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Caminhos da féBest-seller desde o século XVII, Paulo Coelho*
O escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que só existem quatro histórias para ser contadas: uma relação entre duas pessoas, um triângulo amoroso, uma luta pelo poder e uma viagem. Curiosamente, a maior parte dos grandes clássicos da literatura universal pertence a esta quarta categoria – Ulisses voltando para Tróia, Quixote caminhando pela Mancha, os navegadores de Os Lusíadas, o percurso de Dante em a Divina Comédia. O enredo da viagem é freqüentemente utilizado por permitir que o leitor acompanhe facilmente as peripécias do personagem central, o qual enfrenta suas dificuldades num tempo que costuma ser linear.
Um dos clássicos no gênero, conhecido mundialmente como O Progresso do Peregrino, acaba de ter sua versão integral lançada no Brasil, sob o título O Peregrino/A Peregrina (tradução de Eduardo Pereira e Ferreira; Mundo Cristão; dois volumes, 236 e 215 páginas; 39 reais). Seu autor, John Bunyan, não era exatamente o tipo de homem que seguia o manual do bom comportamento de sua época. Nascido em Bedford, na Inglaterra, em 1628, declarou certa vez: "O pouco que aprendi logo esqueci". Lutou na guerra civil inglesa, casou-se cedo demais, teve uma filha que nasceu cega e, a partir daí, transformou-se em um homem torturado, incapaz de entender por que a mão de Deus era capaz de atingir, sem piedade, uma criança inocente. Em busca de uma explicação, abandonou o emprego na ferraria do pai e começou a trabalhar numa congregação batista. Mas a tragédia parecia persegui-lo: no espaço de dois anos perdeu a esposa e seu principal mentor espiritual. Outros homens teriam, de imediato, abandonado as convicções religiosas. Bunyan agiu de forma oposta. Dedicou-se a pregar a palavra de Deus até o ano de 1660, quando o governo proclamou o Ato de Uniformidade, que colocava como fora-da-lei todas as formas de culto que não estivessem alinhadas com a Igreja Anglicana. Bunyan não aceitou deixar seu ministério, foi preso e permaneceu no cárcere por doze anos.
Quando o autor saiu da prisão, o livro foi publicado e encontrou uma imensa ressonância popular. Seis anos depois, Bunyan publicou a segunda parte, desta vez tendo como personagem central a mulher do herói, que antes havia decidido permanecer em casa. Novo sucesso. Nos dois séculos seguintes, a maior parte das famílias inglesas tinha pelo menos dois livros em casa: a Bíblia e o livro de Bunyan. O autor continua popular até hoje, em lugares com os quais nem sequer sonhou. Quem fizer uma busca na internet encontrará quase 5.000 sites sobre Bunyan, duas vezes mais do que tem o norueguês Jostein Gaarder, autor do best-seller O Mundo de Sofia. O Peregrino/A Peregrina já tinha sido publicado no Brasil, em versões reduzidas que não se preocupavam com a qualidade do texto. A vantagem da atual edição é permitir a análise, de maneira adequada, daquilo que se convencionou chamar de "textos espirituais", que nunca tiveram o lugar que merecem na história da literatura universal. É difícil, por exemplo, que San Juan de La Cruz ou Santa Teresa d'Ávila sejam reconhecidos como escritores, justamente por causa do título que levam diante do nome. Entretanto, seus livros permanecem vivos e influentes, enquanto a quase totalidade de obras literárias editadas no mesmo período desapareceu. A linguagem de Bunyan permanece atual, mas é difícil acompanhar a jornada do personagem principal do início ao fim. Isso porque Cristão (Christian, no original, nome que teria sido mais bem traduzido por Cristiano, evitando assim caracterizá-lo de imediato como alguém que já carrega a santidade na alma) se vê às vezes andando em círculos, e a caminhada torna-se repetitiva. A melhor maneira de ler O Peregrino/A Peregrina é esquecer a trama, abri-lo ao acaso de vez em quando e saborear a forma como os homens expressavam sua busca espiritual no século XVII. Descobriremos que, embora a abordagem tenha mudado, o homem ainda se encontra diante dos mesmos desafios e mistérios. Isso significa que o peregrino até hoje não progrediu até a Cidade Celestial? Pelo contrário: é uma prova de que, apesar de tanto tempo na estrada, não desistimos de seguir adiante. |
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*Paulo Coelho é escritor
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