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" Agora, é guerra "

A opção do confronto total é tão ruim que
reside aí a esperança da retomada do
diálogo entre israelenses e palestinos

 

Fotos AFP/AP

F
Cenas brutais: o corpo de um israelense capturado em Ramallah é jogado pela janela da delegacia e a turba continua o linchamento. Um palestino sai à janela e mostra as mãos com o sangue da vítima

A esperança de uma solução de paz quase desapareceu. Na quinta-feira passada, depois de um período de violência que já dura várias semanas, uma multidão de palestinos linchou dois israelenses em Ramallah, uma cidade perto de Jerusalém. Segundo a versão dada depois pelos israelenses, os dois homens eram reservistas do Exército que fizeram um contorno errado num ponto do caminho e, por azar, foram parar com seu carro no centro da cidade palestina. Ali, despertaram a desconfiança da multidão e foram levados para uma delegacia palestina, sob a suspeita de que seriam agentes israelenses infiltrados para espionar os movimentos dos árabes. Resultado: um grupo de palestinos enfurecidos invadiu a delegacia para fazer justiça com as próprias mãos. A mulher de um dos israelenses teve a infelicidade de ligar para o celular dele exatamente naquela hora. "Estamos matando seu marido", respondeu o homem que atendeu à ligação. Estavam mesmo. À base de pancadas. Nem a morte acalmou a turba. Jogado pela janela, um dos corpos continuou a ser pisoteado e arrastado pelas ruas. Mais tarde, a versão palestina do linchamento os identificaria como integrantes de um "esquadrão da morte" especializado em seqüestrar e matar lideranças árabes no território.



A represália: helicópteros israelenses disparam mísseis contra alvos urbanos (na foto, o momento exato em que a delegacia é bombardeada)

O assassinato brutal dos dois homens, que seria depois apresentado na televisão do país, levou à beira do descontrole uma situação que já era gravíssima. A partir daquelas cenas de volúpia assassina em que um dos matadores dos israelenses exibia as mãos vermelhas de sangue diante de uma multidão em delírio, Israel pôs em funcionamento sua formidável máquina militar e desencadeou uma represália a que não faltou sequer o disparo de mísseis. Helicópteros de combate atiraram as bombas contra a delegacia onde havia acontecido o linchamento e contra o prédio da rádio Voz da Palestina, acusada de incitar a violência, em Ramallah. Também foi atingida uma guarita a poucos metros da sede do governo palestino em Gaza.

A batalha dos últimos dias coroou um período de confrontos no qual os mortos passaram de 100 e a vítima mais grave – o processo de paz – entrou em agonia. No fim da semana, a correria diplomática dos países diretamente envolvidos nas negociações já nem pretendia mais retomar o diálogo de paz, iniciado em 1991 e interrompido em julho último. O objetivo imediato era simplesmente obrigar as duas partes a se sentarem à mesa para acabar com a matança.

A explosão de violência seguiu um caminho conhecido. Uma brutalidade cometida por um dos lados é imediatamente rebatida com outra. Os radicais dos dois lados ganham espaço e é por aí que a situação degringola. Fragilizado politicamente, acusado pela direita de ser condescendente demais com o inimigo, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, seguiu à risca o roteiro quando o país assistiu pela televisão às cenas pavorosas do linchamento de dois israelenses em Ramallah. Mandou cobrar a fatura a preço elevado.


AP

Enterro de uma vítima palestina: mais de 100 mortos em duas semanas de conflitos e o processo de paz agonizante


"Consideramos os bombardeios uma declaração de guerra por parte de Israel", reagiu o líder palestino, Yasser Arafat. O vice-primeiro-ministro de Israel deixou claro que está com a mesma disposição de ir para a trincheira, como Arafat. "Foi Arafat quem escolheu esse caminho. Ele quer a guerra, e ponto final. O processo de paz está morto."

São palavras ditas no calor da conflagração, mas perigosamente próximas da verdade. Nessa região, costuma prevalecer uma perversa lei de Murphy: quando as coisas começam a dar errado, tendem a seguir esse curso até o fim. A última explosão de violência aconteceu exatamente num momento em que Ehud Barak e Yasser Arafat andavam flertando com seus respectivos radicais. O vulcão começou a ferver no dia 28 de setembro, quando o general Ariel Sharon, líder da direita israelense, foi pavonear-se na praça onde ficam as duas mesquitas reverenciadas pelos muçulmanos, na parte antiga de Jerusalém. Em lugar de repudiar a provocação, Barak passou a atribuir a previsível reação da massa palestina a uma manobra insuflada deliberadamente por Arafat. Na semana passada, diante do agravamento da crise, ele propôs um governo de união nacional, com direito a um ministério para o provocador general Ariel Sharon. Arafat também tem gostado do prestígio recuperado desde que engrossou o tom e rompeu as negociações. Mestre da ambigüidade, tem feito agrados ao Hamas, a organização fundamentalista que ele simultanemanete reprime e tenta cooptar. Depois do bombardeio israelense, mandou abrir as portas das cadeias e soltar 350 presos, entre os quais algumas dezenas de terroristas condenados por ataques contra Israel.

O otimismo é um artigo desvalorizado nessa parte do mundo e fica mais depreciado ainda em momentos como esse. Convém, no entanto, rememorar o que já aconteceu – e que durante tanto tempo pareceu impossível. Arafat e sua turma renunciaram ao terrorismo e reconheceram o direito de Israel à existência. Israel admitiu o retorno deles à Palestina e devolveu – pouco, mas devolveu – algo dos territórios ocupados. Ninguém fez isso por convicção pacifista. Palestinos e israelenses vivem num mesmo território sobre o qual têm direitos históricos irrenunciáveis. A menos que um lado extermine o outro, hipótese obviamente impossível, só restam duas opções: o conflito permanente ou a paz negociada.

 

 

 

Todo mundo paga a conta

O rombo no destróier americano : dispara o preço do petróleo

Para o mundo globalizado, plugado e internetizado, as cenas de violência tribal no Oriente Médio são de um arcaísmo insuportável. Tão ou mais surrealista foi o espetáculo paralelo que aconteceu no Iêmen enquanto palestinos e israelenses se pegavam a pedradas e tiros: um bote inflável se aproximou do destróier USS Cole, portento de tecnologia da Marinha de Guerra americana. De repente, os dois homens que iam no barquinho ficaram em posição de sentido e buuum! A explosão abriu um rombo de 6 metros por 12 no casco do destróier, um gigante com 350 tripulantes que fazia escala para abastecimento a caminho do Golfo Pérsico para participar do bloqueio naval contra o Iraque. O atentado deixou dezessete marinheiros mortos e 36 feridos. A coincidência entre os dois acontecimentos nefastos – o recrudescimento da violência nos territórios palestinos e a explosão no navio – serviu para lembrar ao mundo que vive na fronteira da modernidade como os problemas antigos podem provocar confusão. O petróleo subiu mais um pouco, batendo nos 37 dólares, o euro caiu outro tanto, e voltou a imperar a sensação de que todo mundo acaba pagando a conta pelas encrencas no Oriente Médio.


Um dos marinheiros feridos

A única coisa boa disso tudo é que já foi bem pior. No tempo em que ainda existia a União Soviética, um conflito generalizado no Oriente Médio tinha o potencial de deflagrar o apocalipse, na forma da guerra nuclear com os Estados Unidos. Desse risco, felizmente, o mundo está livre. Também parece remota a hipótese de outro embargo do petróleo, como o decretado pelos produtores do Oriente Médio depois da guerra árabe-israelense de 1973. Os governos da região têm uma tradição de dar firmes manifestações verbais de apoio à causa dos palestinos – e deixá-los na mão, quando não persegui-los sem dó nenhuma. As declarações mais dramáticas em favor dos irmãos de fé reprimidos por Israel costumam mirar mais o público interno, genuinamente revoltado com a sorte dos palestinos e dos santuários muçulmanos em Jerusalém. A simples volatilidade da crise, porém, já traz efeitos deletérios. O petróleo está em fase de alta e qualquer agitação nas águas só turbina a cotação. Os efeitos batem no mundo inteiro, em especial nos países latino-americanos aos quais o FMI anda recomendando a adequação dos preços internos dos combustíveis às cotações internacionais do produto. Adivinhem para quem vai sobrar?

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