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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
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Sinais de vida inteligente

O diretor de O Sexto Sentido mostra
mais uma vez que é possível fazer
cinema comercial com alguma relevância

Isabela Boscov

 

Fotos divulgação

O menino Rory Culkin mostra ao pai, o pregador desiludido vivido por Mel Gibson, a estranha formação que surgiu nos campos da família



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O diretor Manoj Night Shyamalan tem 32 anos, mas é hoje um dos raros praticantes em Hollywood de uma lição que já tinha começado a cair em desuso quando ele nasceu: num filme, e especialmente num suspense, aquilo que não se vê é ainda mais importante do que o que é mostrado. Os trabalhos anteriores de Shyamalan – O Sexto Sentido e Corpo Fechado – eram demonstrações eficazes dessa linha. Mas Sinais (Signs, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, a leva ao extremo da simplicidade. O protagonista Graham Hess (Mel Gibson) é um ex-pastor que, certa manhã, depara com uma enorme formação de círculos na plantação de milho defronte a sua casa, onde na noite anterior não havia nada. A primeira providência de Hess é a mais racional. Ele chama a xerife da cidadezinha (a ótima Cherry Jones), para que ela verifique se seus vizinhos não são os autores da brincadeira. Hess conhece a história desses círculos que aparecem de forma misteriosa em campos de todo o mundo desde os anos 70 (veja quadro), e sabe que muitos deles já foram desmascarados como obra de pregadores de peças. A policial, contudo, é mais reticente. Outras pessoas das redondezas têm relatado fatos estranhos, diz ela – como a presença de intrusos e animais domésticos que se tornam agressivos. A essa altura, aconselha a xerife, é melhor não se fixar em nenhuma explicação e considerar todas as hipóteses. É o que faz também Shyamalan. Sem pressa, mas com um admirável senso de propósito, o diretor explora cada um dos estados de ânimo que a família de Hess atravessa na tentativa de entender o fenômeno, da descrença à incredulidade. E, praticamente sem sair do território restrito da fazenda dos Hess, amplifica a repercussão dos acontecimentos – e a tensão da platéia – até o seu limite.

Shyamalan repete em Sinais vários dos temas de seus filmes anteriores. Por exemplo, o peso que a imagem de invencibilidade da figura paterna – ou a decepção com essa imagem – tem no relacionamento entre pais e filhos pequenos. No caso dos Hess, essa é uma questão premente. Graham Hess perdeu a mulher há poucos meses num acidente. Junto com ela, perdeu também a fé, razão pela qual deixou de pregar, e a conexão com os filhos Morgan (Rory Culkin, mais um rebento do clã de Macaulay) e Bo (Abigail Breslin). Sua ligação emocional com as crianças foi delegada ao seu irmão Merrill (Joaquin Phoenix), uma promessa não-cumprida do beisebol que voltou para casa em situação de inferioridade. Shyamalan habilmente usa esse nó familiar como indício de que há outros desajustes em ação no universo dos Hess – o imediato e o mais amplo. O milho na plantação da família está alto e parece pronto para ser colhido, mas não se vê ninguém trabalhando nos campos. Os Hess moram a menos de uma centena de quilômetros de uma grande cidade, Filadélfia. Mas, pelo seu isolamento, poderiam estar nos confins do mundo. Tudo o que eles vão descobrindo sobre os círculos do seu quintal chega por vias remotas e em fragmentos – os noticiários da televisão, um velho monitor desses que se usam para ouvir os ruídos no berço do bebê a distância, um livro encontrado num sebo. Como em O Sexto Sentido e Corpo Fechado também, essas comunicações truncadas e os vastos silêncios entre elas tornam mais intensas a angústia e a relutância com que os personagens ponderam a intromissão de forças inexplicáveis em seu dia-a-dia.

 
Buena Vista Internacional

Segundo o indiano M. Night Shyamalan, seus filmes resultam da conclusão óbvia de que é preciso criar laços emocionais com a platéia

Sinais é um filme lento e estudado, que tira muitas lições dos melhores trabalhos de Alfred Hitchcock (a começar pela trilha sonora, excelente, que homenageia as composições de Bernard Herrmann, colaborador habitual de Hitch). Em sintonia com sua filosofia espartana, não tem mais do que meia dúzia de efeitos especiais. Essas características não prejudicaram em nada o desempenho do filme na bilheteria americana, na qual ele já acumulou 207 milhões de dólares e protagonizou um feito incomum: voltar ao primeiro lugar da parada na quarta semana após seu lançamento. Sinais foi também a primeira produção iniciada após os atentados de 11 de setembro, e esse sentimento de catástrofe faz muito bem ao filme. "Não há história que não se beneficie de uma conexão mais humana. Quando um cineasta despreza esse aspecto, ele aliena a sua platéia. Não entendo como os estúdios não percebem essa obviedade", disse o diretor a VEJA na ocasião em que O Sexto Sentido se tornou o grande, e inesperado, sucesso de 1999.

Shyamalan é um entusiasta das ligações humanas. Filho de um cardiologista e uma obstetra indianos obcecados pelo trabalho, ele nasceu em Pondicherry, na Índia, durante uma visita dos pais aos parentes. Foi criado desde bebê num subúrbio rico de Filadélfia, onde todos eles moram até hoje, a minutos de distância uns dos outros, e onde Shyamalan roda todos os seus filmes, para não se afastar dos pais, da mulher, Bhavna, uma psicóloga infantil, e das duas filhas pequenas. Numa entrevista recente à revista Newsweek, entrou em pânico quando o repórter indagou se na juventude ele gostava de beber e namorar. "Se você escrever isso, meus pais vão ficar sabendo e vão ter um infarto", respondeu. Apesar de decepcionados com a falta de interesse de Manoj (ele inventou o Night na adolescência) pela medicina, foram seus pais os financiadores dos 750.000 dólares necessários ao seu primeiro filme, que ele rodou na Índia e no qual era o protagonista.

 
Divulgação
Joaquin Phoenix e as crianças tentam barrar invasões telepáticas: muito suspense, mas com humor

Tanto seu trabalho de estréia como o seguinte, feito para a Miramax, foram completos fracassos de público. Aos 27 anos e com um bebê recém-nascido em casa, Shyamalan decidiu então provar que tinha um mapa preciso para as emoções da platéia. Fechou-se em seu escritório e escreveu um roteiro sobre um menino que vê pessoas mortas. Não obstante a maré baixa em que se encontrava, instruiu seu agente a estabelecer um lance mínimo de 1 milhão de dólares pelo script e a deixar claro aos interessados que só ele, Shyamalan, poderia dirigi-lo. O roteiro de O Sexto Sentido virou objeto de um verdadeiro leilão entre os estúdios. Acabou sendo adquirido pela Buena Vista – uma divisão da Disney –, à qual rendeu mais de 650 milhões de dólares e seis indicações ao Oscar. Na esteira desse sucesso, Shyamalan abocanhou 10 milhões para escrever e dirigir Corpo Fechado, sobre um homem que descobre ser indestrutível. Por Sinais, recebeu 12,5 milhões de dólares.

A Disney se diz muito satisfeita com a renda de Corpo Fechado. Mas, na avaliação do seu próprio autor, ele é um desastre. Visualmente o filme é, como os outros de Shyamalan, magnífico na sua originalidade e no seu casamento entre estilo e conteúdo. Mas é soturno demais e desajeitado demais na sua ligação com o universo fantástico dos quadrinhos, diz o diretor (com razão). Sinais corrige essa rota. Como antes, Shyamalan mostra que sabe manobrar de forma notável em espaços muito pequenos – não só no sentido físico, mas também na opção por tratar de forma naturalista temas que estão no limite da credibilidade, como espíritos ou alienígenas. Mas agora ele abriu espaço para o humor e conseguiu também tirar os adultos do papel de sparring das crianças. Joaquin Phoenix, sempre excelente, aproveita ao máximo um papel potencialmente secundário, e pela primeira vez em muito tempo Mel Gibson passa a sensação de que está interpretando um personagem – e não apenas uma versão de si mesmo. Nesse ritmo, Shyamalan está cada vez mais próximo de realizar sua ambição confessa: tornar seu nome uma grife tão poderosa quanto o de seu maior inspirador, Steven Spielberg.

 

Com uma tábua, um compasso e um ET

A surpresa que Mel Gibson sente ao encontrar uma formação de círculos em seu milharal há muito deixou de ser compartilhada pelos fazendeiros do sudoeste inglês. É nessa região que se verifica a maior ocorrência do fenômeno, embora ele já tenha sido constatado em dezenas de países. Foi nessa área da Inglaterra, próximo ao monumento de Stonehenge, que surgiu uma das maiores formações registradas até hoje – um complexo de 409 círculos, ocupando 5 hectares. Os círculos dividem opiniões desde que começaram a pipocar com maior intensidade, nos anos 70. Para muitos, são indício de atividade extraterrestre. Para outros, não passam de farsas engendradas por brincalhões. Essa corrente ganhou força quando, em 1991, dois velhinhos britânicos declararam ser os autores de várias formações e mostraram como fazê-las. O farsante bola o desenho no papel, com um compasso. Depois, no campo, vai pisando sobre uma tábua numa trajetória concêntrica, de forma a dobrar os talos do cereal na base, sem quebrá-los. Há até associações de "fazedores de círculos", que criam formações elaboradas a fim de desmistificar as teorias alienígenas. Vários dos cientistas que estudam o assunto, contudo, discordam que as formações possam ser integralmente atribuídas a "artistas". Em 20% dos casos, dizem eles, as aparições são rápidas demais – um grupo de pessoas demora algumas horas para fazer uma formação – e não trazem nenhum vestígio de presença humana. As teses para esses pictogramas mais misteriosos vão de perturbações meteorológicas a coisas como vórtices de plasma. Além, é claro, de "forças desconhecidas", um nome não comprometedor para alienígenas. As vítimas dos círculos, contudo, costumam mostrar mais humor que apreensão. Como disse um fazendeiro num documentário recente sobre o tema, "é uma alegria constatar que ainda há algum mistério no mundo".

 

   
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