A
religião das lajotas
Ilustração Pepe Casals
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Na
semana passada, fundei uma nova religião. Quem quiser me
seguir, que siga. Mas fique bem clara uma coisa: não estou
à procura de fiéis ou apóstolos. Em geral,
uma religião assume o nome de seu profeta. Humildemente,
abro mão desse privilégio. Aliás, é
melhor que minha religião nem tenha nome. É uma
vantagem que leva sobre as religiões oficiais. Há
outras vantagens, claro: minha religião não interfere
em sua vida privada, como o catolicismo, o judaísmo, o
islamismo; não cobra dízimo nem faz programas de
TV, como as seitas evangélicas; não comete crueldades
contra animais, enterrando sapos ou degolando galinhas, como acontece
na macumba. Pode-se alegar, por outro lado, que minha religião
não produziu as obras artísticas, arquitetônicas,
literárias e filosóficas das grandes religiões,
mas acho que é só uma questão de tempo.
Como eu dizia no começo deste artigo, minha religião
surgiu na semana passada. Foi a semana mais difícil da
minha vida. Não importa o motivo. Fatos pessoais. Mas confie
em mim: mais difícil, impossível. Na segunda-feira,
aguardando o resultado de um importante exame médico, comecei
a andar de um lado para o outro na saleta de espera de um hospital.
O piso da saleta de espera era composto de lajotas cinzas de 40
centímetros quadrados. Quando me dei conta, vi que, a cada
passo, eu evitava cuidadosamente pisar nas interseções
das lajotas. Naquele instante, passou por minha cabeça
a insana idéia de que, se por acaso eu pisasse numa daquelas
interseções, o resultado do exame médico
seria desastroso. Fiquei uma hora na saleta de espera, caminhando
freneticamente de uma parede à outra, sem jamais pisar
numa interseção de lajota. Ao final desse período,
os médicos deram o resultado do exame: negativo.
Nunca fui supersticioso. Nunca acreditei em sorte ou azar. Confrontado
com uma dificuldade muito grande, porém, meu agressivo
racionalismo desmoronou e comecei a caminhar pulando de lajota
em lajota. Ainda tentei me justificar dizendo que aquilo não
era superstição, mas apenas um rito, uma espécie
de mantra para diminuir a tensão. Mas é um engano.
Interseção de lajota é igualzinho a gato
preto, número 13 ou sal derramado. Pior: como eu também
não sou religioso e não tenho um santo para o qual
rezar, as lajotas se transformaram em minha religião, em
minha divindade. Embora não acredite inteiramente nelas,
temo-as.
A semana passada foi rica em matéria de notícias.
De vez em quando, entre uma lajota e outra, eu abria o jornal
e dava uma olhada nos títulos. A revolução
na Iugoslávia ou a guerra na Palestina teriam sido bons
temas para esta coluna. Mas não deu. Fiquei enfurnado em
minhas questões pessoais. Não consegui pensar no
resto. Dane-se a Iugoslávia. Dane-se a Palestina. Esta
é a semana do psicodrama. Mas, se eu não estivesse
com a cabeça tão ruim, tentaria estabelecer uma
conexão iluminante entre minhas lajotas e a Iugoslávia
ou a Palestina. Se um sujeitinho teoricamente sensato e racional
como eu acaba por acreditar no poder mágico de umas lajotas
de hospital, o que dizer de toda aquela gente exaltada junta,
cada qual com a sua lajota ou religião? É um milagre
que a humanidade ainda não se tenha destruído.