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O
Brasil, em primeira mão
O conjunto completo das obras
de Albert Eckhout
chega ao país
depois de 350 anos
Fotos divulgação
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mameluca, a tupinambá, a tapuia e a negra retratadas por Eckhout:
descrições minuciosas de tipos étnicos ou alegorias? Essa é uma questão
que intriga os estudiosos do artista holandês |

Veja também |
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Quando
aportou no Recife, em 1637, o conde alemão Maurício de Nassau
tinha o objetivo de consolidar o domínio militar que seus patronos,
os holandeses, exerciam havia sete anos sobre o Nordeste brasileiro. Mas
sua comitiva também trazia artistas e naturalistas, aos quais fora
dada a tarefa de estudar e registrar tudo o que vissem. Dois nomes desse
grupo se tornaram célebres: o de Frans Post (1612-1680) e o de
Albert Eckhout (1610-1665). Cabia ao primeiro pintar paisagens e documentar
os feitos de Nassau. Ao segundo, retratar os tipos étnicos que
encontrasse, além da fauna e da flora que fascinavam os europeus.
Pioneiras, as telas de ambos fazem parte da cartilha básica de
imagens sobre o Brasil. Mas, enquanto Post é um artista de reputação
consolidada, Eckhout não pára de despertar controvérsia.
Seriam seus quadros puramente descritivos, ou teriam um conteúdo
alegórico? Em que medida seus retratos são confiáveis
do ponto de vista etnológico? Longe de ser um assunto encerrado,
ainda está em aberto o entendimento das obras desse misterioso
holandês, sobre cuja vida pouca coisa se conhece. Daí o valor
da mostra Albert Eckhout Volta ao Brasil 1644-2002, que começa
nesta terça-feira no Instituto Ricardo Brennand, do Recife. Trata-se
de um evento inédito: pela primeira vez, todas as 24 pinturas brasileiras
de Eckhout ainda existentes (duas se perderam em incêndios) foram
liberadas pela instituição que as abriga, o Museu Nacional
da Dinamarca. Quase uma década de negociações foi
necessária para que isso acontecesse além de um seguro
que, estima-se, gira em torno dos 250 milhões de dólares.
As doze naturezas-mortas com frutas e legumes feitas por Eckhout não
apresentam grandes problemas ao público. Elas se encaixam na tradição
de pintura holandesa de seu tempo. Essa tradição era descritiva,
como diz a historiadora americana Svetlana Alpers, uma das maiores autoridades
mundiais em arte holandesa, que visita o Brasil nesta semana convidada
pelos organizadores da exposição de Eckhout. Em seu livro
A Arte de Descrever (Edusp), Svetlana demonstra que o que mais
importava aos artistas daquele país, no século XVII, era
oferecer ao espectador um conhecimento concreto do mundo, por meio de
desenhos e pinturas. Nas naturezas-mortas eles usavam artifícios
para mostrar um mesmo objeto de maneiras variadas por fora, com
parte de seu interior à mostra, ou ainda refletidos em metais e
espelhos. Eram quadros planejados "como uma festa para o olhar atento",
diz a autora, numa frase que se aplica à perfeição
às goiabas, abacaxis, castanhas e cocos pintados por Eckhout, inteiros
ou fatiados, com sua casca e sua polpa colorida expostas.
Ao
contrário do que acontece com as naturezas-mortas, os retratos
de Eckhout são um quebra-cabeça. O conjunto mais importante
é em tamanho natural. As oito telas podem ser divididas em pares,
cada um relativo a um casal. Há o casal de índios tapuias,
o de índios tupinambás, o de negros e o de mamelucos. Há
quem diga que eles são alegorias dos quatro continentes em que
os europeus dividiam o mundo na época (América, Ásia,
África e Europa), ou então alegorias dos estágios
da civilização. Svetlana Alpers acredita que qualquer tentativa
de enxergar significados ocultos nesses quadros é mal encaminhada.
"O que Eckhout fez foi olhar para aquelas figuras com atenção
e minúcia. Suas telas deveriam servir como testemunho daquilo que
os europeus viram do outro lado do mundo. É isso que as torna especiais",
disse a pesquisadora a VEJA. O fato de os personagens aparecerem de maneira
posada não incomoda Svetlana seria uma concessão
às convenções artísticas, mas não uma
falsificação. Ao observar um quadro como Negra, porém,
alguns etnólogos não têm tanta certeza de que ele
mostra uma escrava que se pudesse encontrar no Nordeste. Tanto a vegetação
que a cerca quanto a indumentária e os adereços da mulher
parecem indicar que ela ainda habita a África, e não o Brasil.
A discussão não tem fim.
Divulgação
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A
natureza-morta Bananas e Goiabas:
uma das nove telas que jamais tinham sido expostas no Brasil
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É
difícil decifrar esses enigmas porque quase nenhuma informação
sobreviveu a respeito de Eckhout. Ele ficou no Brasil por sete anos, de
1637 a 1644. O que fez antes é nebuloso, assim como o destino que
teve após voltar à Europa. Quando os holandeses foram expulsos
do Nordeste, Maurício de Nassau levou as telas consigo e as deu
de presente ao seu primo, Frederico III, rei da Dinamarca. Isso explica
por que elas pertencem ao museu nacional de Copenhague. Dom Pedro II tentou
por duas vezes trazer os quadros para o Brasil, mas o máximo que
conseguiu foram cópias reduzidas de seis deles. Partes do acervo
chegaram até o país em quatro oportunidades: em 1968, em
1991, em 1998 e no ano 2000, durante a Mostra do Redescobrimento. Nove
quadros nunca foram vistos por aqui.
Foi
a obstinação de um publicitário, o dinamarquês
Jens Olensen, presidente da agência McCann-Erickson no Brasil, que
finalmente tornou possível a vinda do conjunto completo de obras.
Apaixonado por Eckhout, ele negociou por oito anos com as autoridades
dinamarquesas. A construção do Instituto Ricardo Brennand,
no Recife, acabou sendo um trunfo importante em sua cruzada (veja quadro
abaixo). Réplica de um castelo europeu, o prédio dispõe
de uma pinacoteca impecável, dotada de equipamentos para um controle
rígido de condições climáticas (as telas de
Eckhout podem ser danificadas se expostas a níveis de temperatura
e umidade inadequados). "Os técnicos dinamarqueses ficaram impressionados
com as instalações e deram sinal verde depois de visitá-las",
diz Olensen. Uma verdadeira operação de guerra foi deflagrada
para trazer os quadros de Copenhague até o Recife. Foram utilizados
três aviões especiais de carga para transportar as 24 obras,
em caixas climatizadas de 12 metros quadrados. Cada um partiu em sigilo
absoluto, devido ao valor altíssimo das obras. Elas ficarão
sete meses no Brasil. Em dezembro seguem para Brasília e em janeiro
para São Paulo. A organização do evento demandou
2,5 milhões de dólares, e espera-se que 1,2 milhão
de pessoas, nas três cidades, prestigiem esse "retorno de Eckhout".
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O
senhor do castelo
O milionário Ricardo Brennand, que deu seu nome ao recém-inaugurado
instituto onde estão expostas as obras de Eckhout no Recife,
pertence a uma família influente na economia de Pernambuco
e nas artes locais também. O clã, de origem
inglesa, estabeleceu-se no Estado em 1820 e montou um império
que inclui usinas de açúcar e indústrias de
aço, cerâmica, cimento, porcelana e vidro. O empresário
é primo em primeiro grau do ceramista Francisco Brennand,
um dos mais incensados artistas pernambucanos. De sua parte, Ricardo,
de 75 anos, encontrou sua vocação no mecenato e na
organização de coleções. Ele tem investido
altas quantias em arte e revela um gosto bem diversificado. Possui
a maior coleção particular do mundo de óleos
do holandês Frans Post, colega de expedição
de Eckhout. Também tem um vasto acervo de armas antigas e
livros raros. Ao criar seu novo instituto, ele realizou um sonho:
construiu uma réplica de um castelo medieval para abrigar
a entidade. "Não tenho talento para criar, mas sou um bom
copista", brinca. Embora o empresário seja reservado ao falar
em cifras, especula-se que só nas instalações
da pinacoteca do complexo foram consumidos 20 milhões de
dólares. Parte do dinheiro investido no projeto, informa
o próprio Brennand, veio da venda de três fábricas
de cimento da família.
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