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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
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Stephen Kanitz

O crescimento do PIB

"Calculando corretamente, devemos
ter crescido
entre 4,5% e 8,2% ao ano,
o que é muito acima
dos 2,2% publicados
pelo governo FHC"


Ilustração Ale Setti


Economistas calculam o crescimento do PIB pelo método da "soma de fatores de produção". Somam-se salários, juros, depreciação e aluguéis. Calculado dessa forma, crescemos somente 2,2% por ano no governo FHC.

Contadores e administradores preferem calcular o PIB como a soma dos produtos produzidos por milhares de empresas: geladeiras, televisões, livros etc. É muito complicado e por isso não é feito, mas espelha melhor o que o PIB deveria significar: o crescimento do bem-estar material.

Em 1994, quando a Telebrás era estatal, uma linha telefônica custava 2 000 dólares, pagos antecipadamente num plano de expansão com entrega incerta. Na época, somente 13 milhões de pessoas ricas tinham essa fortuna para gastar em telefones.

Com a privatização, uma linha passou a custar zero, e de lá para cá foram entregues 67 milhões de linhas entre fixas e móveis. Como os salários do setor permaneceram mais ou menos constantes, esse brutal aumento não aparece no nosso PIB, o que para os 67 milhões de brasileiros que agora têm telefone é um absurdo monumental. A 2 000 dólares cada uma, essas novas linhas, ao preço de 1994, representam um acréscimo do PIB de 402 bilhões de reais, ou 50 bilhões por ano, usando um dólar de 3 reais.

Para um PIB de 1,2 trilhão de reais, só o setor de telefonia acrescentou 4,1% de crescimento ao nosso PIB. Crescemos na realidade no mínimo 6,3% ao ano, não esses 2,2% das estatísticas oficiais. Mas nosso crescimento verdadeiro não parou por aí.

Exemplo 2. A Fiat, que produzia um Tempra por 36.000 reais, passou a fabricar três Uno Mille por 12.000. Segundo as estatísticas, o PIB da Fiat permaneceu igual, apesar de a empresa produzir três vezes mais. Para a ciência econômica, a "satisfação marginal" de andar no Uno Mille é um terço do prazer de andar num Tempra. Perguntem àqueles três que andavam a pé se concordam.

Exemplo 3. A grande queixa do empresariado é que está produzindo o dobro para ganhar a mesma coisa. Tem muito advogado, médico e consultor dizendo o mesmo. A produção dobrou, mas os preços caíram pela metade, permitindo a muita gente comprar o que antes era impossível. Isso aconteceu nos setores de aviação, automobilístico, farmacêutico, eletrodoméstico, eletrônico, de bens de consumo em geral.

Basta ver os índices de inflação de bens duráveis, que caíram pela metade (essa queda não gerou deflação porque os preços públicos mais que dobraram, para fazer a mesma coisa).

Exemplo 4. Parte do aumento do padrão de vida do brasileiro se deve a um novo fenômeno que nunca existiu. Refiro-me à internet grátis, informação grátis, notícias grátis, e-mail grátis, livros eletrônicos grátis, softwares grátis, musica grátis e voluntariado, áreas que cresceram 20% ao ano e que não se refletem no PIB.

Exemplo 5. Com técnicas como Qualidade Total, a durabilidade dos produtos aumentou. Um produto que dura quatro anos e passa a durar seis representa 50% a mais na riqueza nacional, mas não no PIB.

Calculando o PIB corretamente, devemos ter crescido no mínimo entre 4,5% e 8,2% (dependendo do ano), o que é muito acima dos 2,2% ao ano publicados pelo governo FHC.

Fernando Henrique Cardoso entrará para a história como o presidente que em oito anos não conseguiu promover o crescimento. Nem ele nem seu ministério sabem que o Brasil cresceu, e muito, tanto é que nem usam esse fato para ganhar a eleição. O que é muito louvável, pois esse crescimento não pode ser mérito do governo, que nem tem idéia do que ocorreu. E sem conhecer a nova dinâmica de crescimento empresarial fica difícil descobrir como criar empregos, a maior falha de FHC.

O pior é que ninguém fica sabendo quanto o Brasil cresceu nesses anos. Por isso somos vistos como um enorme fracasso, aqui e lá fora. Por isso ninguém mais investe, e o risco Brasil está nas nuvens.

Como todos os candidatos, ouvindo seus Ph.Ds., prometem fazer o país finalmente "crescer" invertendo o rumo da economia, pela lógica isso significa que pararemos de crescer ou cresceremos bem menos no futuro próximo.

Alguns leitores escreverão para dizer que nossas estatísticas oficiais estão corretas. Por isso, peço que devolvam os 67 milhões de linhas telefônicas, os carros populares, apaguem de seus computadores as músicas em MP3 e cancelem seus e-mails, para que possamos ajustar a realidade à teoria.

 

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
 
   
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