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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
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A emoção do
abraço
de um filho

Às vésperas dos 50 anos, Christopher
Reeve
recobra a sensibilidade e
alguns movimentos

Paula Neiva


Observando um retrato recente de Christopher Reeve, nota-se que o rosto do ator está inchado, sua pele apresenta uma cor e uma textura semelhantes às dos bonecos de plástico e o cabelo está ralo como o de quem passou por uma sessão de quimioterapia. Pode-se imaginar que Reeve sucumbiu de vez à lesão na coluna cervical que o transformou numa pálida lembrança de seu personagem mais famoso, o Super-Homem. É um engano. Às vésperas de completar 50 anos, no próximo dia 25, ele recobrou parte dos movimentos, consegue respirar por uma hora e meia sem a ajuda do respirador artificial e identifica os estímulos que recebe no corpo – diferencia o frio do calor, o áspero do macio e assim por diante. Reeve também passou a sentir os afagos da mulher, Dana, e dos três filhos, Matthew, Alexandra e Will. "Eu não sentia o abraço de meu filho caçula desde que ele tinha 2 anos. E ser capaz de sentir esse toque de Will é um enorme presente", diz Reeve.

Os progressos na recuperação do ator são extraordinários. "Não há registro na literatura médica de avanços como o dele", afirma o neurologista John McDonald, responsável pelo tratamento e professor da Universidade de Washington. Em maio de 1995, durante uma prova de hipismo, o cavalo que Reeve montava recusou-se a saltar uma cerca e ele foi arremessado ao chão. Na queda, as duas primeiras vértebras de sua coluna foram esmigalhadas, causando o mesmo tipo de fratura que ocorre quando o nó do laço se fecha num condenado à forca. Imediatamente, Reeve perdeu os movimentos do pescoço para baixo e parou de respirar. "Normalmente, esse tipo de trauma é incompatível com a manutenção da vida", explica o ortopedista Eduardo Puertas, professor da Universidade Federal de São Paulo. Um dos fatores decisivos para a sobrevivência do ator foi a presteza do atendimento de emergência. Ele foi imediatamente medicado com methylprednisolone, uma droga que impede a morte das células nervosas sadias. Além disso, Reeve foi rapidamente submetido a uma cirurgia que refez os ossos destruídos. Com isso, reconstruiu-se o canal que protege a medula espinhal, pela qual trafegam as ordens que o cérebro dá a todo o corpo.

Apesar dos esforços bem-sucedidos, a aposta era que Reeve praticamente viveria como um vegetal. Ninguém contava com sua obstinação para recuperar parte dos movimentos e da sensibilidade. Todos os dias, ele se submete a uma rotina intensa de exercícios, alguns realizados com a ajuda de equipamentos de última geração. São cerca de quatro horas diárias de fisioterapia no chão, na piscina e numa bicicleta computadorizada. Por intermédio de eletrodos colados ao corpo do ator, o computador da bicicleta envia impulsos elétricos aos nervos das pernas. Dessa forma, elas se movimentam sozinhas, sem necessidade de um esforço voluntário. Os médicos acreditam que tais impulsos ajudem as células nervosas intactas da coluna a reaprender como comandar os movimentos das pernas. Com o tratamento, que inclui também dezenas de drogas (muitas em fase experimental), Reeve gasta cerca de meio milhão de dólares por ano.

A capacidade do ator em superar obstáculos é incrível. Sua saúde está sujeita a uma série de intercorrências. Nos dois primeiros anos depois do acidente, em 600 ocasiões diferentes ele teve de ser medicado com antibióticos para debelar infecções. Em 1997, por causa de uma delas, os médicos avisaram que ele teria de amputar uma das pernas. Reeve insistiu para que o tratamento fosse intensificado. Deu certo, e a amputação não foi necessária. Desde 2000, o número de intervenções com antibióticos baixou para sessenta. Ou seja: seu organismo dá sinais de que está mais resistente. A osteoporose de que sofria, doença de enfraquecimento dos ossos, foi completamente revertida. As mudanças na aparência de seu rosto, como o cabelo ralo e a pele plastificada, são decorrentes das alterações hormonais provocadas pela lesão – mas são passíveis de controle à base de medicamentos. As melhorias no quadro clínico estão devolvendo a autoconfiança a Reeve. "Nos primeiros anos, ele se recusava a ficar sozinho. Tinha medo. Por isso, sempre havia alguém a seu lado", contou a VEJA Linda Schultz, enfermeira responsável pela equipe que cuida diariamente do ator. Hoje, Reeve perdeu o medo de ficar sozinho.

   
 
   
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