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Sinais
de vida inteligente
O diretor de O Sexto Sentido mostra
mais uma vez que é possível fazer
cinema comercial com alguma relevância
Isabela
Boscov
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Fotos divulgação

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O
menino Rory Culkin mostra ao pai, o pregador desiludido vivido por
Mel Gibson, a estranha formação que surgiu nos campos
da família
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Veja também |
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O
diretor Manoj Night Shyamalan tem 32 anos, mas é hoje um dos raros
praticantes em Hollywood de uma lição que já tinha
começado a cair em desuso quando ele nasceu: num filme, e especialmente
num suspense, aquilo que não se vê é ainda mais importante
do que o que é mostrado. Os trabalhos anteriores de Shyamalan
O Sexto Sentido e Corpo Fechado eram demonstrações
eficazes dessa linha. Mas Sinais (Signs, Estados
Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, a
leva ao extremo da simplicidade. O protagonista Graham Hess (Mel Gibson)
é um ex-pastor que, certa manhã, depara com uma enorme formação
de círculos na plantação de milho defronte a sua
casa, onde na noite anterior não havia nada. A primeira providência
de Hess é a mais racional. Ele chama a xerife da cidadezinha (a
ótima Cherry Jones), para que ela verifique se seus vizinhos não
são os autores da brincadeira. Hess conhece a história desses
círculos que aparecem de forma misteriosa em campos de todo o mundo
desde os anos 70 (veja quadro),
e sabe que muitos deles já foram desmascarados como obra de
pregadores de peças. A policial, contudo, é mais reticente.
Outras pessoas das redondezas têm relatado fatos estranhos, diz
ela como a presença de intrusos e animais domésticos
que se tornam agressivos. A essa altura, aconselha a xerife, é
melhor não se fixar em nenhuma explicação e considerar
todas as hipóteses. É o que faz também Shyamalan.
Sem pressa, mas com um admirável senso de propósito, o diretor
explora cada um dos estados de ânimo que a família de Hess
atravessa na tentativa de entender o fenômeno, da descrença
à incredulidade. E, praticamente sem sair do território
restrito da fazenda dos Hess, amplifica a repercussão dos acontecimentos
e a tensão da platéia até o seu limite.
Shyamalan repete em Sinais vários dos temas de seus filmes
anteriores. Por exemplo, o peso que a imagem de invencibilidade da figura
paterna ou a decepção com essa imagem tem
no relacionamento entre pais e filhos pequenos. No caso dos Hess, essa
é uma questão premente. Graham Hess perdeu a mulher há
poucos meses num acidente. Junto com ela, perdeu também a fé,
razão pela qual deixou de pregar, e a conexão com os filhos
Morgan (Rory Culkin, mais um rebento do clã de Macaulay) e Bo (Abigail
Breslin). Sua ligação emocional com as crianças foi
delegada ao seu irmão Merrill (Joaquin Phoenix), uma promessa não-cumprida
do beisebol que voltou para casa em situação de inferioridade.
Shyamalan habilmente usa esse nó familiar como indício de
que há outros desajustes em ação no universo dos
Hess o imediato e o mais amplo. O milho na plantação
da família está alto e parece pronto para ser colhido, mas
não se vê ninguém trabalhando nos campos. Os Hess
moram a menos de uma centena de quilômetros de uma grande cidade,
Filadélfia. Mas, pelo seu isolamento, poderiam estar nos confins
do mundo. Tudo o que eles vão descobrindo sobre os círculos
do seu quintal chega por vias remotas e em fragmentos os noticiários
da televisão, um velho monitor desses que se usam para ouvir os
ruídos no berço do bebê a distância, um livro
encontrado num sebo. Como em O Sexto Sentido e Corpo Fechado
também, essas comunicações truncadas e os vastos
silêncios entre elas tornam mais intensas a angústia e a
relutância com que os personagens ponderam a intromissão
de forças inexplicáveis em seu dia-a-dia.
Buena Vista Internacional
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Segundo
o indiano M. Night Shyamalan, seus filmes resultam da conclusão
óbvia
de que é preciso criar laços emocionais com a platéia
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Sinais
é um filme lento e estudado, que tira muitas lições
dos melhores trabalhos de Alfred Hitchcock (a começar pela trilha
sonora, excelente, que homenageia as composições de Bernard
Herrmann, colaborador habitual de Hitch). Em sintonia com sua filosofia
espartana, não tem mais do que meia dúzia de efeitos especiais.
Essas características não prejudicaram em nada o desempenho
do filme na bilheteria americana, na qual ele já acumulou 207 milhões
de dólares e protagonizou um feito incomum: voltar ao primeiro
lugar da parada na quarta semana após seu lançamento. Sinais
foi também a primeira produção iniciada após
os atentados de 11 de setembro, e esse sentimento de catástrofe
faz muito bem ao filme. "Não há história que não
se beneficie de uma conexão mais humana. Quando um cineasta despreza
esse aspecto, ele aliena a sua platéia. Não entendo como
os estúdios não percebem essa obviedade", disse o diretor
a VEJA na ocasião em que O Sexto Sentido se tornou o grande,
e inesperado, sucesso de 1999.
Shyamalan é um entusiasta das ligações humanas. Filho
de um cardiologista e uma obstetra indianos obcecados pelo trabalho, ele
nasceu em Pondicherry, na Índia, durante uma visita dos pais aos
parentes. Foi criado desde bebê num subúrbio rico de Filadélfia,
onde todos eles moram até hoje, a minutos de distância uns
dos outros, e onde Shyamalan roda todos os seus filmes, para não
se afastar dos pais, da mulher, Bhavna, uma psicóloga infantil,
e das duas filhas pequenas. Numa entrevista recente à revista Newsweek,
entrou em pânico quando o repórter indagou se na juventude
ele gostava de beber e namorar. "Se você escrever isso, meus pais
vão ficar sabendo e vão ter um infarto", respondeu. Apesar
de decepcionados com a falta de interesse de Manoj (ele inventou o Night
na adolescência) pela medicina, foram seus pais os financiadores
dos 750.000 dólares necessários ao seu primeiro filme, que
ele rodou na Índia e no qual era o protagonista.
Divulgação
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| Joaquin
Phoenix e as crianças tentam barrar invasões telepáticas: muito suspense,
mas com humor |
Tanto
seu trabalho de estréia como o seguinte, feito para a Miramax,
foram completos fracassos de público. Aos 27 anos e com um bebê
recém-nascido em casa, Shyamalan decidiu então provar que
tinha um mapa preciso para as emoções da platéia.
Fechou-se em seu escritório e escreveu um roteiro sobre um menino
que vê pessoas mortas. Não obstante a maré baixa em
que se encontrava, instruiu seu agente a estabelecer um lance mínimo
de 1 milhão de dólares pelo script e a deixar claro aos
interessados que só ele, Shyamalan, poderia dirigi-lo. O roteiro
de O Sexto Sentido virou objeto de um verdadeiro leilão
entre os estúdios. Acabou sendo adquirido pela Buena Vista
uma divisão da Disney , à qual rendeu mais de 650
milhões de dólares e seis indicações ao Oscar.
Na esteira desse sucesso, Shyamalan abocanhou 10 milhões para escrever
e dirigir Corpo Fechado, sobre um homem que descobre ser indestrutível.
Por Sinais, recebeu 12,5 milhões de dólares.
A Disney se diz muito satisfeita com a renda de Corpo Fechado.
Mas, na avaliação do seu próprio autor, ele é
um desastre. Visualmente o filme é, como os outros de Shyamalan,
magnífico na sua originalidade e no seu casamento entre estilo
e conteúdo. Mas é soturno demais e desajeitado demais na
sua ligação com o universo fantástico dos quadrinhos,
diz o diretor (com razão). Sinais corrige essa rota. Como
antes, Shyamalan mostra que sabe manobrar de forma notável em espaços
muito pequenos não só no sentido físico, mas
também na opção por tratar de forma naturalista temas
que estão no limite da credibilidade, como espíritos ou
alienígenas. Mas agora ele abriu espaço para o humor e conseguiu
também tirar os adultos do papel de sparring das crianças.
Joaquin Phoenix, sempre excelente, aproveita ao máximo um papel
potencialmente secundário, e pela primeira vez em muito tempo Mel
Gibson passa a sensação de que está interpretando
um personagem e não apenas uma versão de si mesmo.
Nesse ritmo, Shyamalan está cada vez mais próximo de realizar
sua ambição confessa: tornar seu nome uma grife tão
poderosa quanto o de seu maior inspirador, Steven Spielberg.
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Com
uma tábua, um compasso e um ET
A
surpresa que Mel Gibson sente ao encontrar uma formação
de círculos em seu milharal há muito deixou de ser
compartilhada pelos fazendeiros do sudoeste inglês. É
nessa região que se verifica a maior ocorrência do
fenômeno, embora ele já tenha sido constatado em dezenas
de países. Foi nessa área da Inglaterra, próximo
ao monumento de Stonehenge, que surgiu uma das maiores formações
registradas até hoje um complexo de 409 círculos,
ocupando 5 hectares. Os círculos dividem opiniões
desde que começaram a pipocar com maior intensidade, nos
anos 70. Para muitos, são indício de atividade extraterrestre.
Para outros, não passam de farsas engendradas por brincalhões.
Essa corrente ganhou força quando, em 1991, dois velhinhos
britânicos declararam ser os autores de várias formações
e mostraram como fazê-las. O farsante bola o desenho no papel,
com um compasso. Depois, no campo, vai pisando sobre uma tábua
numa trajetória concêntrica, de forma a dobrar os talos
do cereal na base, sem quebrá-los. Há até associações
de "fazedores de círculos", que criam formações
elaboradas a fim de desmistificar as teorias alienígenas.
Vários dos cientistas que estudam o assunto, contudo, discordam
que as formações possam ser integralmente atribuídas
a "artistas". Em 20% dos casos, dizem eles, as aparições
são rápidas demais um grupo de pessoas demora
algumas horas para fazer uma formação e não
trazem nenhum vestígio de presença humana. As teses
para esses pictogramas mais misteriosos vão de perturbações
meteorológicas a coisas como vórtices de plasma. Além,
é claro, de "forças desconhecidas", um nome não
comprometedor para alienígenas. As vítimas dos círculos,
contudo, costumam mostrar mais humor que apreensão. Como
disse um fazendeiro num documentário recente sobre o tema,
"é uma alegria constatar que ainda há algum mistério
no mundo".
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