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A
emoção do
abraço de
um filho
Às
vésperas dos 50 anos, Christopher
Reeve
recobra a sensibilidade e
alguns movimentos
Paula
Neiva
Observando um retrato recente de Christopher Reeve, nota-se que o rosto
do ator está inchado, sua pele apresenta uma cor e uma textura
semelhantes às dos bonecos de plástico e o cabelo está
ralo como o de quem passou por uma sessão de quimioterapia. Pode-se
imaginar que Reeve sucumbiu de vez à lesão na coluna cervical
que o transformou numa pálida lembrança de seu personagem
mais famoso, o Super-Homem. É um engano. Às vésperas
de completar 50 anos, no próximo dia 25, ele recobrou parte dos
movimentos, consegue respirar por uma hora e meia sem a ajuda do respirador
artificial e identifica os estímulos que recebe no corpo
diferencia o frio do calor, o áspero do macio e assim por diante.
Reeve também passou a sentir os afagos da mulher, Dana, e dos três
filhos, Matthew, Alexandra e Will. "Eu não sentia o abraço
de meu filho caçula desde que ele tinha 2 anos. E ser capaz de
sentir esse toque de Will é um enorme presente", diz Reeve.
Os progressos na recuperação do ator são extraordinários.
"Não há registro na literatura médica de avanços
como o dele", afirma o neurologista John McDonald, responsável
pelo tratamento e professor da Universidade de Washington. Em maio de
1995, durante uma prova de hipismo, o cavalo que Reeve montava recusou-se
a saltar uma cerca e ele foi arremessado ao chão. Na queda, as
duas primeiras vértebras de sua coluna foram esmigalhadas, causando
o mesmo tipo de fratura que ocorre quando o nó do laço se
fecha num condenado à forca. Imediatamente, Reeve perdeu os movimentos
do pescoço para baixo e parou de respirar. "Normalmente, esse tipo
de trauma é incompatível com a manutenção
da vida", explica o ortopedista Eduardo Puertas, professor da Universidade
Federal de São Paulo. Um dos fatores decisivos para a sobrevivência
do ator foi a presteza do atendimento de emergência. Ele foi imediatamente
medicado com methylprednisolone, uma droga que impede a morte das células
nervosas sadias. Além disso, Reeve foi rapidamente submetido a
uma cirurgia que refez os ossos destruídos. Com isso, reconstruiu-se
o canal que protege a medula espinhal, pela qual trafegam as ordens que
o cérebro dá a todo o corpo.
Apesar dos esforços bem-sucedidos, a aposta era que Reeve praticamente
viveria como um vegetal. Ninguém contava com sua obstinação
para recuperar parte dos movimentos e da sensibilidade. Todos os dias,
ele se submete a uma rotina intensa de exercícios, alguns realizados
com a ajuda de equipamentos de última geração. São
cerca de quatro horas diárias de fisioterapia no chão, na
piscina e numa bicicleta computadorizada. Por intermédio de eletrodos
colados ao corpo do ator, o computador da bicicleta envia impulsos elétricos
aos nervos das pernas. Dessa forma, elas se movimentam sozinhas, sem necessidade
de um esforço voluntário. Os médicos acreditam que
tais impulsos ajudem as células nervosas intactas da coluna a reaprender
como comandar os movimentos das pernas. Com o tratamento, que inclui também
dezenas de drogas (muitas em fase experimental), Reeve gasta cerca de
meio milhão de dólares por ano.
A capacidade do ator em superar obstáculos é incrível.
Sua saúde está sujeita a uma série de intercorrências.
Nos dois primeiros anos depois do acidente, em 600 ocasiões diferentes
ele teve de ser medicado com antibióticos para debelar infecções.
Em 1997, por causa de uma delas, os médicos avisaram que ele teria
de amputar uma das pernas. Reeve insistiu para que o tratamento fosse
intensificado. Deu certo, e a amputação não foi necessária.
Desde 2000, o número de intervenções com antibióticos
baixou para sessenta. Ou seja: seu organismo dá sinais de que está
mais resistente. A osteoporose de que sofria, doença de enfraquecimento
dos ossos, foi completamente revertida. As mudanças na aparência
de seu rosto, como o cabelo ralo e a pele plastificada, são decorrentes
das alterações hormonais provocadas pela lesão
mas são passíveis de controle à base de medicamentos.
As melhorias no quadro clínico estão devolvendo a autoconfiança
a Reeve. "Nos primeiros anos, ele se recusava a ficar sozinho. Tinha medo.
Por isso, sempre havia alguém a seu lado", contou a VEJA Linda
Schultz, enfermeira responsável pela equipe que cuida diariamente
do ator. Hoje, Reeve perdeu o medo de ficar sozinho.
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