"O álcool
alivia o stress"
Em
suas memórias, Ieltsin revela detalhes
de sua doença pública: o alcoolismo
Semiparalisado
por um derrame em 1922, o fundador da União Soviética,
Vladimir Lenin, morreu dois anos depois, com hemorragia cerebral.
Os soviéticos só souberam de sua invalidez após
o enterro. Hipertenso e diabético, Leonid Brejnev (1906-1982),
nos últimos anos, só andava amparado e enrolava a
língua. Konstantin Chernenko (1911-1985) governou a URSS
por doze meses, despachando secretamente do hospital. Boris Ieltsin
obviamente nunca conseguiu esconder sua doença quase terminal,
o alcoolismo. Nos últimos anos à frente do governo
da Rússia, que ajudou a montar dos escombros do império
soviético, quase arrastou para o ridículo o pouco
que restava da liturgia do cargo confiado a ele pelos eleitores
em 1996. Agora, no terceiro volume de sua autobiografia, lançado
na semana passada em Moscou, Ieltsin fala sem rodeios de seu hábito
de beber até se embriagar e dos constrangimentos que isso
lhe criou. Candidamente contou que estava meio alto quando, em 1994,
num desfile militar em Berlim, resolveu "reger" a orquestra usando
uma batuta improvisada. "Percebi que o álcool era a única
maneira de aliviar o stress", confessa.
Ieltsin,
é claro, não pretendeu expor seus problemas etílicos
nas 400 páginas de Diários da Meia-Noite, mas
contar ao mundo como foram seus últimos anos à frente
da segunda maior potência nuclear do planeta. Porém,
como acontece com toda obra do gênero, a maioria das pessoas
só prestou mesmo atenção nos detalhes mais
picantes. Um deles envolve o presidente Bill Clinton. O russo revela
o conteúdo de um estranho despacho recebido de seu serviço
secreto em Washington. No telegrama, o araponga relata a Ieltsin
que seu colega americano também tem um vício e que
isso é sabido até pelas pedras de mármore branco
do monumento a Abraham Lincoln na capital dos Estados Unidos. "O
despacho em código dizia que Clinton tinha uma especial predileção
por mulheres jovens e bonitas", escreveu Ieltsin. "Seus inimigos
republicanos planejam plantar uma jovem provocadora entre os auxiliares
diretos do presidente, de modo a criar um escândalo sexual
capaz de arruinar a reputação de Clinton." Pode ser.
O relato teria sido enviado um ano antes de o escândalo Monica
Lewinsky estourar. Ligados por laços óbvios de simpatia
mútua, Ieltsin e Clinton nunca tocaram no assunto
pelo menos a tempo de evitar o escândalo. Boris Ieltsin justifica-se
dizendo que achava Clinton esperto o bastante para se livrar da
armadilha sem muitos danos. Foi uma péssima avaliação.
Clinton reconheceu recentemente numa entrevista à rede de
televisão inglesa BBC que sua queda por mulheres quase arruinou
o legado de sua Presidência. "Se eu falasse alguma coisa,
poderia magoá-lo desnecessariamente", disse Ieltsin. Grande
amigo-da-onça.
No
lado sério da obra, o ex-presidente russo revela que em 1996
esteve a ponto de proibir as atividades do Partido Comunista, dissolver
o Congresso e adiar as eleições. Com seu índice
de aprovação em 3%, o líder russo concluiu
que não conseguiria virar o jogo contra os adversários.
"Sabia que iria pagar um preço alto por isso, mas cheguei
a ordenar que os decretos fossem preparados", admite. Convencido
na última hora por seus assessores, recuou e acabou vencendo
o pleito, depois de amealhar o apoio de poderosos empresários
do país. A proximidade com os oligarcas russos levantou suspeitas
de corrupção no governo. Ieltsin ficou rico? Seria
ingênuo esperar uma revelação na autobiografia.
Ele faz uma lista de seus bens que considera mais valiosos, incluindo
300.000 dólares em dinheiro, um apartamento, uma chácara
nos arredores de Moscou, a geladeira da família, uma raquete
de tênis e um gravador, este último usado para registrar
as reflexões de seu período no Kremlin.
Os
detalhes de seu último dia como primeiro homem da Rússia
também mereceram um capítulo à parte. Fez suspense
até o instante final e só contou à família
momentos antes de se dirigir à nação pela TV
para comunicar a renúncia, com a conseqüente entrega
do cargo a Vladimir Putin, no dia 31 de dezembro do ano passado.
Mais que o posto mais alto, Ieltsin também se livrou de um
fardo que carregou durante seus oito anos de poder: a maleta com
o botão que controla o arsenal nuclear do país. "Tome
conta da Rússia", recomendou. Ao sair do estúdio,
o telefone de seu carro tocou. Era Bill Clinton. O russo se recusou
a atender. "Diga-lhe para ligar mais tarde." Sentia-se leve como
se tivesse tomado as doses que lhe aliviavam o stress nos dias mais
difíceis. Finalmente estava aposentado.
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