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Weffort,
o magnífico
"Quando
me irrito com
o ministro
Weffort, confiro sua agenda oficial.
A
rotina que ele
leva é o pior castigo
que alguém poderia infligir-lhe. Eu o
puniria confirmando-o no
cargo por
mais oito anos"
Francisco Weffort orgulha-se de seus oito anos à frente do Ministério
da Cultura. Ele acha que garantiu um lugar na história. E que,
no futuro, associaremos esse período ao renascimento do cinema
nacional, marcado por filmes memoráveis como O Menino Maluquinho
e O Noviço Rebelde. É o que ele afirma no prefácio
de Um Olhar sobre a Cultura Brasileira, uma espécie de balanço
da "era Weffort", publicado à custa do ministério e disponível
na internet. Um anúncio garante que "a leitura deste livro enche-nos
de saudável euforia e auto-estima. Ele mostra que estamos no caminho
certo, construindo uma unidade cultural modelar". De acordo com Weffort,
essa unidade cultural modelar seria representada, justamente, por O
Menino Maluquinho e O Noviço Rebelde. Diante de tais
argumentos, como evitar a euforia e a auto-estima?
É
estranho que um ministério financie um livro laudatório
sobre as atividades de seu titular. Sobretudo quando se descobre que esse
livro custou o equivalente a 600.000 dólares aos cofres públicos.
Tem mais: dos seis livros apresentados no site do Ministério da
Cultura, três foram escritos ou organizados por Weffort e os outros
três contêm colaborações de alguns de seus mais
fiéis subordinados, como Marcio Souza (presidente da Funarte),
José Álvaro Moisés (secretário do Audiovisual)
e Gabriel Priolli Neto (TV Cultura e Arte). O Ministério da Cultura
se transformou na editora particular de seus componentes. No site há
também 26 textos de Weffort, nos quais destila a erudição
e o olhar crítico que lhe renderam a estima de seu chefe Fernando
Henrique Cardoso. Tome-se, por exemplo, o discurso em que Weffort louva
o presidente por nos dar "a oportunidade de poder acreditar que o futuro
será melhor", ou aquele em que o enaltece por "liderar a caminhada
rumo à nossa plena integração como nação",
ou aquele em que o defende do "pretenso moralismo" dos que acusam seu
governo de corrupção.
Como sempre, porém, o que importa no mundo das artes é o
dinheiro. E Weffort, no decorrer desses oito anos, foi distribuindo benesses
aqui e ali, dos 5.000 reais do Prêmio Estímulo ao Circo aos
250.000 reais do Réveillon no Piscinão de Ramos. Dos 4,7
milhões de reais da TV Cultura e Arte aos 500 milhões de
reais gastos com o cinema nacional. Lorenzo, o Magnífico, o principal
mecenas do Renascimento florentino, protegeu Michelangelo e Leonardo da
Vinci. Weffort, o principal mecenas do renascimento da cultura brasileira,
cercou-se de vereadores e prefeitos que mendigavam verbas para festivais
de teatro em seus currais eleitorais. Cada um tem a corte que merece.
E cada um tem a vida que merece. Quando me irrito com o ministro Weffort,
confiro na internet, com uma ponta de sadismo, sua agenda oficial. A rotina
que ele leva é o pior castigo que alguém poderia infligir-lhe.
Seu programa para a última terça-feira: 10 horas
Presidir o 2º Encontro "Latinidade e Herança Islâmica".
12 horas Chegada a Diamantina. 16 horas Inauguração
da Agência do Banco Postal. 18 horas Apresentação
do Grupo Folclórico Cantigas de Roda. 18h30 Lançamento
do livro Alinhando Palavras, de Antônio Nunes. 20 horas
Concerto com a Banda Sinfônica Mirim. Weffort submeteu-se espontaneamente
a essa rotina por oito intermináveis anos. Eu o puniria confirmando-o
no cargo por mais oito.
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