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Edição 1 769 - 18 de setembro de 2002
Entrevista: James Campbell Quick

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Use o stress
a seu favor

O homem que definiu o atleta
corporativo diz que tensão e
ansiedade ajudam você a trabalhar

Diogo Schelp

 
Fernanda Davaglia

"Concentrar-se numa frase ou oração por quinze minutos, todos os dias, ajuda a controlar o stress. Mas não se deve usar despertador para marcar o tempo"



Veja também
Como o stress atua sobre o corpo
Teste: Você é vulnerável à pressão do trabalho?

O psicólogo americano James Campbell Quick, Ph.D. em administração de empresas, é o pioneiro no controle do stress no ambiente de trabalho. Professor de comportamento organizacional da Universidade do Texas e editor do principal jornal de psicologia e saúde no trabalho, Quick leva à risca as teses que defende – e elas rezam que o stress, até certo ponto, tem de ser cultivado, não eliminado. É dele a teoria de que, para ser bem-sucedido na carreira profissional, a pessoa deve definir-se como um atleta corporativo. Para manter-se em condições de desempenhar bem seu trabalho, Quick faz duas sessões de relaxamento e meditação por dia. Uma de manhã e outra no fim do dia, ambas de quinze minutos. "É o suficiente", diz Quick. "Com mais do que isso, a pessoa pode começar a ficar improdutiva." Não é o caso dele, que tem dezessete livros publicados. Com a voz calma de quem não se estressa à toa, Quick respondeu às perguntas de VEJA de Arlington, no Texas, onde leciona.

Veja – Por que o senhor diz que stress é bom?
Quick – A maioria das pessoas pensa no stress como algo ruim. Mas, em vez de aprender a evitá-lo, o que é impossível, temos de aprender a controlá-lo e a usá-lo de forma saudável, produtiva e criativa. Só quem está morto não tem stress. Ele é uma arma que ativa as funções corporais e põe a pessoa pronta para a ação, preparada para sobreviver. Isso vale tanto para coisas como correr ou superar uma ameaça quanto para construir prédios altos e trabalhar com afinco. Quem não tem stress suficiente não está usando todo o potencial como ser humano.

Veja – Como se faz para conseguir esse uso positivo do stress?
Quick – Primeiro, a pessoa precisa identificar o momento em que o stress está começando a fazer-lhe mal. Numa situação de alto stress, as respostas mais comuns são lutar ou fugir. Pode-se dizer que, no trabalho, enquanto o stress está gerando entusiasmo, motivação, ele é bom. Quando ganha as características de desânimo, cansaço, irritação, passa a ser mau. Nesse momento, antes de pedir férias ou demissão, vale a pena usar uma técnica respiratória. Inspirar o ar lentamente e tentar levá-lo para a parte inferior do pulmão. É a respiração abdominal. Depois, vem o cuidado com a mente. A pessoa deve concentrar sua atenção em algum ponto fixo ou numa idéia ou frase. Pode ser até algo religioso, como "o Senhor é o meu pastor". Essa é uma forma de sintonizar-se apenas no processo que está acontecendo em seu corpo. Com isso, os sintomas de ansiedade são revertidos. A pressão arterial diminui e os músculos ficam relaxados. O nível de stress desce e pode ser recolocado na direção produtiva. Há quem consiga até regular os batimentos cardíacos agindo assim.

Veja – Qualquer um pode fazer isso?
Quick – Sim, desde que tenha treinado. Não basta usar a técnica na primeira situação de stress que aparecer. Para quem treina, na hora em que precisar, vai ser automático.

Veja – E como se aprende a ter esse autocontrole?
Quick – Um dos métodos, que é o que eu uso, é a meditação. O ideal é fazê-la todos os dias. Encontrar um lugar tranqüilo, pouco iluminado, sentar-se numa posição confortável e concentrar-se numa frase ou oração por quinze ou vinte minutos. Jamais se deve usar despertador para marcar o tempo, e é bom sair lentamente da meditação. Isso facilitará o controle do stress. Um sinal da tensão é a baixa temperatura das extremidades do corpo. Às vezes, coloco um termômetro entre meus dedos. A temperatura, que no início da meditação está em 30 graus, ao final chega a 34.

Veja – O ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet cochilava dentro do carro minutos antes de uma corrida. Como isso é possível na iminência de uma disputa tão estressante?
Quick – Isso é auto-regulação e autocontrole. Nelson Piquet nesse momento não estava sem stress. Estava ajustando o nível de stress ao ponto certo, para que não corresse estressado demais nem de menos. O bom esportista tem de ter essa habilidade. No ambiente de trabalho é importante manter a mente e o corpo tensionados no nível ideal.

Veja – Vem daí a teoria segundo a qual o trabalhador deve espelhar-se nos esportistas e tornar-se um atleta corporativo?
Quick – Sim. Os esportistas precisam nadar e correr mais rápido que todos os outros competidores. Têm disciplina para treinar e se preparar. Administram seu stress. O mesmo ocorre no ambiente de trabalho. Em ambos os casos, no entanto, é necessário condicionar-se para obter o equilíbrio entre a tensão e o relaxamento, para poder usar o stress a seu favor. Um atleta ansioso além do ponto perde desempenho. O atleta corporativo que se descontrola perde produtividade.

Veja – O que mais o atleta corporativo pode assimilar do esporte?
Quick – Treinar todos os dias os fundamentos básicos de sua atividade é um aprendizado óbvio. Se escrevo, tenho de treinar para escrever cada vez melhor. Se sou um negociador, idem. Outra coisa que o atleta corporativo pode aprender com o esportista é que a renovação de energia é tão importante quanto o gasto. O atleta realmente bom sabe quando relaxar e quando se aplicar mais. Veja o caso de um tenista que, entre um set e outro, ou mesmo durante o próprio set, sabe quando disputar o ponto com garra e quando relaxar.

Veja – O senhor pode dar exemplos de stress positivo e negativo dentro de uma companhia?
Quick – Se uma companhia diz a um gerente de vendas que ele tem de aumentar o faturamento de 850.000 reais para 1 milhão e dá as condições para que ele opere, tem-se um caso de stress positivo. Não é fácil aumentar as vendas em quase 20%. É uma exigência potencialmente estressante. Mas é um bom desafio, porque vem acompanhado de apoio para a execução. Um stress negativo seria essa mesma companhia aumentar as metas e ao mesmo tempo tirar do gerente seu secretário e mais dois ou três recursos fundamentais para ele cumprir a exigência. Neste caso, a empresa transforma o que poderia ser um desafio positivo numa corrida de obstáculos impossível de vencer.

Veja – Como se pode evitar que situações desgastantes na vida pessoal levem ao stress no trabalho, ou vice-versa?
Quick – Isso é possível, sim. Podem-se minimizar os efeitos ruins escrevendo diários, com orações ou com a confissão. Trabalhei com jovens oficiais do Pentágono que estavam tendo dificuldade para impedir que o stress daquele ambiente tenso contaminasse a vida doméstica. Escrevendo os mais profundos e perturbadores sentimentos no computador toda manhã, eles se livravam de boa parte da carga de stress e estavam aptos para trabalhar de forma produtiva durante o dia. É suficiente escrever por cinco, quinze minutos ou meia hora.

Veja – Há uma tendência de aumentar o número de pessoas que trabalham sozinhas, em casa. Isso leva a um aumento do stress?
Quick – O isolamento social é uma grande fonte de stress e um risco para a saúde. Há diferenças entre as pessoas quanto à quantidade de contato social de que precisam. Mas nenhuma consegue ficar sem. Um amigo meu, executivo que trabalha em casa, disse-me que depois que ele entrou para o Rotary Club de sua cidade passou a ter um bom e saudável contato social com pessoas de diferentes ramos de profissão, o que reduziu o stress do trabalho solitário. Outro problema é que muitas vezes o lugar de trabalho se mistura com a moradia. O ideal é ter pelo menos um local da casa que seja só para o trabalho. Se possível, deve-se também ter disciplina com os horários, deixando definido quando se está trabalhando e quando se está descansando. São atos importantes para diminuir o stress de trabalhar sozinho.

Veja – Como um trabalhador pode aumentar sua dose de motivação?
Quick – No início do século passado, o atleta americano Jim Thorpe estava indo para as Olimpíadas na Europa, a bordo de um navio, sentado, e o treinador perguntou: "Por que você não está praticando?". E ele respondeu: "Treinador, eu estou aqui sentado, com meus olhos fechados, me vendo ganhar uma prova de 100 metros rasos". Ele estava imaginando, em sua mente, o que iria fazer depois. É a técnica de visualização. Claro que não é só porque se consegue visualizar um fato que ele vai acontecer. Mas ser capaz de imaginar uma situação ou uma meta aumenta significativamente a chance de que aquilo seja alcançado. É uma técnica muito usada para motivar as pessoas.

Veja – Só consegue ser produtivo quem tem a capacidade de se motivar desse modo?
Quick – Não necessariamente. É impossível evitar sempre a desmotivação. E isso não é ruim. Falta de motivação na verdade é falta de gasto de energia. Certa vez um colega me pediu que lhe ensinasse como fazer para escrever o dia inteiro. Ele achava que, no meu trabalho, escrevo todo o tempo, durante todo o dia, que sou supermotivado. Mas, na verdade, há dias em que sou extremamente produtivo. Em outros, faço o meu trabalho e me esforço para me disciplinar. E há até períodos em que estou muito confuso para escrever. Simplesmente não estou motivado. Isso não dura muito tempo, mas uso esses períodos de falta de motivação para reposição de energia. Faço um esporte. Períodos curtos de falta de motivação não são ruins. Podem tornar-se momentos de reposição de energia.

Veja – De que forma a autoconfiança ajuda no trabalho e no combate ao stress?
Quick – Essa é uma questão interessante. Acho curioso quem tem excesso de autoconfiança. É difícil ser assim porque, na verdade, nós falhamos a maior parte do tempo. O jogador de basquete Michael Jordan, por exemplo, espanta todo mundo com os pontos que faz. Só que, nos arremessos, ele erra mais vezes a cesta do que acerta. O mesmo ocorre com os rebatedores de beisebol. Eles acertam a bola uma vez em cada três ou quatro tentativas. Portanto, eles não podem acreditar que vão acertar sempre. Têm de confiar que, entre um número tal de falhas, acabarão acertando. Por isso vale a pena tentar. Por isso, também, uma pessoa não deve ser confiante demais, beirando a arrogância, nem pode ser confiante de menos. Deve analisar as próprias habilidades, talentos e experiência para acreditar que tem chance de acertar.

Veja – O que acontece com os autoconfiantes demais?
Quick – Há dois problemas nesse caso: um é que essa pessoa não se ajusta aos fracassos. Fica muito contrariada, e isso é irreal, porque nós todos fracassamos em diversos momentos. Eu trato um executivo que foi muito bem-sucedido por vinte anos. Agora, pela primeira vez, está fracassando. Com certeza ele vai ser bem-sucedido novamente, mas ele está sofrendo com esses fracassos, porque não está acostumado. É preciso reconhecer que fracasso e sucesso são resultado de nosso esforço no trabalho. O segundo problema é que você pode entrar em conflito com outras pessoas que percebem seu senso de confiança inflado e que tentam ajustá-lo à realidade.

Veja – Muita gente produz coisas pequenas, mesmo enfrentando difíceis problemas, e não tem reconhecimento nem dos colegas nem dos chefes. O que esse tipo de trabalhador pode fazer?
Quick – Talvez a primeira coisa que ele possa aprender é que o reconhecimento no trabalho não é tudo, e pode até ser uma grande bobagem. Na hora de um corte, por exemplo, por fazer coisas importantes, ainda que pequenas, ele pode tornar-se indispensável, enquanto o mais admirado de outra área pode ser convidado a vender sua genialidade no mercado. Além disso, é possível ter satisfações pessoais bastante profundas em nosso trabalho sem o reconhecimento externo. Quando a diferença ocorre dentro de um mesmo departamento, o trabalhador tem de entender que nem todo mundo vai chegar ao mesmo alto nível de produção, e ninguém é obrigado a ir tão longe quanto um colega mais produtivo e mais admirado. Esforçar-se para produzir melhor é importante, mas sem se deixar abater pela competição. É necessário ressaltar que a competição pode trazer à tona o melhor de nós, mas, se não for bem administrada, pode também fazer emergir o pior de nós. Por isso, os administradores devem ajudar os funcionários a se controlar. Uma das maneiras é colaborar para reduzir seus medos e inseguranças. As pessoas que ultrapassam o limite da ética nessa competição chegam a prejudicar o desempenho da empresa. São elas que correm os maiores e mais perigosos riscos nestes tempos de grandes desafios e menor estabilidade profissional.

 
 
   
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