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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
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Weffort, o magnífico

"Quando me irrito com o ministro
Weffort, confiro sua agenda oficial.

A rotina que ele leva é o pior castigo
que alguém poderia infligir-lhe. Eu o
puniria confirmando-o
no cargo por
mais oito anos"

Francisco Weffort orgulha-se de seus oito anos à frente do Ministério da Cultura. Ele acha que garantiu um lugar na história. E que, no futuro, associaremos esse período ao renascimento do cinema nacional, marcado por filmes memoráveis como O Menino Maluquinho e O Noviço Rebelde. É o que ele afirma no prefácio de Um Olhar sobre a Cultura Brasileira, uma espécie de balanço da "era Weffort", publicado à custa do ministério e disponível na internet. Um anúncio garante que "a leitura deste livro enche-nos de saudável euforia e auto-estima. Ele mostra que estamos no caminho certo, construindo uma unidade cultural modelar". De acordo com Weffort, essa unidade cultural modelar seria representada, justamente, por O Menino Maluquinho e O Noviço Rebelde. Diante de tais argumentos, como evitar a euforia e a auto-estima?

É estranho que um ministério financie um livro laudatório sobre as atividades de seu titular. Sobretudo quando se descobre que esse livro custou o equivalente a 600.000 dólares aos cofres públicos. Tem mais: dos seis livros apresentados no site do Ministério da Cultura, três foram escritos ou organizados por Weffort e os outros três contêm colaborações de alguns de seus mais fiéis subordinados, como Marcio Souza (presidente da Funarte), José Álvaro Moisés (secretário do Audiovisual) e Gabriel Priolli Neto (TV Cultura e Arte). O Ministério da Cultura se transformou na editora particular de seus componentes. No site há também 26 textos de Weffort, nos quais destila a erudição e o olhar crítico que lhe renderam a estima de seu chefe Fernando Henrique Cardoso. Tome-se, por exemplo, o discurso em que Weffort louva o presidente por nos dar "a oportunidade de poder acreditar que o futuro será melhor", ou aquele em que o enaltece por "liderar a caminhada rumo à nossa plena integração como nação", ou aquele em que o defende do "pretenso moralismo" dos que acusam seu governo de corrupção.

Como sempre, porém, o que importa no mundo das artes é o dinheiro. E Weffort, no decorrer desses oito anos, foi distribuindo benesses aqui e ali, dos 5.000 reais do Prêmio Estímulo ao Circo aos 250.000 reais do Réveillon no Piscinão de Ramos. Dos 4,7 milhões de reais da TV Cultura e Arte aos 500 milhões de reais gastos com o cinema nacional. Lorenzo, o Magnífico, o principal mecenas do Renascimento florentino, protegeu Michelangelo e Leonardo da Vinci. Weffort, o principal mecenas do renascimento da cultura brasileira, cercou-se de vereadores e prefeitos que mendigavam verbas para festivais de teatro em seus currais eleitorais. Cada um tem a corte que merece.

E cada um tem a vida que merece. Quando me irrito com o ministro Weffort, confiro na internet, com uma ponta de sadismo, sua agenda oficial. A rotina que ele leva é o pior castigo que alguém poderia infligir-lhe. Seu programa para a última terça-feira: 10 horas – Presidir o 2º Encontro "Latinidade e Herança Islâmica". 12 horas – Chegada a Diamantina. 16 horas – Inauguração da Agência do Banco Postal. 18 horas – Apresentação do Grupo Folclórico Cantigas de Roda. 18h30 – Lançamento do livro Alinhando Palavras, de Antônio Nunes. 20 horas – Concerto com a Banda Sinfônica Mirim. Weffort submeteu-se espontaneamente a essa rotina por oito intermináveis anos. Eu o puniria confirmando-o no cargo por mais oito.

 
 
   
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