Em foco

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Sérgio Abranches

A Argentina depois da crise

"De la Rúa só conseguirá recuperar plenamente a
capacidade de governar se lograr a reativação
da economia nos dois primeiros trimestres de 2001"


Ilustração Ale Setti


A crise política argentina estreitou as margens de governabilidade do presidente De la Rúa, pelo menos por um bom período. Ela fortaleceu as principais lideranças concorrentes da cena política nacional: Carlos "Chacho" Alvarez, que foi o pivô da crise, e os ex-presidentes Raúl Alfonsín e Carlos Menem. O oposto do que pretendia a estratégia presidencial. Foi uma lição de como não conduzir uma crise política. De la Rúa ficou dividido entre sua convicção pessoal de que o mais importante é evitar riscos institucionais e a pressão de seus conselheiros para que isolasse seu vice-presidente. Ele prefere ações graduais e negociadas. Seu círculo mais íntimo – parentes e alguns poucos amigos de confiança – o levou a um movimento fortemente adversário a "Chacho" Alvarez. Diante da resposta agressiva do vice, que preferiu a renúncia, voltou atrás, recuou em tudo e cedeu espaços de poder. O alvo ostensivo de Alvarez era a suspeita de corrupção no Senado "biônico". Foi a renúncia dos sonhos: para surpresa quase geral, ficou mais influente do que antes.

A opinião pública dividiu-se entre o vice, que saía e pregava uma solução mais rápida contra a corrupção e a inércia político-institucional, pela via do conflito, e o presidente, sempre a favor de uma solução negociada, de equilíbrio, ainda que levando a mudanças mais graduais.

Mas o sentimento negativo sobre a economia é fortemente majoritário. A crise política encontrou o índice de confiança do consumidor em seu ponto mais baixo da história: 15%. O índice de expectativas, pela primeira vez, está aquém da linha de 25%. A maioria absoluta dos argentinos, 77%, acha que o país vive uma grave crise econômica e política e 79% acreditam que ela dure pelo menos mais doze meses. O governo acabara de divulgar mais uma revisão, para baixo, de sua estimativa para o crescimento da economia.

Em um ambiente instável e negativo, diante do acirramento do conflito, o presidente preferiu recuar, voltar ao estilo conciliador, para preservar a Alianza, que apóia o governo, ainda que aceitando novos condicionamentos. As atitudes de "Chacho" Alvarez estiveram carregadas de intencionalidade política, mesmo considerando seu estilo temperamental, e a renúncia teve o resultado que desejara: desarticular inteiramente o núcleo antifrepasista (a Frepaso e a União Cívica Radical compõem a Alianza, que elegeu a chapa De la Rúa–Carlos "Chacho" Alvarez) que se formava no interior do governo.

Raúl Alfonsín retornou ao centro das articulações políticas com a crise deflagrada pelas mudanças no gabinete, das quais ficou sabendo pelo rádio, deixando claro que, entre o governo De la Rúa e a Alianza, ficaria com a coalizão, que também governa a cidade de Buenos Aires. A crise mostrou que governo e Alianza não são a mesma coisa e que a coalizão vai além da administração De la Rúa para chegar à eleições parlamentares de 2001.

No momento, há na Argentina uma estrutura de compartilhamento do poder político. Em seus vértices estão, no primeiro, o presidente De la Rúa, cuja liderança se mostrou limitada, preferindo se isolar com seu pequeno grupo de confiança nas horas difíceis, afastando-se das forças políticas mais ativas. Conta com os recursos de poder da Presidência, que não são desprezíveis. No segundo, Raúl Alfonsín, principal figura da União Cívica Radical, que sai da crise mais forte e mais influente. No terceiro, "Chacho" Alvarez, que mostrou ter liderança firme na Frepaso e pode assumir um papel mais ativo na coordenação política da Alianza.

A coalizão de governo está se recompondo, mas não será mais como antes. A separação entre ela e o governo persistirá como uma limitação política difícil de afastar. De la Rúa só conseguirá recuperar plenamente a capacidade de governar se lograr a reativação da economia nos dois primeiros trimestres de 2001. E isso não parece muito provável. Se a economia continuar dando sinais de debilidade e não apontar para a retomada sustentável em prazo hábil, a Alianza pode se tornar o centro de resistência à continuidade da atual política econômica. A equipe econômica pertence ao governo, não à Alianza.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco