
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Vai valer mais que
petróleo
Consumo
excessivo, poluição e
crescimento da população mundial
ameaçam esgotar as reservas de
água doce do planeta
Daniel Hessel
Teich
No século
XX forjou-se a idéia de que um dos indicadores mais seguros de
riqueza de uma nação era o tamanho das reservas de petróleo
em seu subsolo. Atualmente, economistas, empresas e políticos começam
a levar em conta outro tipo de líquido para determinar a prosperidade
futura desse ou daquele país: a água. Em tese, ela é
mais abundante que o petróleo 70% da superfície do
planeta é coberta por esse líquido fundamental para a existência
de qualquer tipo de vida, o que equivale a aproximadamente 1,5 bilhão
de quilômetros cúbicos de água. A complicação
é que menos de 1% desse volume é apropriado para ser bebido
ou usado na agricultura. Nos últimos setenta anos, a população
do planeta triplicou enquanto a demanda por água aumentou seis
vezes. Estima-se que a humanidade use atualmente 50% das reservas de água
potável do planeta. Se o padrão atual de consumo for mantido,
serão 75% em 2025. Esse índice chegaria a 90% se os países
em desenvolvimento alcançassem consumo igual ao dos países
industrializados. A escassez de água potável atinge hoje
2 bilhões de pessoas. A Organização das Nações
Unidas (ONU) prevê que, se não forem adotadas medidas para
conter o consumo, dentro de 25 anos 4 bilhões de pessoas não
terão água em quantidade suficiente para as necessidades
básicas.
Do ponto
de vista econômico, água e petróleo pertenciam, até
bem pouco tempo atrás, a categorias com valores incomparáveis.
O combustível é um resíduo fóssil, que existe
em quantidades esgotáveis e cuja extração requer
investimentos pesados. A água é um recurso renovável
pelo ciclo natural da evaporação-chuva e distribuído
com fartura na superfície do planeta. Ocorre que a intervenção
humana afetou de forma dramática o ciclo natural de renovação
dos recursos hídricos. Em certas regiões do mundo, como
o oeste dos Estados Unidos, o norte da China e boa parte da Índia,
a água vem sendo consumida em ritmo mais rápido do que se
pode renovar. Mais da metade dos rios está poluída pelos
despejos de esgotos, resíduos industriais e agrotóxicos.
Estima-se que 30% das maiores bacias hidrográficas perderam mais
da metade da cobertura vegetal original, o que levou à redução
da quantidade de água. Nove de cada dez litros de água utilizados
no Terceiro Mundo são devolvidos à natureza sem nenhum tipo
de tratamento. Por causa disso, o conceito de água como uma dádiva
inesgotável e gratuita da natureza é coisa do passado.
Uma das
recomendações do Banco Mundial e da ONU para reduzir o desperdício
é considerar a água como uma mercadoria, com preço
de mercado. A Organização para Alimentação
e Agricultura das Nações Unidas (FAO) estima uma perda de
60% da água nos projetos de irrigação. Isso numa
atividade, a agricultura, que consome 70% de toda a água doce usada
em escala mundial. No Texas, um dos Estados mais secos dos EUA, o aumento
no custo da água levou os fazendeiros a trocar os sistemas de irrigação
antigos, com aproveitamento de 50% do líquido, por outros mais
modernos, com perdas de apenas 5%. O mesmo raciocínio vale para
as regiões urbanizadas. Na Europa, em países como a França,
a Alemanha e a Holanda, cobra-se cerca de 0,17 centavo de dólar
para cada metro cúbico de água (1.000
litros), sem contar as tarifas de abastecimento e tratamento de esgoto.
Tornar a água mais cara é uma das providências necessárias
para garantir o abastecimento futuro. Há consenso internacional
sobre outras providências mais urgentes. Uma delas é melhorar
a rede de distribuição, tanto para a agricultura como para
a região urbana. Nos países industrializados, a perda de
água é causada por sistemas obsoletos de distribuição.
No Terceiro Mundo, o problema é a falta de esgotos e de água
encanada.
Hoje há
tecnologia para a reciclagem de água. A cidade de Durban, na África
do Sul, por exemplo, trata o esgoto doméstico e revende a água
para uso industrial. Isso significa uma economia de 10% do volume de água
utilizado. Também é preciso diminuir a captação
dos lençóis freáticos, que estão sendo exauridos
além da capacidade de recuperação. Há quarenta
anos, poços de 30 metros de profundidade eram suficientes para
atingir o aqüífero de Ogallala, o enorme depósito subterrâneo
de água sob oito Estados americanos. Atualmente, é necessário
perfurar 100 metros. Uma coisa é certa: a água é
uma mercadoria de valor crescente. Estima-se que a indústria encarregada
de captar a água das fontes, entregá-la na torneira do consumidor
e tratá-la antes que volte para a natureza movimente 400 bilhões
de dólares, entre empresas públicas e privadas. Isso equivale
a 40% do setor petrolífero e é 30% maior que o setor farmacêutico.
Como o petróleo no passado, a água está no cerne
de um número cada vez maior de tensões internacionais. A
ONU calcula que 300 rios são objeto de conflitos fronteiriços.
Uma controvérsia séria envolve a disputa entre três
países do Oriente Médio pelo uso das águas do Eufrates.
A Turquia, onde está a cabeceira do curso de água, ergueu
várias represas para projetos de irrigação. O resultado
foi a diminuição do volume de água disponível
na Síria, que depende do Eufrates para suprir metade de sua demanda,
e no norte do Iraque. Um dos pontos sem acordo entre Israel e os palestinos
diz respeito ao aproveitamento das reservas aqüíferas da Palestina,
hoje superexploradas pelos israelenses. Ninguém quer ceder um líquido
tão precioso numa região com sede.
|
|
 |
|
 |

|
 |