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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
Economia e Negócios Agricultura

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O motor que faz
o Brasil andar

O capital intensivo e a alta tecnologia
fizeram do campo brasileiro uma ilha
de Primeiro Mundo que cresceu 8%
no primeiro semestre

Adriana Carvalho e Roseli Loturco


Giovani Pereira
CLÁUDIO NASSER
suinocultor
Com curso de aperfeiçoamento nos Estados Unidos, Nasser investiu na criação do "porco light" na cidade de Patos de Minas (MG). A espécie geneticamente modificada tem menos gordura e mais carne magra de qualidade

As notícias econômicas em quase todas as partes do mundo atualmente dão conta de crises, desaceleração, queda de produção e desemprego. O Brasil também atravessa uma fase de sobressaltos. Num cenário como esse, os resultados do campo brasileiro divulgados na semana passada são nada menos do que espetaculares. Enquanto a riqueza nacional como um todo, medida pelo PIB, cresceu apenas 0,14% no primeiro semestre, a economia no campo deu um salto de 8,18%. Tem sido assim nos últimos anos. A agropecuária e os negócios que ela gera têm sido a escora da economia brasileira e a salvação da balança de comércio exterior. Em um exercício de imaginação, se toda a economia brasileira fosse agrária, no final do ano o país teria produzido um superávit na balança comercial de 21 bilhões de dólares, resultado que colocaria o Brasil no mesmo patamar de grandes tigres exportadores como a Itália e a Coréia do Sul. O campo que produz resultados econômicos tão exuberantes certamente não é o da agricultura de subsistência, das plantações e criações miúdas em volta das casas de pau-a-pique. As vitórias econômicas na zona rural são produto do uso intensivo de capital e da aplicação de soluções de alta tecnologia.


Liane Neves
ADRIANO MIOLO
vinicultor
A produção artesanal de vinhos da família Miolo saltou de 300.000 para 5 milhões de litros, em uma década. Para a expansão dos negócios, fizeram parcerias com outras oitenta famílias da região do Vale dos Vinhedos (RS). Agora pretendem lançar um "spa do vinho"

Esse modelo de sucesso no campo brasileiro deveria ser observado com maior interesse pelos candidatos à Presidência da República. Quase todos eles, quando falam do Brasil rural, colocam ênfase na reforma agrária, na distribuição de terra e na tentativa de fixação do homem no campo. Embora citem a agricultura empresarial, falam prioritariamente da agricultura familiar que dá sustento a milhões de brasileiros e tem inegável papel social no Brasil dos rincões. "São promessas válidas regionalmente, sobretudo no Nordeste, mas sem muita relação com a realidade nacional. A grande transformação no campo foi o aumento da produtividade", diz Zander Navarro, sociólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialista em temas agrários. "Seria irresponsabilidade desapropriar terras em regiões de alta produtividade, como o centro-oeste", afirma Navarro. A realidade mostra que o futuro do campo é a mecanização e o uso cada vez menos intensivo de mão-de-obra. "Em todos os países do mundo, até mesmo na China, o que se vê é a atividade agrária se tornando cada vez mais mecanizada com a liberação de contingentes humanos para as cidades", explica o economista americano Martin Feldstein, da Universidade Harvard. Ele lembra que a saída mais racional não é tentar prolongar a vida útil das propriedades rudimentares, mas procurar conter as migrações nas cidades do interior, com o aquecimento das atividades ligadas ao agronegócio e a conseqüente geração de empregos. "Só na agricultura, e levando-se em conta apenas os trabalhadores com carteira assinada, o campo passou a construção civil neste ano em número de empregados", afirma Marcus Vinicius Pratini de Moraes, ministro da Agricultura.

As transformações na vanguarda tecnológica e empresarial no campo brasileiro estão em harmonia com o que vai de melhor pelo mundo. "O resultado anunciado é espetacular e projeta um futuro ainda mais promissor para a agricultura do país por seu efeito multiplicador de crescimento", diz André Pessôa, sócio da Agroconsult, empresa especializada em consultoria na área de agronegócio. O efeito multiplicador significa que quando a agricultura vai bem consegue também alavancar o crescimento de outros segmentos importantes da economia. O dinheiro do campo aumenta o poder aquisitivo para a compra de imóveis, automóveis e eletrodomésticos, contribuindo para o desenvolvimento do comércio das cidades, que têm no agronegócio sua principal fonte de renda. Um bom exemplo vem de Patos de Minas, com 130 000 habitantes, a 430 quilômetros de Belo Horizonte, que se transformou numa das cidades mineiras de maior destaque. O campo trouxe dinheiro para a região, atraiu profissionais qualificados e gerou uma rede de serviços invejável. Em Patos de Minas há vinte hotéis, aeroporto, dez escolas de idiomas estrangeiros. A cidade abriga também um centro universitário com capacidade para mais de 3.000 alunos, muitos vindos de municípios e até Estados vizinhos. A história do suinocultor Cláudio Nasser caracteriza bem a modernização da cidade. Com diploma de agronomia e curso de especialização nos Estados Unidos, Nasser investiu em uma parceria com a multinacional européia Seghers Genetics para criar um "porco light", espécie com menos gordura e mais carne magra de qualidade.


Fotos Claudio Rossi
Rossi
WÁLTER HAGEMEIER
economista
Com a instalação de uma unidade da Perdigão na cidade de Rio Verde, em Goiás, o economista Wálter Hagemeier decidiu abrir uma fábrica de embalagens industriais. Neste ano espera lucrar 9 milhões de reais com o negócio
IAN MARS
especialista em exportação
O inglês Ian Mars já trabalhou para empresas do setor de carne no mundo todo. Agora se dedica à área de exportação de um grande frigorífico na cidade de Barretos, no interior de São Paulo: "O Brasil é o país das grandes oportunidades"

O êxito da agropecuária num momento em que o resto da economia enfrenta dificuldades e praticamente se arrasta tem diversas razões. Em primeiro lugar, houve uma recuperação nos preços de quase todos os produtos agrícolas no mercado externo. Os preços haviam caído abaixo de seus valores históricos no ano passado e sua recuperação foi muito bem-vinda pelos produtores. No caso da soja, foi expressiva. No início deste ano, a saca de 60 quilos era comercializada no máximo a 30 reais. Hoje, seu valor é de 40 reais. Além do preço melhor, os agricultores comemoram também o aumento da demanda: 40% da safra do próximo ano, que nem foi plantada, já está vendida. A mesma recuperação pode ser notada na comercialização de milho, arroz, cana, laranja e feijão.

Além da melhoria conjuntural, outra razão do sucesso do campo brasileiro é o forte aumento da produtividade. Numa mesma área plantada, o país colhe quase o dobro de grãos que colhia há dez anos. Nas últimas dez safras, a produção passou de 57 milhões de toneladas para 100 milhões de toneladas. A área plantada, nesse mesmo período, permaneceu em cerca de 40 milhões de hectares. A fórmula para atingir tal desempenho está na modernização. Há dez anos, o Brasil desperdiçava 10% de sua colheita de grãos, o equivalente a quase toda a produção de grãos da Itália em um ano. Antigas máquinas colheitadeiras machucavam os grãos ou deixavam que eles simplesmente ficassem pelo caminho no decorrer do processo. Com os tratores modernos de hoje, a perda não chega a 1% da colheita. A alta tecnologia também é responsável pela entrada do país na lista de exportadores de máquinas e equipamentos agrícolas, área em que o Brasil sempre foi importador. Neste primeiro semestre, a indústria do agronegócio exportou o equivalente a 600 milhões de dólares em tratores e máquinas agrícolas. Além de produzir mais na mesma área plantada, o Brasil também está conquistando novos e importantíssimos espaços agricultáveis nas últimas décadas. Os méritos, em grande parte, são dos cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que desenvolveram tecnologia para incorporar ao sistema produtivo do país os cerrados e outros ecossistemas antes hostis. A vitalidade do campo é uma notícia excelente num país nocauteado diariamente por informações pessimistas sobre o dólar e o risco Brasil.

 



Com reportagem de
José Edward e Karine Vieira

 
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