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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
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"Tá tudo
dominado"


Fotos Reuters e AP
As faces do mal: barbado após captura na Colômbia (no alto à dir), irônico na volta ao Brasil e sorrindo depois da matança em Bangu 1 (foto maior)

Marcelo Carneiro e Ronaldo França


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A arquitetura da rebelião

A rebelião ocorrida na semana passada na penitenciária de segurança máxima Bangu 1, no Rio de Janeiro, criou um marco na história criminal do Brasil. Durante 23 horas, a população da região metropolitana do Rio esteve, de alguma forma, refém do traficante Luiz Fernando da Costa, 35 anos, o Fernandinho Beira-Mar. Por volta das 8h30 da manhã de quarta-feira, o bandido rendeu dois agentes que faziam a revista da galeria onde se encontrava encarcerado. Com a óbvia conivência de quem deveria tomar conta do presídio, conseguiu passar por três grossas portas de ferro, cruzar um corredor, abrir outros três portões e chegar à cela de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, a quem havia jurado de morte. Rendido, Uê teve o crânio e a mandíbula amassados, levou um tiro e, ao fim, seu corpo foi queimado. Ao celular e armado com uma pistola, Beira-Mar, o mais perigoso bandido brasileiro, comemorava a morte do rival e de outros três presos: "Tá dominado, tá tudo dominado".

A ação espetacular do traficante – que na tarde de sexta-feira foi transferido para o Batalhão de Choque da Polícia Militar – contou com a ajuda de dois comparsas. Eles tinham nas mãos as chaves de todas as 48 celas do presídio, tomadas das mãos dos agentes. O grupo, que já carregava três pistolas, seguiu em direção a um depósito de armas do presídio e retirou do armário uma escopeta. Partiram, então, para a barbárie. Fotos divulgadas na quinta-feira pelo governo do Estado mostram que a carnificina ocorreu em duas celas. Em uma delas, Uê foi espancado até a morte. Seu corpo foi queimado, enrolado em colchões e ficou totalmente carbonizado. Em outra cela, três comparsas de Uê foram liquidados a tiros. O chão desta cela ficou coberto de sangue. Em todo o presídio, o cenário era de completa destruição.

"Houve negligência, indigência, delinqüência e imoralidade dos agentes penitenciários", denuncia a coordenadora de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Jacqueline Muniz. É um diagnóstico preciso. Toda vez que acontecem cenas como a da semana passada, porém, surgem teorias sobre a suposta existência de um poder paralelo cada vez mais forte, opondo em diques separados o Estado e o poder dos traficantes. Isso leva à idéia de uma estrutura organizada à margem da sociedade. Seria simples se fosse só isso. A realidade é pior. O que existe é um ambiente de promiscuidade e corrupção que contaminou a máquina administrativa e as forças policiais. A máquina encarregada de prender e manter presos os grandes criminosos está, pelo menos em parte, contaminada pelo dinheiro que esses bandidos distribuem para comprar facilidades. Nas celas de Bangu 1, sempre funcionaram celulares, através dos quais Fernandinho Beira-Mar e outros bandidos comandavam suas quadrilhas em ação do lado de fora. Muitas vezes, telefonemas dados de dentro do presídio, para tratar de planos criminosos, foram gravados por autoridades. E os telefonemas continuaram, como se nada estivesse acontecendo de anormal. A definição clássica para crime organizado é a infiltração de seus representantes nas instituições públicas. Um cálculo do Ministério da Justiça estima que, de cada 1 milhão de dólares gerados pelo mercado da droga, cerca de 25% tenham como destino final a corrupção de agentes, autoridades e fiscais encarregados de combater o banditismo. Com esse dinheiro, os criminosos garantem, na prática, a "autorização do Estado" para o funcionamento de seu negócio. O tempo todo, Fernandinho Beira-Mar compra favores dos funcionários públicos encarregados de mantê-lo sob vigilância e confinamento. E tudo isso dentro de uma penitenciária dita de segurança máxima.


Reprodução da TV
Divulgação
Imagens das celas depredadas e dos bandidos mortos por Beira-Mar: autoridade em xeque

Em Bangu 1, só se burla a segurança por falha humana ou por corrupção de funcionários. Construída há catorze anos, a penitenciária é um cofre-forte revestido de concreto. Paredes, chão e teto são recheados de placas de aço. As 48 celas são individuais e distribuídas por quatro galerias, uma para cada facção criminosa. Para passar de um bloco a outro, é preciso cruzar cortinas de ferro. São portas duplas que formam pequenas câmaras. Só se abre a segunda porta depois de fechada a primeira. É impossível passar de uma galeria para outra sem que haja conivência de um funcionário. A primeira indicação de que essa conivência ocorreu são as pistolas em poder dos bandidos. Apenas 48 horas antes, houvera uma vistoria completa. Se existiam armas na carceragem, foram levadas depois disso. Ou, em outra hipótese, alguém fingiu que não as viu dois dias antes. Outro indício: os agentes aproximaram-se de Beira-Mar levando não apenas as chaves de sua cela, mas de todas as outras do presídio – o que contraria todas as normas de segurança do sistema penitenciário. Assim, abriram caminho para a chacina entre grupos rivais.

De dentro do presídio, Beira-Mar nunca deixou de comandar sua milionária estrutura criminosa. É uma organização que tem fortes tentáculos na Colômbia, onde o bandido estabeleceu ligações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as temidas Farc, guerrilha que pretende depor o governo e instalar um regime socialista no país. Enquanto não conseguem realizar seu sonho revolucionário, as Farc dão proteção aos narcotraficantes em troca de dinheiro para sustentar seu movimento. Beira-Mar ofereceu armas e munição à guerrilha. Como pagamento, conseguiu livre acesso aos cartéis da droga na Colômbia. Por essa razão, seus lucros com o tráfico cresceram em progressão geométrica. Em 2000, em sete viagens trazendo cocaína da Colômbia, Beira-Mar movimentou 6,5 milhões de dólares, obtendo um lucro líquido de 1,8 milhão na venda. Acabou atraindo a atenção da DEA, a agência americana de combate às drogas. E tornou-se o primeiro brasileiro a fazer parte de uma lista elaborada pelo governo dos Estados Unidos, com os principais narcotraficantes e terroristas do mundo. A suspeita dos americanos ia mais longe. Achava-se que, para ocultar os lucros com a venda da droga, Beira-Mar usava o mesmo mecanismo de lavagem de dinheiro aplicado por ativistas do Hezbollah, grupo islâmico radical com ramificações na América do Sul. Em abril do ano passado, após passar meses escondido na selva colombiana, o traficante finalmente foi preso pelos militares do país. A prisão foi descrita pelo jornal The New York Times como "cinematográfica", e o Miami Herald, o maior jornal da Flórida, cunhou um novo apelido para o traficante: "Freddy Seashore". "Ele sonha ser um Pablo Escobar", afirmou a VEJA, sem rodeios, seu advogado, Lídio da Hora, que o acompanha desde 1990.

No panorama mundial, Fernandinho Beira-Mar está longe de ser um barão da droga. As polícias detalham o narcotráfico em quatro níveis. No mais elevado, só há espaço para os grandes traficantes colombianos. No segundo nível, estão os chamados "transportadores", que negociam enormes quantidades de cocaína com os cartéis da Colômbia. O rei de Bangu 1 integra o terceiro nível, o dos distribuidores médios, que compram cocaína para revender aos traficantes das favelas brasileiras, que compõem o quarto nível. Para seus negócios, Beira-Mar cerca-se de pessoas da mais estrita confiança, como namoradas e suas duas irmãs, que já foram presas por associação com o tráfico. Luiz Fernando da Costa é um raro espécime de traficante que ascendeu à alta hierarquia do comércio de drogas sem precisar galgar posições menores. Aos 35 anos, é veterano em uma atividade em que os jovens conquistam o poder cada vez mais cedo e morrem antes dos 25 anos. Construiu sua carreira no crime a partir da favela Beira-Mar, onde vivem não mais que 1.300 famílias. Essa comunidade nunca teve antes importância na geografia do tráfico carioca. Nada disso impediu que o rapaz se tornasse, sob o apelido de Fernandinho Beira-Mar, o mais importante traficante brasileiro em atividade. Segundo a polícia, ele negocia 500 quilos de cocaína por mês, o que equivale a uma movimentação de 2,5 milhões de reais. Antes de ser preso, na Colômbia, no ano passado, movimentava no Brasil 50.000 reais por dia com a venda de drogas. Seu patrimônio aparente era de mais de 5 milhões de reais, mas esse valor pode ser vinte vezes maior, segundo a polícia.

Em 1970, aos 3 anos de idade, Luiz Fernando chegou à favela que lhe deu o apelido e a fama, na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Sua mãe, Zelina, trabalhava como faxineira e lavadeira e havia sido abandonada pelo marido ainda grávida. O pai, ele nunca conheceu. Zelina teria, depois, outras duas filhas. Pouco se sabe da infância do traficante. Na favela, cursou apenas o primário e, aos 18 anos, já estava envolvido em pequenos furtos. Não concluiu o serviço militar porque foi expulso do Exército. Na juventude, esteve preso por algum tempo antes de se tornar um criminoso de grande porte. Seu advogado, Lídio da Hora, conta que conheceu Beira-Mar já como chefe do tráfico na favela, numa carreira de self-made man, não por herança. "Ele saiu da cadeia com a idéia de vender maconha na Beira-Mar", conta o advogado.

Dois anos depois, já respondendo a outros processos e foragido da Justiça, Beira-Mar decidiu refugiar-se em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte. Lá, apresentou-se com o nome de batismo, mas forjou uma nova identidade. Virou empresário da construção civil, vindo de Colombo, no Paraná, e começou a gastar parte do que havia ganho com o tráfico. Adquiriu terrenos, salas comerciais e automóveis e construiu uma mansão com oito quartos e piscina com cascata. Vaidoso, comprava dúzias de tênis e dava presentes caros a cada um de seus dez filhos – cinco biológicos e cinco adotados – com cinco mulheres. Também tentou fazer um pré-vestibular em um dos melhores colégios da cidade. Não concluiu o curso. Preso em 1996, pela polícia mineira, foi condenado a doze anos de reclusão, mas não cumpriu nem doze meses. Fugiu do Departamento Estadual de Operações Especiais da Polícia Civil, no centro de Belo Horizonte.

Até essa altura, Beira-Mar ainda não era um bandido conhecido. Comandava a venda de drogas na favela Beira-Mar e em algumas cidades do interior do Rio e não chamava muito a atenção das autoridades de segurança pública do Estado. Mas, foragido da Justiça no Rio e em Minas, decidiu deixar o país e refugiar-se em Capitán Bado, um povoado de pouco mais de 15.000 habitantes perdido nos confins do Paraguai e conhecido por ser grande produtor de maconha. Teve início ali, a 1.800 quilômetros do Rio de Janeiro, a trajetória que faria de Fernandinho Beira-Mar um bandido temido e poderoso, como se viu na semana passada. Ao chegar a Bangu 1, em abril, Beira-Mar avisou a Uê que iria matá-lo. Desde 1994, ambos protagonizavam uma rixa sem trégua. Beira-Mar é um dos cabeças da facção conhecida como Comando Vermelho. Uê pertencia à organização Amigos dos Amigos. Fernandinho matou Uê porque concorriam no setor do tráfico como se fossem dois empresários atuando no mesmo ramo. Tão simples quanto isso. Eram inimigos, por assim dizer, comerciais.

Tanto o assassinato quanto a rebelião que se seguiu foram previstos dias antes. A juíza responsável pelo processo sobre a presença de celulares no presídio fora avisada pelo diretor do Departamento do Sistema Penitenciário do risco de um banho de sangue em Bangu 1. As informações foram repassadas ao Ministério Público. Apesar disso, Beira-Mar manteve o comando da situação. Iniciou a rebelião quando quis e só a encerrou quando considerou que tinha terminado seu "serviço". Ainda negociou a permanência de seu bando em Bangu e a transferência dos rivais para outros presídios.

Pelo menos duas características marcam Beira-Mar. A primeira é sua ambição. A outra é sua incrível crueldade. Nos dois processos em que é acusado de homicídio, o traficante não se limitou a matar seus desafetos. Em um dos casos, decepou as orelhas e os órgãos genitais de um rapaz suspeito de estar flertando com uma de suas namoradas. Antes de dar o tiro de misericórdia, obrigou-o a comer partes da própria orelha decepada. Mais do que a descrição de cenas assim, o que tem assustado a sociedade brasileira é a freqüência com que elas têm acontecido nos últimos anos. Os bandidos vêm se tornando mais cruéis e desafiadores à medida que percebem que a lei não os alcança como deveria. A impunidade tem produzido horrores, mas a maldade não é a única explicação. Os especialistas identificaram os cinco principais caminhos que levam uma pessoa ao mundo do crime. São, pela ordem, as vantagens econômicas obtidas, a violência patológica de indivíduos de mente doentia, a desorganização social nos superlotados centros urbanos, a pura e simples oportunidade e a exclusão social. Nesse último caso, incluem-se as dezenas de milhares de crianças e adolescentes que se tornam soldados do tráfico para ter acesso a produtos que não teriam de outra forma. Não se trata de mera questão de sobrevivência. Eles querem um padrão de consumo de classe média, com tênis importado e grife. Esse é o fenômeno mais preocupante, porque é com ele que o crime se renova, formando mão-de-obra e novos líderes. Um estudo do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (Ibiss), uma organização não-governamental, concluído há dois meses, revelou que 12.000 menores trabalham no tráfico do Rio de Janeiro. Desses, pouco mais de 5.000 pegam em armas. "Há uma simbologia. Os meninos se sentem poderosos e atraem muitas garotas, que ficam fascinadas com esse poder", afirma o sociólogo e especialista em segurança pública Ignácio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

No Rio de Janeiro, os responsáveis pela segurança pública admitem que uma parcela importante da polícia e do sistema penitenciário é visceralmente ligada ao crime – a chamada "banda podre". Foi graças a isso que Beira-Mar garantiu o sucesso de sua operação. Não foi só. Contribuiu também a falta de autoridade que tomou conta do Rio de Janeiro. Numa das cenas mais exemplares do descalabro, os agentes penitenciários que estavam fora do presídio no momento da negociação se colocaram em frente à porta para evitar que a polícia invadisse o prédio. Os agentes, que promoveram esse cordão de isolamento, não concordavam com a invasão e, fazendo escudo de seus corpos, reagiram a uma determinação da própria governadora Benedita da Silva, que ordenara a tomada do prédio. O governo saiu enfraquecido. O mesmo não ocorreu com o traficante, cuja vitória foi resumida num sorriso desafiador. O bandido riu por último.

 

Cínico e cruel

"Já tiraram os dois pés? E os dedinhos?"
1999, comandando uma sessão de tortura pelo telefone

"Vou fazer chegar à CPI uma lista dos bens que perdi para policiais. Nos últimos quatro anos fui preso quatro vezes e me levaram mais de 500 000 reais."
1999

"Sou um criador de gado."
2001, ao ser preso na Colômbia

"Só tô preso, não tô morto, não."
2002, preso em Bangu 1

"Só saio quando o serviço estiver terminado."
A policiais, durante o
motim de quarta-feira

"Se esculacharem aqui dentro, é para descer os bondes e tocar o terror."
Durante o motim, instruindo
seus cúmplices por telefone

"Tá dominado, tá tudo dominado."
Pelo celular, depois de terminar o "serviço"

 

Os tentáculos de Beira-Mar

Seu nome figura em dezoito processos em fóruns dos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraíba. No momento, responde a dez ações, sendo oito por tráfico de drogas e duas por homicídio.

Cumpre sentenças que somam 32 anos de prisão. Se fosse condenado em todos os processos, suas penas chegariam a 400 anos.

Foi o primeiro brasileiro a figurar em uma lista de narcotraficantes e terroristas de todo o mundo procurados pelo governo dos Estados Unidos.

Chegou a movimentar 50 000 reais por dia em duas contas bancárias no Rio de Janeiro, abertas em nome de laranjas.

Teve 97 bens seqüestrados por ordem da Justiça do Rio. Avaliado em 5 milhões de reais, o montante incluía quinze empresas, trinta imóveis residenciais, quatro terrenos, 36 contas correntes e cadernetas de poupança e doze automóveis.

No Brasil, levou o tráfico de drogas aos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Também tem ligações na Colômbia, Paraguai, Uruguai, Bolívia e até em Gana, na África.

 

Com reportagem de Malu Gaspar e Maurício Lima

 

   
 
   
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