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Roberto
Pompeu de Toledo
A
oportunidade
que se perdeu
Um
ano após os atentados em
Nova York e Washington, o mundo
se
depara com
um panorama sombrio
As mortes, a dor, o medo e o luto não esgotam o assunto. Não
bastasse isso, não bastasse a barbárie levada a limites
impensáveis, o 11 de setembro deixou outro legado desastroso: o
da oportunidade perdida. No dia 12 de setembro de 2001, junto com o pânico,
com o choro, com os trabalhos de resgate entre os escombros das torres
gêmeas e a busca dos culpados, misturada a esses elementos como
pedra preciosa misturada ao monturo, raiava uma esperança. Aquele
terrível evento podia ser o ponto de partida para um mundo mais
amigo. Os Estados Unidos descobriam-se vulneráveis. Ao mesmo tempo,
davam-se conta dos extremos a que podem conduzir situações
relegadas à crônica irresolução como o conflito
israelense-palestino e o desassossego do mundo islâmico, sem falar
nas desigualdades entre os povos, a miséria e a fome da maior parte
do planeta. Era hora de agir em favor de um mundo menos conflitado e menos
injusto. De congregar as nações em busca de soluções
que tornassem o planeta Terra um lugar menos perigoso de se viver.
Engano. Outra lamentável coincidência foi o 11 de setembro
ter encontrado os Estados Unidos sob a presidência de George W.
Bush. E então o que se viu foi o inverso. Em vez da abertura para
um mundo de mais eqüidade e mais bem distribuído acesso às
riquezas, o enclausuramento nos próprios interesses. Em vez do
trabalho conjunto, em parceria com outros países, a política
da auto-suficiência e do egoísmo. O capital de simpatia acumulado
pelos Estados Unidos na seqüência dos atentados foi dissipado
ao longo de um ano de arrogância, empáfia belicista e descumprimento
de acordos internacionais. O primeiro aniversário dos atentados
encontra os Estados Unidos não na liderança de um mundo
tornado mais seguro pela busca de soluções para suas carências
ou pelo desarme dos potenciais conflitos, mas, isto sim, empenhados na
criação de condições, e clima, para uma nova
guerra, contra o Iraque desta vez de amplitude e conseqüências
com certeza muito mais tenebrosas do que a guerra do Afeganistão.
Se algo ficou claro, ao longo deste ano, foi o desprezo do governo Bush
pela colaboração internacional. À recusa de ratificar
o Protocolo de Kioto sobre o aquecimento global e o pacto do Rio sobre
biodiversidade, somaram-se a decisão de retirar-se do Tratado de
Mísseis Antibalísticos, a oposição à
proibição das minas terrestres e o boicote ao Tribunal Penal
Internacional. "A desconfiança americana com relação
ao envolvimento no exterior é antiga", argumentou a escritora Susan
Sontag, num artigo publicado na semana passada no The New York Times.
"Mas este governo adotou a radical posição de que todos
os tratados internacionais são inimigos potenciais dos interesses
dos Estados Unidos." O entendimento de Washington, prossegue Sontag, é
de que os tratados "forçam os Estados Unidos a obedecer a convenções
que podem um dia ser invocadas para limitar a liberdade de fazer o que
o governo pensa ser do interesse do país".
O cientista político Francis Fukuyama, autor do famoso O Fim
da História, vê nas posturas diversas com relação
aos acordos internacionais e às organizações multilaterais
uma diferença profunda entre a visão americana e a visão
européia do mundo. Os europeus, segundo Fukuyama, em outro artigo
recente, estão "horrorizados" com uma política na qual os
Estados Unidos decidem sozinhos quando e onde devem usar a força.
"A visão européia é diferente", acrescenta. "A Europa
procura criar uma genuína ordem internacional, apropriada ao mundo
pós-Guerra Fria e baseada no direito. Esse mundo, liberto de ásperos
conflitos ideológicos e da competição militar em
larga escala, dá espaço substancialmente maior ao consenso,
ao diálogo e à negociação como caminhos para
a solução das disputas."
Os Estados Unidos têm dado ao mundo lições de justiça
e aceitação de diferenças. Os avanços contra
um passado de opressão e segregação dos negros são
um exemplo disso. Outro é o culto do "multiculturalismo", pelo
qual o país se verga à coexistência respeitosa entre
múltiplas crenças, costumes e padrões de comportamento.
Por isso mesmo, é mais chocante presenciar o unilateralismo e o
belicismo característicos de seu atual governo. Bush e sua trupe
na semana passada procuravam o respaldo da ONU para o ataque ao Iraque.
Ao mesmo tempo, avisavam que, com ONU ou sem ONU, partirão para
o ataque. A relação com a ONU é outro sinal da postura
avessa aos foros multilaterais apontada por autores díspares como
Susan Sontag, à esquerda, e Fukuyama, à direita. O governo
Bush não recorre à organização senão
quando necessita de um mínimo de juridicidade a seus desígnios
belicistas. Fica a idéia de que o que Washington queria, mesmo,
é uma ONU tão dócil aos interesses de sua política
externa quanto o FMI costuma ser aos de sua política econômica.
Um ano depois dos atentados, o mundo descortina um panorama sombrio. E
pensar que tudo poderia ter sido tão diferente...
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