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o stress
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Fernanda Davaglia![]() |
"Concentrar-se numa frase ou oração por quinze minutos, todos os dias, ajuda a controlar o stress. Mas não se deve usar despertador para marcar o tempo" |
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O psicólogo americano James Campbell Quick, Ph.D. em administração de empresas, é o pioneiro no controle do stress no ambiente de trabalho. Professor de comportamento organizacional da Universidade do Texas e editor do principal jornal de psicologia e saúde no trabalho, Quick leva à risca as teses que defende e elas rezam que o stress, até certo ponto, tem de ser cultivado, não eliminado. É dele a teoria de que, para ser bem-sucedido na carreira profissional, a pessoa deve definir-se como um atleta corporativo. Para manter-se em condições de desempenhar bem seu trabalho, Quick faz duas sessões de relaxamento e meditação por dia. Uma de manhã e outra no fim do dia, ambas de quinze minutos. "É o suficiente", diz Quick. "Com mais do que isso, a pessoa pode começar a ficar improdutiva." Não é o caso dele, que tem dezessete livros publicados. Com a voz calma de quem não se estressa à toa, Quick respondeu às perguntas de VEJA de Arlington, no Texas, onde leciona.
Veja Por que o senhor diz que stress é bom?
Quick
A maioria das pessoas pensa no stress como algo ruim. Mas, em vez de aprender
a evitá-lo, o que é impossível, temos de aprender
a controlá-lo e a usá-lo de forma saudável, produtiva
e criativa. Só quem está morto não tem stress. Ele
é uma arma que ativa as funções corporais e põe
a pessoa pronta para a ação, preparada para sobreviver.
Isso vale tanto para coisas como correr ou superar uma ameaça quanto
para construir prédios altos e trabalhar com afinco. Quem não
tem stress suficiente não está usando todo o potencial como
ser humano.
Veja Como se faz para conseguir esse uso positivo do stress?
Quick
Primeiro,
a pessoa precisa identificar o momento em que o stress está começando
a fazer-lhe mal. Numa situação de alto stress, as respostas
mais comuns são lutar ou fugir. Pode-se dizer que, no trabalho,
enquanto o stress está gerando entusiasmo, motivação,
ele é bom. Quando ganha as características de desânimo,
cansaço, irritação, passa a ser mau. Nesse momento,
antes de pedir férias ou demissão, vale a pena usar uma
técnica respiratória. Inspirar o ar lentamente e tentar
levá-lo para a parte inferior do pulmão. É a respiração
abdominal. Depois, vem o cuidado com a mente. A pessoa deve concentrar
sua atenção em algum ponto fixo ou numa idéia ou
frase. Pode ser até algo religioso, como "o Senhor é o meu
pastor". Essa é uma forma de sintonizar-se apenas no processo que
está acontecendo em seu corpo. Com isso, os sintomas de ansiedade
são revertidos. A pressão arterial diminui e os músculos
ficam relaxados. O nível de stress desce e pode ser recolocado
na direção produtiva. Há quem consiga até
regular os batimentos cardíacos agindo assim.
Veja Qualquer um pode fazer isso?
Quick
Sim, desde que tenha treinado. Não basta usar a técnica
na primeira situação de stress que aparecer. Para quem treina,
na hora em que precisar, vai ser automático.
Veja E como se aprende a ter esse autocontrole?
Quick
Um
dos métodos, que é o que eu uso, é a meditação.
O ideal é fazê-la todos os dias. Encontrar um lugar tranqüilo,
pouco iluminado, sentar-se numa posição confortável
e concentrar-se numa frase ou oração por quinze ou vinte
minutos. Jamais se deve usar despertador para marcar o tempo, e é
bom sair lentamente da meditação. Isso facilitará
o controle do stress. Um sinal da tensão é a baixa temperatura
das extremidades do corpo. Às vezes, coloco um termômetro
entre meus dedos. A temperatura, que no início da meditação
está em 30 graus, ao final chega a 34.
Veja O ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet cochilava
dentro do carro minutos antes de uma corrida. Como isso é possível
na iminência de uma disputa tão estressante?
Quick
Isso
é auto-regulação e autocontrole. Nelson Piquet nesse
momento não estava sem stress. Estava ajustando o nível
de stress ao ponto certo, para que não corresse estressado demais
nem de menos. O bom esportista tem de ter essa habilidade. No ambiente
de trabalho é importante manter a mente e o corpo tensionados no
nível ideal.
Veja Vem daí a teoria segundo a qual o trabalhador
deve espelhar-se nos esportistas e tornar-se um atleta corporativo?
Quick
Sim. Os esportistas precisam nadar e correr mais rápido que todos
os outros competidores. Têm disciplina para treinar e se preparar.
Administram seu stress. O mesmo ocorre no ambiente de trabalho. Em ambos
os casos, no entanto, é necessário condicionar-se para obter
o equilíbrio entre a tensão e o relaxamento, para poder
usar o stress a seu favor. Um atleta ansioso além do ponto perde
desempenho. O atleta corporativo que se descontrola perde produtividade.
Veja O que mais o atleta corporativo pode assimilar do esporte?
Quick
Treinar todos os dias os fundamentos básicos de sua atividade é
um aprendizado óbvio. Se escrevo, tenho de treinar para escrever
cada vez melhor. Se sou um negociador, idem. Outra coisa que o atleta
corporativo pode aprender com o esportista é que a renovação
de energia é tão importante quanto o gasto. O atleta realmente
bom sabe quando relaxar e quando se aplicar mais. Veja o caso de um tenista
que, entre um set e outro, ou mesmo durante o próprio set, sabe
quando disputar o ponto com garra e quando relaxar.
Veja O senhor pode dar exemplos de stress positivo e negativo
dentro de uma companhia?
Quick
Se
uma companhia diz a um gerente de vendas que ele tem de aumentar o faturamento
de 850.000 reais para 1 milhão e dá as condições
para que ele opere, tem-se um caso de stress positivo. Não é
fácil aumentar as vendas em quase 20%. É uma exigência
potencialmente estressante. Mas é um bom desafio, porque vem acompanhado
de apoio para a execução. Um stress negativo seria essa
mesma companhia aumentar as metas e ao mesmo tempo tirar do gerente seu
secretário e mais dois ou três recursos fundamentais para
ele cumprir a exigência. Neste caso, a empresa transforma o que
poderia ser um desafio positivo numa corrida de obstáculos impossível
de vencer.
Veja Como se pode evitar que situações desgastantes
na vida pessoal levem ao stress no trabalho, ou vice-versa?
Quick
Isso
é possível, sim. Podem-se minimizar os efeitos ruins escrevendo
diários, com orações ou com a confissão. Trabalhei
com jovens oficiais do Pentágono que estavam tendo dificuldade
para impedir que o stress daquele ambiente tenso contaminasse a vida doméstica.
Escrevendo os mais profundos e perturbadores sentimentos no computador
toda manhã, eles se livravam de boa parte da carga de stress e
estavam aptos para trabalhar de forma produtiva durante o dia. É
suficiente escrever por cinco, quinze minutos ou meia hora.
Veja Há uma tendência de aumentar o número
de pessoas que trabalham sozinhas, em casa. Isso leva a um aumento do
stress?
Quick
O isolamento social é uma grande fonte de stress e um risco para
a saúde. Há diferenças entre as pessoas quanto à
quantidade de contato social de que precisam. Mas nenhuma consegue ficar
sem. Um amigo meu, executivo que trabalha em casa, disse-me que depois
que ele entrou para o Rotary Club de sua cidade passou a ter um bom e
saudável contato social com pessoas de diferentes ramos de profissão,
o que reduziu o stress do trabalho solitário. Outro problema é
que muitas vezes o lugar de trabalho se mistura com a moradia. O ideal
é ter pelo menos um local da casa que seja só para o trabalho.
Se possível, deve-se também ter disciplina com os horários,
deixando definido quando se está trabalhando e quando se está
descansando. São atos importantes para diminuir o stress de trabalhar
sozinho.
Veja Como um trabalhador pode aumentar sua dose de motivação?
Quick
No início do século passado, o atleta americano Jim Thorpe
estava indo para as Olimpíadas na Europa, a bordo de um navio,
sentado, e o treinador perguntou: "Por que você não está
praticando?". E ele respondeu: "Treinador, eu estou aqui sentado, com
meus olhos fechados, me vendo ganhar uma prova de 100 metros rasos". Ele
estava imaginando, em sua mente, o que iria fazer depois. É a técnica
de visualização. Claro que não é só
porque se consegue visualizar um fato que ele vai acontecer. Mas ser capaz
de imaginar uma situação ou uma meta aumenta significativamente
a chance de que aquilo seja alcançado. É uma técnica
muito usada para motivar as pessoas.
Veja Só consegue ser produtivo quem tem a capacidade
de se motivar desse modo?
Quick
Não necessariamente. É impossível evitar sempre a
desmotivação. E isso não é ruim. Falta de
motivação na verdade é falta de gasto de energia.
Certa vez um colega me pediu que lhe ensinasse como fazer para escrever
o dia inteiro. Ele achava que, no meu trabalho, escrevo todo o tempo,
durante todo o dia, que sou supermotivado. Mas, na verdade, há
dias em que sou extremamente produtivo. Em outros, faço o meu trabalho
e me esforço para me disciplinar. E há até períodos
em que estou muito confuso para escrever. Simplesmente não estou
motivado. Isso não dura muito tempo, mas uso esses períodos
de falta de motivação para reposição de energia.
Faço um esporte. Períodos curtos de falta de motivação
não são ruins. Podem tornar-se momentos de reposição
de energia.
Veja De que forma a autoconfiança ajuda no trabalho
e no combate ao stress?
Quick
Essa é uma questão interessante. Acho curioso quem tem excesso
de autoconfiança. É difícil ser assim porque, na
verdade, nós falhamos a maior parte do tempo. O jogador de basquete
Michael Jordan, por exemplo, espanta todo mundo com os pontos que faz.
Só que, nos arremessos, ele erra mais vezes a cesta do que acerta.
O mesmo ocorre com os rebatedores de beisebol. Eles acertam a bola uma
vez em cada três ou quatro tentativas. Portanto, eles não
podem acreditar que vão acertar sempre. Têm de confiar que,
entre um número tal de falhas, acabarão acertando. Por isso
vale a pena tentar. Por isso, também, uma pessoa não deve
ser confiante demais, beirando a arrogância, nem pode ser confiante
de menos. Deve analisar as próprias habilidades, talentos e experiência
para acreditar que tem chance de acertar.
Veja O que acontece com os autoconfiantes demais?
Quick
Há dois problemas nesse caso: um é que essa pessoa não
se ajusta aos fracassos. Fica muito contrariada, e isso é irreal,
porque nós todos fracassamos em diversos momentos. Eu trato um
executivo que foi muito bem-sucedido por vinte anos. Agora, pela primeira
vez, está fracassando. Com certeza ele vai ser bem-sucedido novamente,
mas ele está sofrendo com esses fracassos, porque não está
acostumado. É preciso reconhecer que fracasso e sucesso são
resultado de nosso esforço no trabalho. O segundo problema é
que você pode entrar em conflito com outras pessoas que percebem
seu senso de confiança inflado e que tentam ajustá-lo à
realidade.
Veja Muita gente produz coisas pequenas, mesmo enfrentando
difíceis problemas, e não tem reconhecimento nem dos colegas
nem dos chefes. O que esse tipo de trabalhador pode fazer?
Quick
Talvez a primeira coisa que ele possa aprender é que o reconhecimento
no trabalho não é tudo, e pode até ser uma grande
bobagem. Na hora de um corte, por exemplo, por fazer coisas importantes,
ainda que pequenas, ele pode tornar-se indispensável, enquanto
o mais admirado de outra área pode ser convidado a vender sua genialidade
no mercado. Além disso, é possível ter satisfações
pessoais bastante profundas em nosso trabalho sem o reconhecimento externo.
Quando a diferença ocorre dentro de um mesmo departamento, o trabalhador
tem de entender que nem todo mundo vai chegar ao mesmo alto nível
de produção, e ninguém é obrigado a ir tão
longe quanto um colega mais produtivo e mais admirado. Esforçar-se
para produzir melhor é importante, mas sem se deixar abater pela
competição. É necessário ressaltar que a competição
pode trazer à tona o melhor de nós, mas, se não for
bem administrada, pode também fazer emergir o pior de nós.
Por isso, os administradores devem ajudar os funcionários a se
controlar. Uma das maneiras é colaborar para reduzir seus medos
e inseguranças. As pessoas que ultrapassam o limite da ética
nessa competição chegam a prejudicar o desempenho da empresa.
São elas que correm os maiores e mais perigosos riscos nestes tempos
de grandes desafios e menor estabilidade profissional.
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