. Como o animal morto era uma fêmea, e a idéia dos cientistas é recuperar a espécie de forma que se reproduza naturalmente no futuro, o experimento exige um segundo passo. Ele consiste na "criação" de um macho com base no material genético da fêmea original. "Vamos ter de pegar emprestado o cromossomo que define o sexo masculino de outra espécie parecida", explica Lanza. Alguns especialistas alertam que, mesmo que a experiência dê certo, a espécie estará condenada. "Não existirá diversidade genética alguma, o que diminui as chances de sobrevivência do grupo", explica Rodolfo Rumpf, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa.

 

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