Só
mitos nos separam
Embaixador dos EUA no Brasil
diz que
mal-entendidos de lado a lado ainda
afetam as relações entre os dois países
Eurípedes
Alcântara
Claudio Rossi
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"O
Brasil mudou
de patamar no cenário mundial. Tornou-se um líder
e um porta-voz"
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Quando
querem destacar as habilidades políticas de Anthony Harrington,
58 anos, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, os amigos lembram
as circunstâncias de sua aprovação pelo Senado
americano. Durante um ano e quatro meses a Casa Branca tentou
nomear um embaixador para substituir em Brasília Melvyn
Levitsky, que se aposentara. Em vão. A Comissão
de Relações Exteriores, liderada por ultraconservadores
republicanos, barrava uma a uma as indicações do
presidente Bill Clinton. Quando surgiu finalmente o nome de Harrington,
sócio da Hogan & Harston, o maior e o mais tradicional
escritório de advocacia dos Estados Unidos, democrata de
carteirinha, amigo pessoal dos Clinton, a aprovação
saiu em uma semana. Há oito meses no posto, Harrington
e sua mulher, Hope, estão ainda se adaptando ao Brasil,
mas já encontraram mais similaridades de temperamento entre
os dois povos do que diferenças. Para acelerar o aprendizado
do idioma local, o casal cercou-se, na residência oficial,
de empregados que só falam português.
Veja Apenas duas semanas depois de sua chegada ao Brasil,
em fevereiro, o ministro das Relações Exteriores,
Luiz Felipe Lampreia, declarou que as relações entre
os dois países estavam em seu pior nível em trinta
anos. Não foram as boas-vindas que o senhor esperava, certo?
Harrington
Foi uma maneira interessante de recepcionar um novo embaixador
dos Estados Unidos. Mas, principalmente, foi motivo de muitas
gargalhadas. Num telefonema a Rubens Barbosa, embaixador brasileiro
em Washington, brinquei que tinha batido um recorde. Bastaram
quinze dias no Brasil e já havia conseguido deixar as relações
bilaterais em seu pior estado em trinta anos. Meu amigo Lampreia
se apressou em me ligar para esclarecer que se referia especificamente
a certos pontos da pauta de exportação brasileira,
especialmente à questão do aço. Ele não
fazia alusão às nossas relações como
um todo. Aliás, nesse ponto, ouvi pessoalmente do presidente
Cardoso que elas estão "melhores do que nunca".
Veja O senhor foi o primeiro diplomata americano a declarar
sem rodeios que considera o Brasil uma liderança consolidada
não apenas entre os países em desenvolvimento mas
também em nível mundial. Quais são as evidências
disso?
Harrington
O Brasil realmente mudou de patamar no cenário mundial.
Tornou-se um líder e um porta-voz. Diria mais: é
uma fonte nova de pensamento sobre os destinos do mundo em desenvolvimento.
Ouvi diretamente do presidente Clinton que deveríamos tratar
o Brasil como um sócio igualitário daqui para a
frente. Antes de vir para Brasília, senti que era desejo
da Casa Branca e do Departamento de Estado que o novo embaixador
se concentrasse em questões positivas que engajassem os
dois maiores países do continente de uma maneira cada vez
mais próxima. É exatamente o que tenho tentado fazer.
Veja O Brasil tem sido acusado veladamente por diplomatas
estrangeiros de querer apenas os benefícios da liderança,
fugindo do ônus que a nova situação acarreta.
O senhor concorda?
Harrington
Bem,
acho que o Brasil está se movendo, assim como os Estados
Unidos tiveram de se mover, de uma posição típica
de país continental voltado para ele próprio para
uma posição de abertura para o mundo. E está
fazendo isso na hora certa. A globalização está
tornando o mundo menor, e os países mais abertos ao exterior
e prontos a mostrar liderança serão aqueles que
se beneficiarão mais do processo. Não ouvi a crítica
que você menciona. Ao contrário. O papel do Brasil
como membro temporário do Conselho de Segurança
da ONU foi muito elogiado por todos os nossos diplomatas. Mas
é óbvio que a liderança traz certos ônus,
até mesmo de ordem econômica. Acredito que o Brasil,
se continuar mantendo sua economia no rumo do crescimento, será
capaz de financiar sua crescente participação no
cenário mundial e nas missões de manutenção
de paz da ONU.
Veja Muitas vezes a situação diplomática
não reflete o sentimento das pessoas dos dois países.
O senhor não acha que fora dos meios diplomáticos
o antiamericanismo está em alta no Brasil?
Harrington
Honestamente, não. O que há é um sentimento
forte com relação às questões de trocas
comerciais entre os dois países. Nesse ponto, estou disposto
a aplainar as diferenças com todo o vigor de meu trabalho.
Espero poder transformar as atuais rivalidades e discordâncias
em acordos comerciais lucrativos para os dois lados. Na verdade,
as disputas comerciais entre os Estados Unidos e o Brasil são
muito limitadas. As manchetes dos jornais sobre o assunto não
refletem a real temperatura das questões. No fundo, os
americanos querem vender mais trigo para o Brasil e os brasileiros
querem vender mais suco de laranja e açúcar para
os Estados Unidos. Isso se resolve. É interessante notar
que nas questões comerciais fundamentais, como a redução
de subsídios e a abertura de mercados, Brasil e Estados
Unidos estão sentados do mesmo lado da mesa.
Veja Ainda assim, acho que predomina no Brasil a sensação
de que os Estados Unidos falam em abertura de mercado mas não
a praticam quando isso prejudica seus interesses...
Harrington
Isso
é apenas um mito que os brasileiros cultivam. Os Estados
Unidos são o país de economia mais aberta do mundo.
Como podemos ser chamados de protecionistas se temos um déficit
de 331 bilhões de dólares comercializando com o
resto do mundo? Nossa tarifa de importação média
é de 2% a 3%, enquanto a do Brasil é de 14%. Tenho
um dado ainda mais convincente sobre esse assunto. No ano passado,
dos 11,3 bilhões de dólares em mercadorias que o
Brasil exportou para os Estados Unidos, nada menos do que 7,8
bilhões entraram no mercado americano com tarifa zero.
Não digo perto de zero, mas zero. Ou seja, 68% das exportações
brasileiras para os Estados Unidos não pagam um centavo
de tarifa alfandegária. Mas concordo que sempre haverá
mal-entendidos. Na nossa opinião, eles devem ser resolvidos
com a ajuda da Organização Mundial do Comércio.
No futuro, essas questões vão praticamente sumir
quando estiver funcionando o FTAA ou a Alca, o amplo acordo de
livre comércio que ambicionamos ver no continente. Mas
cultivar mitos errados sobre outros países não é
um problema exclusivo dos brasileiros. Os americanos também
têm mitos errôneos sobre o Brasil.
Veja Quais são eles?
Harrington
São aqueles tradicionais que tanto irritam os brasileiros,
como pensar que a capital do Brasil é Buenos Aires ou que
o espanhol é a língua do país. Mas existem
outros mais complexos. A maioria dos americanos ficaria surpresa
ao saber que o Brasil ocupa fisicamente metade da América
do Sul, que perto da brasileira a economia russa é uma
anã ou que os investidores dos Estados Unidos colocam no
Brasil cinco vezes mais dinheiro que na China. Os americanos investiram
35 bilhões de dólares no Brasil nos últimos
cinco anos. Isso é mais do que colocamos no México,
nosso vizinho de fronteira.
Veja Muitos brasileiros acham que com o dinheiro vêm
também os americanos ocupar os empregos gerados pelo investimento
estrangeiro.
Harrington
Temos
aí mais um mito. São pouquíssimos os americanos
que trabalham em companhias dos Estados Unidos no Brasil. Estive
em Pernambuco há algumas semanas para participar de um
encontro com líderes empresariais dos dois países.
Uma empresa americana da área de alimentação
tem uma enorme operação na região e me interessei
em saber quantos estrangeiros ela emprega. Bem, fui informado
de que eles têm apenas um em seus quadros. E ele não
é americano. É inglês.
Veja Melvyn Levitsky, que o precedeu no cargo, dizia
ser prioridade do embaixador dos Estados Unidos defender os interesses
das empresas americanas no Brasil. O senhor concorda?
Harrington
Acho que a missão prioritária é tornar a
relação entre os dois países produtiva para
ambos os lados. Mas qualquer embaixador será um defensor
dos interesses de seu país. Meu amigo Rubens Barbosa é
eficiente defensor dos interesses comerciais brasileiros em Washington.
Eu estarei sempre pronto a lutar para que as empresas americanas
tenham um tratamento justo no Brasil. Felizmente, as coisas estão
caminhando aqui para um ambiente de maior transparência
e estabilidade, que acaba servindo igualmente aos interesses comerciais
tanto brasileiros quanto americanos.
Veja Há uma certa desconfiança entre os
sul-americanos de que o sucesso econômico do México
esteja sendo usado como uma vitrine das virtudes do livre comércio
com os Estados Unidos da mesma forma que, na época do
Muro, Berlim foi a vitrine das virtudes do capitalismo. O que
o senhor acha?
Harrington
Não sei por que alguém poderia chegar a esse tipo
de conclusão. Com a globalização e as facilidades
de transporte e comunicação existentes hoje, a vizinhança
geográfica é um fator pouco significativo. O livre
comércio com os Estados Unidos, por meio do Nafta, realmente
funcionou maravilhosamente para ativar as relações
entre o México, os Estados Unidos e o Canadá. Em
poucos anos de funcionamento o volume de negócios entre
os três países cresceu 96%. O México se beneficiou
mais. A economia mexicana era a 26ª exportadora do mundo
antes do Nafta. Agora é a oitava. Acredito que o exemplo
do México não é artificial. É uma
mostra clara do que uma zona de livre comércio pode fazer
pelas economias de todos os países do continente americano.
Veja Que tipo de notícias sobre o Brasil o senhor
tem mandado a Washington ultimamente?
Harrington
São basicamente boas notícias. O Brasil tem feito
reformas muito substantivas e que, no médio prazo, vão
trazer para baixo o chamado custo Brasil. Atualmente é
muito mais fácil importar tecnologias necessárias
ao bom funcionamento das empresas. Há poucas barreiras
para a obtenção de vistos temporários de
trabalho para técnicos especializados montarem novas fábricas.
O governo estabeleceu a educação como prioridade
e as questões sociais não estão sendo negligenciadas.
Ou seja, o panorama geral é muito positivo. Obviamente
ainda há focos de atraso no país. Empresários
são obrigados a se submeter a formalidades burocráticas
imutáveis há décadas. As importações
e exportações andam a passo de tartaruga nos portos,
o que destrói os ganhos de produtividade obtidos no comércio
eletrônico.
Veja Atualmente o maior foco de desconfiança de
alguns brasileiros com relação aos Estados Unidos
é a Amazônia. Uns, mais radicais, chegam até
a verbalizar o medo de uma invasão.
Harrington
A
idéia de que tropas americanas possam intervir na Amazônia
é ridícula. Sinceramente, não merece comentários.
Os americanos são fascinados pela floresta, tanto quanto
a maioria das pessoas em todo o mundo. Nós sabemos que
existem tecnologias de desenvolvimento sustentado das florestas
tropicais e que o Brasil está genuinamente interessado
em preservar a Amazônia. Portanto, se pudermos ajudar de
alguma forma nesse contexto, vamos fazê-lo. Eu digo com
alegria que já estamos ajudando. Temos bons exemplos de
cooperação brasileiro-americana na região
amazônica. O serviço de florestas dos Estados Unidos
vem auxiliando os brasileiros a aumentar sua capacidade de detectar
e suprimir queimadas na mata. Nos anos 80, a tecnologia permitia
mostrar onde existia fumaça. Agora é possível
enxergar através dela e apontar com segurança a
origem do incêndio. Essa tecnologia foi desenvolvida aqui
no Brasil com a colaboração de cientistas americanos.
Ela ainda não está disponível nos Estados
Unidos. Portanto, com relação à Amazônia,
gostaria de reafirmar que sempre estaremos prontos a ajudar o
Brasil a desenvolver a região de uma maneira que seja inócua
para o meio ambiente e faça justiça aos formidáveis
recursos naturais que os brasileiros possuem. Algumas pessoas
dizem que a ação das madeireiras asiáticas
naquela região está fora de controle. Isso seria
um risco considerável. Mas não tenho informação
suficiente para fazer uma avaliação da situação.
Veja A presença militar americana na Colômbia
provocou um certo alvoroço em determinados círculos
políticos no Brasil. Quais são as intenções
americanas na Colômbia?
Harrington
São grandes e muitos os mal-entendidos a respeito do chamado
Plano Colômbia. Há uma ênfase equivocada nos
aspectos militares do plano. É preciso ficar claro, em
primeiro lugar, que ele será implementado pelos colombianos,
e não pelos Estados Unidos. Depois, dos 7,5 bilhões
de dólares que serão gastos no plano, apenas 1,3
bilhão cobrirá gastos militares. A maioria dos recursos
será utilizada para promover o desenvolvimento econômico,
do sistema político e judicial do país. O presidente
Clinton foi claro o bastante: "O problema colombiano não
tem solução militar". A Colômbia não
será um novo Vietnã. Isso é impensável.
Para nós o principal é o processo de paz no país.
Os colombianos vivem sob as agruras de uma guerra civil há
muitos e muitos anos. A prioridade é ajudar o presidente
Andrés Pastrana a prosseguir em seus esforços de
paz com a guerrilha. Para isso, parece claro para os Estados Unidos
e para os países sul-americanos também que é
preciso combater o narcotráfico. Naturalmente o Brasil
e os outros países vizinhos da Colômbia temem que
o sucesso das operações contra o narcotráfico
colombiano possa significar a exportação territorial
do problema. É um temor legítimo. Mas acredito que
os esforços militares e das polícias de fronteira
serão suficientes para controlar a situação.