
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
A multiplicação
das ervas
Os suplementos
à base de plantas
são um negócio bilionário e alguns
deles são um perigo
Eduardo Lima
AP
 |
| Loja
de produtos fitoterápicos nos Estados Unidos: promessa de cura
para todo tipo de doença |
Quando surgiram,
nos anos 60, os suplementos alimentares eram compostos de vitaminas e
sais minerais cujo objetivo seria repor nutrientes em caso de alimentação
mal balanceada. Por isso, podiam ser vendidos livremente, sem receita
médica. Os primeiros consumidores foram os astronautas da Nasa,
depois vieram os desportistas e, por fim, todo mundo. O uso desses compostos
virou uma febre global, e logo a oferta se ampliou incorporando ervas,
enzimas, aminoácidos e proteínas de origem animal. Mudou
também a ambição dos produtos: em vez de alardeados
como complementares à alimentação, passaram a prometer
a prevenção e a cura de doenças, como se fossem remédios
de verdade. O fenômeno é mais acentuado nos suplementos fabricados
com ervas e vegetais que reivindicam o status de produtos fitoterápicos.
Muitos deles são vendidos com base na tradição popular
e fundamentam sua recomendação em pura suposição.
Raros produtos passaram por testes científicos rigorosos, como
os que são feitos com medicamentos. Outros, apesar de exibir propriedades
terapêuticas reconhecidas, não tiveram o potencial de risco
de seus efeitos colaterais avaliado.
O perigo
do consumo descontrolado de suplementos herbáceos começou
a ser dimensionado nos últimos dois anos, com a conclusão
de uma série de estudos sobre os fitoterápicos mais vendidos
nos Estados Unidos, o mais recente deles divulgado no mês passado.
Realizados a pedido do governo americano, de associações
médicas e de grupos de defesa do consumidor, os testes científicos
revelaram que seis dos doze produtos à base de ervas mais vendidos
têm problemas. Quatro deles causam efeitos colaterais graves. Os
demais não têm eficácia alguma. Comprá-los
é jogar dinheiro fora. Um caso sério é a efedra,
um inibidor de apetite suspeito de ter provocado mais de 100 mortes por
problemas cardíacos. A Justiça americana estuda a possibilidade
de processar o principal fabricante do produto, o laboratório Metabolife,
por não advertir os consumidores dos riscos. Outra reprovada foi
a kava-kava, erva de propriedades relaxantes cujas raízes são
ingeridas na forma de cápsulas. Seu consumo foi associado a problemas
hepáticos. Por isso, ela é proibida no Canadá, na
Alemanha e em Cingapura. Vendida livremente nas farmácias brasileiras
até março, hoje só pode ser adquirida com prescrição
médica. O que alarmou o FDA, órgão do governo americano
que fiscaliza medicamentos e serve de referência para outros países,
foi o crescimento descontrolado da oferta e do consumo desses produtos
à base de ervas. A discussão é se eles não
devem ter os mesmos padrões de controle dos medicamentos convencionais,
muito mais rigorosos que os dos suplementos nutricionais.
Marcelo Tinoco
 |
| Folhas
de ginkgo biloba: reprovado nos testes para melhorar a memória |
As ervas são a base de uma indústria colossal que fatura
a cada ano 4,2 bilhões de dólares nos Estados Unidos e outros
500 milhões de dólares no Brasil. Centenas de empresas,
algumas delas tão grandes quanto os laboratórios farmacêuticos,
processam mais de oitenta tipos de planta na forma de cápsulas,
comprimidos, géis, emulsões e cremes. Impressiona a quantidade
de novas aplicações medicinais atribuídas a plantas
conhecidíssimas. A origem dessa profusão de produtos está
na livre associação entre conhecimento científico,
tradição popular e pura especulação. O caso
do orégano é exemplar. Descobriu-se que um ácido
chamado rosmarínico inibe enzimas relacionadas a inflamações.
Como o orégano é farto em ácido rosmarínico,
o extrato desse tempero de pizza passou a ser vendido como antiinflamatório.
Ninguém sabe se funciona. A urtiga, erva que causa irritação
na pele, é utilizada há séculos como diurético.
Por afinidade de uso, começou-se a receitar as raízes da
urtiga para problemas na próstata. Como a hortelã tem sabor
refrescante e seu chá é tradicionalmente usado para tratar
dor de barriga em crianças, criaram-se a partir dele pílulas
para irritação intestinal, náusea e dor de cabeça
relacionada a tensão. A árvore do ginkgo biloba chamou a
atenção por ser uma espécie antiga, contemporânea
dos dinossauros. Logo alguém concluiu que um vegetal tão
resistente devia ser bom para a saúde.
A droga
natural em ascensão no mercado americano é a valeriana,
raiz usada como sedativo desde a Antiguidade. Estudos mostram que ela
produz efeitos muito parecidos com os das drogas da indústria farmacêutica,
mas ainda não se sabe exatamente como seus princípios ativos
agem no cérebro. A lógica que fundamenta a comercialização
dos produtos fitoterápicos é bastante diferente daquela
empregada no caso dos medicamentos comuns. O lançamento de uma
droga sintética exige rigorosíssimo protocolo de pesquisas
e testes que podem levar até vinte anos. Nos Estados Unidos, os
produtos à base de ervas seguem a lógica dos suplementos
alimentares e podem ser comercializados com uma simples garantia do fabricante
de que o composto é puro e as informações no rótulo
correspondem aos efeitos reais da droga. Enquanto os fabricantes de remédios
comuns precisam provar sua eficácia antes de lançá-los
no mercado, as empresas de fitoterápicos só ficam impedidas
de vendê-los caso seja comprovado que eles provocam algum mal à
saúde. No Brasil, os fitoterápicos precisam de um registro
especial para ser comercializados. Os fabricantes argumentam que os produtos
são feitos com princípios ativos que podem ser encontrados
naturalmente em frutas, verduras, carnes e laticínios. Isso é
uma meia verdade, pois as substâncias estão presentes em
pílulas e elixires em concentrações muito mais altas
do que as encontradas na natureza. "O fato de uma droga ter origem natural
não significa que ela não cause efeitos colaterais", adverte
Edmundo Machado, chefe da divisão fitoterápica da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária. "Qualquer coisa que seja
indicada como medicamento deve ser usada com acompanhamento médico",
diz ele.
|
|
 |
|
 |

|
 |