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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
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Vai valer mais que petróleo

Consumo excessivo, poluição e
crescimento da população mundial
ameaçam esgotar as reservas de
água doce do planeta

Daniel Hessel Teich

No século XX forjou-se a idéia de que um dos indicadores mais seguros de riqueza de uma nação era o tamanho das reservas de petróleo em seu subsolo. Atualmente, economistas, empresas e políticos começam a levar em conta outro tipo de líquido para determinar a prosperidade futura desse ou daquele país: a água. Em tese, ela é mais abundante que o petróleo – 70% da superfície do planeta é coberta por esse líquido fundamental para a existência de qualquer tipo de vida, o que equivale a aproximadamente 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos de água. A complicação é que menos de 1% desse volume é apropriado para ser bebido ou usado na agricultura. Nos últimos setenta anos, a população do planeta triplicou enquanto a demanda por água aumentou seis vezes. Estima-se que a humanidade use atualmente 50% das reservas de água potável do planeta. Se o padrão atual de consumo for mantido, serão 75% em 2025. Esse índice chegaria a 90% se os países em desenvolvimento alcançassem consumo igual ao dos países industrializados. A escassez de água potável atinge hoje 2 bilhões de pessoas. A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que, se não forem adotadas medidas para conter o consumo, dentro de 25 anos 4 bilhões de pessoas não terão água em quantidade suficiente para as necessidades básicas.

Do ponto de vista econômico, água e petróleo pertenciam, até bem pouco tempo atrás, a categorias com valores incomparáveis. O combustível é um resíduo fóssil, que existe em quantidades esgotáveis e cuja extração requer investimentos pesados. A água é um recurso renovável pelo ciclo natural da evaporação-chuva e distribuído com fartura na superfície do planeta. Ocorre que a intervenção humana afetou de forma dramática o ciclo natural de renovação dos recursos hídricos. Em certas regiões do mundo, como o oeste dos Estados Unidos, o norte da China e boa parte da Índia, a água vem sendo consumida em ritmo mais rápido do que se pode renovar. Mais da metade dos rios está poluída pelos despejos de esgotos, resíduos industriais e agrotóxicos. Estima-se que 30% das maiores bacias hidrográficas perderam mais da metade da cobertura vegetal original, o que levou à redução da quantidade de água. Nove de cada dez litros de água utilizados no Terceiro Mundo são devolvidos à natureza sem nenhum tipo de tratamento. Por causa disso, o conceito de água como uma dádiva inesgotável e gratuita da natureza é coisa do passado.

Uma das recomendações do Banco Mundial e da ONU para reduzir o desperdício é considerar a água como uma mercadoria, com preço de mercado. A Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) estima uma perda de 60% da água nos projetos de irrigação. Isso numa atividade, a agricultura, que consome 70% de toda a água doce usada em escala mundial. No Texas, um dos Estados mais secos dos EUA, o aumento no custo da água levou os fazendeiros a trocar os sistemas de irrigação antigos, com aproveitamento de 50% do líquido, por outros mais modernos, com perdas de apenas 5%. O mesmo raciocínio vale para as regiões urbanizadas. Na Europa, em países como a França, a Alemanha e a Holanda, cobra-se cerca de 0,17 centavo de dólar para cada metro cúbico de água (1.000 litros), sem contar as tarifas de abastecimento e tratamento de esgoto. Tornar a água mais cara é uma das providências necessárias para garantir o abastecimento futuro. Há consenso internacional sobre outras providências mais urgentes. Uma delas é melhorar a rede de distribuição, tanto para a agricultura como para a região urbana. Nos países industrializados, a perda de água é causada por sistemas obsoletos de distribuição. No Terceiro Mundo, o problema é a falta de esgotos e de água encanada.

Hoje há tecnologia para a reciclagem de água. A cidade de Durban, na África do Sul, por exemplo, trata o esgoto doméstico e revende a água para uso industrial. Isso significa uma economia de 10% do volume de água utilizado. Também é preciso diminuir a captação dos lençóis freáticos, que estão sendo exauridos além da capacidade de recuperação. Há quarenta anos, poços de 30 metros de profundidade eram suficientes para atingir o aqüífero de Ogallala, o enorme depósito subterrâneo de água sob oito Estados americanos. Atualmente, é necessário perfurar 100 metros. Uma coisa é certa: a água é uma mercadoria de valor crescente. Estima-se que a indústria encarregada de captar a água das fontes, entregá-la na torneira do consumidor e tratá-la antes que volte para a natureza movimente 400 bilhões de dólares, entre empresas públicas e privadas. Isso equivale a 40% do setor petrolífero e é 30% maior que o setor farmacêutico. Como o petróleo no passado, a água está no cerne de um número cada vez maior de tensões internacionais. A ONU calcula que 300 rios são objeto de conflitos fronteiriços. Uma controvérsia séria envolve a disputa entre três países do Oriente Médio pelo uso das águas do Eufrates. A Turquia, onde está a cabeceira do curso de água, ergueu várias represas para projetos de irrigação. O resultado foi a diminuição do volume de água disponível na Síria, que depende do Eufrates para suprir metade de sua demanda, e no norte do Iraque. Um dos pontos sem acordo entre Israel e os palestinos diz respeito ao aproveitamento das reservas aqüíferas da Palestina, hoje superexploradas pelos israelenses. Ninguém quer ceder um líquido tão precioso numa região com sede.

   
 
   
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