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Ataque
à floresta
O mogno, que quase foi extinto, sofre
nova ameaça de madeireiros, políticos
e até de funcionários do Ibama
Policarpo Junior
Irmo Celso
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Eduardo Albarello
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| Vista
aérea da Floresta Amazônica e uma loja que vende móveis de mogno,
em São Paulo: a madeira corre novo risco de extinção |
O
mogno, madeira nobre de tom avermelhado, é um sobrevivente. Natural
das Antilhas e da América do Sul, ele esteve perto da extinção
nos séculos XVIII e XIX, época em que era muito usado na
fabricação de móveis e, dada sua alta durabilidade,
até na construção de navios. Depois dessa ameaça,
o mogno recuperou-se, tornou a ser farto nas florestas tropicais, mas
na década de 60 voltou a ser explorado comercialmente para
a fabricação de móveis, pisos, esquadrias e acabamentos.
De lá para cá, transformou-se numa das madeiras mais preciosas
e requisitadas em virtude de suas qualidades raras: é bonito, resistente
e versátil. E, de novo, está ameaçado de extinção.
Hoje, há estoques de mogno no México, na Bolívia,
no Peru e em países da América Central, mas a grande reserva
se encontra na Amazônia brasileira, especialmente no Pará
e no Acre. No Brasil, em razão do risco de extinção,
a extração do mogno está proibida por lei desde 1996.
A novidade é que a madeira tem sido vítima da ação
de piratas ecológicos, incluídos aí entidades respeitadas,
políticos e até funcionários do Ibama, a agência
responsável pela preservação do meio ambiente.
Com uma reserva de 30 milhões de metros cúbicos de mogno,
o que equivale a 135 bilhões de reais, o Brasil tinha 130 projetos
de manejo da madeira em andamento. Eram programas, devidamente aprovados
pelo Ibama, pelos quais as madeireiras podiam extrair o mogno desde que
respeitadas determinadas condições. Dos 130 projetos, 110
foram cancelados, a maioria por irregularidades. Além disso, o
envolvimento de funcionários do Ibama com a exploração
ilegal da madeira chegou a tal ponto que o ministro do Meio Ambiente,
José Carlos Carvalho, autorizou uma investigação
em todas as gerências do Ibama que lidam com a questão madeireira.
Mais de duas dezenas de funcionários do Ibama estão sob
investigação de uma força-tarefa, montada especialmente
para tratar do assunto, que inclui agentes da Polícia Federal e
procuradores da República. Nas apurações, descobriu-se
que um deputado federal e três senadores têm relações
com madeireiros clandestinos. "As madeireiras agem com a desenvoltura
típica das organizações criminosas", diz o delegado
Jorge Pontes, chefe da delegacia de crimes ambientais da Polícia
Federal.
Ana Araujo

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Mario Rodrigues
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| Toras
de mogno apreendidas pelos fiscais: em geral, o abate se dá em terras
indígenas |
Antiquário
com móveis de mogno: a madeira saiu da floresta e a mesa foi feita
na França |
Um
dos maiores madeireiros de Mato Grosso, Osmar Queiroz, foi pilhado extraindo
mogno ilegalmente das terras dos índios cintas-largas, no norte
do Estado, para os quais pagava 50 reais por tora o que permitiu
à tribo comprar uma frota de picapes importadas. Ao ver sua serraria
lacrada, receber multa de 7 milhões de reais e ter prisão
decretada, o madeireiro socorreu-se do deputado Ricarte de Freitas, do
PSDB, conforme prova telefonema ouvido pela PF com autorização
judicial. No telefonema, em que ambos se tratam amistosamente, com o deputado
chamando o madeireiro jocosamente de "presidiário" e se apresentando
como "seu deputado", Osmar Queiroz pede auxílio ao parlamentar
para livrar-se do cerco. O deputado fica de ajudá-lo, e lembra
que já o fez em outra vez. De fato, o deputado e os três
senadores do Estado Antero Paes, Carlos Bezerra e Jonas Pinheiro
já estiveram no Ibama negociando mudança nos valores
das multas por extração ilegal. O gerente do Ibama no Estado,
Leôncio Pinheiro, é irmão do senador Pinheiro. O antecessor,
Nivaldo Bezerra, é primo do senador Bezerra.
"Tudo
era feito com o aval de funcionários do Ibama", acusa o procurador
da República em Mato Grosso, Pedro Taques. A investigação
descobriu que funcionários recebiam mesada dos madeireiros. O ataque
ao mogno só existe porque é um negócio milionário.
Com a exploração proibida, a madeira tornou-se rara e seu
valor explodiu. Hoje, o metro cúbico extraído na floresta
chega a custar míseros 3 reais, quantia que madeireiros pagam às
tribos indígenas, donas da maior parte das reservas. Da floresta
até as indústrias estrangeiras, a madeira sofre uma tremenda
valorização. Lá fora, pagam-se até 9 000 reais
pelo metro cúbico, ou 300 000% a mais em relação
ao valor pago aos índios. Ao proporcionar lucros tão elevados,
a madeira se tornou alvo de saqueadores o que amplia o risco de
extinção, mesmo porque o crescimento do mogno é lento.
Em quarenta anos, uma árvore de mogno já pode ser explorada
comercialmente, mas só atinge o diâmetro ideal, de cerca
de 1 metro, em oitenta anos. Além disso, o manejo é bastante
complicado. As experiências de plantar o mogno para reflorestar
não têm dado certo. A partir dos dois anos, as árvores
costumam ser atacadas por pragas.
Recentemente,
o Ibama fez um estudo com cinqüenta espécies de madeira brasileira
para saber se alguma poderia substituir comercialmente o mogno
um modo de ajudar na preservação. Os testes, porém,
mostraram que nenhuma outra madeira reúne, simultaneamente, as
mesmas características e vantagens do mogno. Devido a seu alto
valor comercial, os negociadores da madeira lidam com gordas somas de
dinheiro e acabam corrompendo funcionários do próprio
Ibama. Em Sinop, em Mato Grosso, madeireiros apresentavam projetos de
manejo para desenvolver programas agropecuários em regiões
de cerrado. Os projetos, quase uma centena, foram aprovados em ritmo aceleradíssimo
e, descobriu-se depois, falseavam a descrição da área.
Em vez de cerrado, onde o dono deve preservar apenas 20% da vegetação
nativa, eram regiões de floresta, com fartura de mogno, onde a
preservação deve ser de 80%. A fiscalização
visitou as áreas e constatou que toda a madeira ali existente fora
extraída e a maioria das terras nem pertencia a quem delas
se dizia dono.
Além de testar novas madeiras e apertar a fiscalização,
o Ibama já tentou outras alternativas para preservar o mogno. Uma
das iniciativas, concebida pelas entidades ambientais, foi a criação
do "selo verde". Trata-se de uma espécie de certificado, concedido
por uma entidade, a FSC International, às madeireiras que trabalham
dentro da lei e sem causar danos à natureza. No Brasil, duas madeireiras
entraram para esse seleto grupo a Gethal e a Mil Madeiras, ambas
multinacionais instaladas na Amazônia. Com o "selo verde", as duas
conseguem vender seus produtos com facilidade no exterior. Há dois
anos, o Greenpeace, uma das mais conhecidas e atuantes entidades de defesa
do meio ambiente, enviou correspondência a 200 empresas inglesas
atestando a qualidade e a seriedade da Gethal e da Mil Madeiras
mas também elas estão enroladas. Numa investigação,
a Mil Madeiras recebeu seis autuações e multa de 36 milhões
de reais. Para o Ibama, a documentação não estava
em ordem, havia autorizações de exploração
rasuradas, outras vencidas, guias falsas e até toras de madeira
sem origem comprovada.
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Ana Araujo
 |
| O
delegado Pontes (à esq) e o ministro: guerra à
devastação |
A
Gethal também recebeu multa, de 12 milhões de reais, por
razões semelhantes. A empresa, segundo os fiscais do Ibama, ainda
comprava madeira de terras indígenas, o que não é
permitido, e despejava nos rios da Amazônia produtos químicos
usados no processo de secagem da madeira. "Essas empresas usavam o selo
verde como salvo-conduto para ações criminosas", afirma
o procurador da República no Amazonas, Sérgio Lauria. "Elas
não têm consciência ambiental alguma." As duas empresas
estão recorrendo das punições. A Mil Madeiras explica
que estava operando sem a autorização formal porque fizera
um "acordo informal" com o gerente do Ibama na Amazônia, José
Leland. "A fiscalização foi feita por gente despreparada
e, acho, com motivação política. Estamos recorrendo
e temos certeza de que essas multas serão anuladas", garante o
presidente da Gethal, Ailton Leite. O Greenpeace, por sua vez, afirma
que, se as punições forem mantidas depois do recurso, retirará
suas recomendações em favor de ambas. Enquanto isso, o mogno,
esse sobrevivente, vive sob a ameaça, mais uma vez, de desaparecer
do planeta.
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