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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
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A garimpagem no
cemitério nazista

Saquear tumbas em busca de medalhas
tornou-se um bom negócio na Rússia

A moda no verão russo de 2002 tem sido o garimpo. Não se trata de localizar ouro ou diamantes, mas de encontrar, com a ajuda de detectores de metal, pás e picaretas, relíquias da II Guerra, que podem ser vendidas a colecionadores de todo o mundo. Há compradores interessados em quase tudo o que se encontra nos antigos campos de batalha, de pedaços de aviões a capacetes e fardas militares. Os objetos mais valorizados são de longe as condecorações nazistas, só localizadas em cemitérios e valas comuns onde foram sepultados os mortos alemães na invasão da União Soviética. Os nazistas perderam 2,2 milhões de soldados, derrota que acabou definindo a guerra na Europa a favor dos aliados. Os garimpeiros de fim de semana abrem as covas atrás de botas, restos de uniformes e, sobretudo, da Cruz de Ferro, a mais alta condecoração nazista. Cada exemplar vale 50 dólares no mercado internacional. É um dinheirão no interior da Rússia, onde o salário médio é de apenas 130 dólares.

Um levantamento feito pela União dos Registros de Túmulos de Guerra – organização que mapeia e monitora os cemitérios estrangeiros em que estão enterrados soldados alemães – concluiu que 70% dos túmulos na região do Cáucaso já foram pilhados. Nessa área ao sul da Rússia, onde ocorreram algumas das batalhas mais sangrentas, existem 137 sepulcros em que se estima haver 150.000 corpos. Com cuidados próprios de uma expedição arqueológica, os saqueadores de túmulos separam ossos e esqueletos dos objetos que de fato interessam. Esse tipo de coleta é totalmente ilegal, pois acordos firmados entre a Rússia e a Alemanha garantem a preservação dos cemitérios militares.

A caça ao tesouro nos túmulos nazistas é a versão mais recente de uma atividade tradicional na Rússia. Os campos de batalha já eram vasculhados nos tempos do governo comunista, mas só se procuravam destroços de aeronaves, tanques e canhões deixados pelo inimigo. Considerado patrimônio nacional, o material soviético não pode ser comercializado. O negócio é lucrativo tanto para quem vende as peças como para quem as compra. A asa de um avião militar alemão pode custar 10.000 dólares. Uma carcaça completa dos caças mais famosos, como o Focke-Wulf e o Messerschmidt 109, ultrapassa os 100.000 dólares. "Restaurada e capaz de voar, uma aeronave dessas vale 1 milhão de dólares", disse a VEJA o americano Gerald Yagen, restaurador de aviões históricos. Nos últimos três anos, Yagen importou os restos de cinco modelos Messerschmidt 109 encontrados nos arredores de São Petersburgo. Seu objetivo é usar a sucata de vários aparelhos para reconstruir um único avião.

 
 
   
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