Divórcio litigioso

Mansur acusa o Bradesco
de quebrá-lo e quer 2 bilhões
de reais de indenização

César Nogueira

Cláudio Rossi
Rogério Montenegro

Mappin (acima): lojas esvaziadas para abastecer a Mesbla
Mansur: ousadia nos negócios e prejuízos para todos os lados

No dia 15 de agosto de 1996 o empresário paulista Ricardo Mansur era um sucesso e uma promessa. Nessa data ele celebrou a compra do Mappin, cadeia de lojas de departamentos muito popular em São Paulo, por 25 milhões de reais. O contrato foi assinado num dos salões do Bradesco, o maior banco privado do país, e o mestre-de-cerimônias foi o próprio presidente do banco, Lázaro de Mello Brandão. Empresários beliscados pela inveja diziam que Mansur tinha a bênção de Lázaro, o que objetivamente significa aval e empréstimos do banco. Hoje, Mansur é um empresário praticamente quebrado. O Mappin fechou há menos de um mês sob 400 pedidos de falência. Seu banco, o Crefisul, foi liquidado em março pelo Banco Central. Não houve dinheiro nem para pagar a última prestação do Mappin, cerca de 12,5 milhões de reais. O Bradesco, na condição de avalista, teve de honrar o papagaio.

"Estamos com um bagaço na mão, muito bem espremido."

Alexandre Alberto Carmona, síndico da massa
falida
do Mappin

Na semana passada descobriu-se que Mansur quer morder a mão de seu ex-padrinho, Lázaro. Em uma ação judicial, ele acusa o Bradesco de ter provocado sua falência e pede indenização. "Com um corte de créditos, o Bradesco deu o golpe de misericórdia em meu cliente", diz o advogado de Mansur, Luiz Roberto de Arruda Sampaio. "O valor que estimamos é superior a 2 bilhões de reais", afirma Mansur. O Bradesco não está exatamente aflito com a ação judicial. É improvável que Mansur ganhe, pois só ao Bradesco ele deve 112 milhões de reais, dinheiro que já foi registrado como prejuízo. "É uma manobra velhaca. Ele quer criar dificuldades para negociar facilidades", rebate o advogado do Bradesco, Sérgio Bermudes. No banco, o sentimento é outro. Há um constrangimento, por ter-se cumprido aquilo que muitos diziam: o Bradesco deixou-se seduzir por um empresário cujos lances envolvem sempre bastante risco.

Mais gente, além do Bradesco, tem razão para mostrar-se constrangida. Mansur, como um trator desgovernado, espalhou destruição por todos os lados. Além de avalizar a compra do Mappin, o Bradesco intermediou, junto com o Banco do Brasil e o BNDES, a emissão de 420 milhões de reais em debêntures da Casa Anglo, controladora do Mappin. O dinheiro serviria para dar sangue bom à nova companhia de Mansur. Fator interessante para medir a desconfiança existente em relação ao empresário: grupos privados não quiseram comprar os papéis. Dos 420 milhões, apenas 148 foram vendidos, e olhe só para quem. O fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal, Funcef, engoliu 32 milhões. O fundo dos Correios (Postalis) ficou com um mico de 10 milhões. O BNDES comprou mais 10 milhões. O próprio Bradesco comprou 70 milhões. Portanto, boa parte do prejuízo acabou ficando com a vítima conhecida, a viúva.

Há mais estrago na conta de entidades públicas. Em março de 1996, Mansur comprou um banco, o Antônio de Queiroz, cujo nome mudou mais tarde para Crefisul. Quem lhe deu dinheiro foi o Banco Central, pelo Proer. Foram 100 milhões de reais. Aliás, o Bradesco também neste caso pingou recursos na cartola do empresário. Emprestou-lhe 15 milhões de reais. Mais tarde, com o Crefisul em má situação, Mansur voltou a socorrer-se do governo. O BC emprestou-lhe mais 100 milhões, como ajuda para equilibrar o caixa. É difícil que receba alguns trocados de volta. Até porque os cofres do liquidado Crefisul estão recheados de ações do falido Mappin, além de créditos contra empresas do semiquebrado Mansur. "O tamanho do rombo ainda não foi apurado", diz Ney Miyamoto, interventor do BC no Crefisul.

A dívida conhecida de Mansur ultrapassa 400 milhões de reais, incluindo cerca de 20 milhões reclamados pelo empresário paulista Abram Szajman, que lhe vendeu 30% das ações do Mappin. Mansur entende o contrário. Está processando Szajman. Quer devolver as ações e pegar de volta os 14 milhões de reais que já pagou. Os 400 milhões são uma estimativa bastante conservadora. Segundo o síndico da massa falida do Mappin, Alexandre Alberto Carmona, a soma passa de 1,2 bilhão. Difícil será extrair algum suco para cobrir parte dessa quantia. A rede de lojas virou uma casca seca, com um ou outro liquidificador nas prateleiras. "Estamos com um bagaço muito bem espremido nas mãos", diz Carmona.

O que fica de tudo isso, para a análise de especialistas em crédito e gestão empresarial, e talvez psiquiatras, é a explosão pirotécnica dos negócios de Ricardo Mansur. Para entendê-la é preciso olhar um pouco para a história desse empresário. Mansur tem 51 anos, é casado, pai de três filhos, fuma charuto, joga pólo, mora em mansão, anda de Rolls-Royce, usa suspensório, viajava de jatinho justamente o avesso do estilo da diretoria do Bradesco. Jamais foi aceito na sociedade paulistana tradicional, por mais que tentasse. Por causa de trocas de tapas com Abilio e Arnaldo Diniz (grupo Pão de Açúcar) foi proibido de entrar na Hípica Paulista. Por isso, construiu seu próprio campo de pólo e importava jogadores argentinos para seus torneios particulares.

Ele gosta de ingleses e de seus hábitos. Tem até sociedade num banco inglês. É dono de 61% do United Trust Bank Limited. A informação já foi passada pelo BC à Receita Federal. Mansur começou a fazer dinheiro em 1966, quando montou uma papelaria com a ajuda do pai. Depois, comprou os laticínios Vigor e Leco, a fábrica de conservas Peixe, conseguiu a franquia no Brasil da Pizza Hut, revendida depois para a própria franqueadora, a Pepsi, com lucro de 14 milhões de dólares. Sua prática era adquirir a empresa geralmente em dificuldades ou envolvida em brigas familiares e pagá-la a longo prazo, com recursos gerados pelo próprio negócio. É o tipo de empresário que usa créditos e recursos alheios para alavancar sua fortuna. Não há nada de mau nisso. O dinheiro que se poupa e que está nos bancos existe exatamente para que se criem empreendimentos. O problema dessa tática é que ela apresenta um alto grau de risco. Aceitável, quando é controlado.

Mansur quebrou porque deu um passo maior do que as pernas. Em 1996, ao comprar o Mappin, adquiriu uma empresa que, se não estava em situação excelente, não tinha grandes problemas. Era a época certa. O forte da companhia era vender eletrodomésticos, televisores, roupas, louças, panelas. Com os primeiros efeitos do Plano Real e a onda de consumo, o Mappin prometia muito lucro. Mas depois veio a ressaca, e as vendas caíram para o subsolo. No ano seguinte, Mansur cometeu o erro. Quando o consumo já estava retraído, ele resolveu ser o rei do varejo. Comprou a Mesbla, rede de lojas parecida com o Mappin, mas que estava praticamente falida, sem crédito, sem estoque e com uma dívida de mais de 300 milhões de reais. Para revitalizar a Mesbla, Mansur usou os recursos do Mappin, do Crefisul e de todos que lhe deram crédito. Era inevitável que a corrente da felicidade fosse para o espaço.

Fotos: Egberto Nogueira

Brandão, do Bradesco (acima): 112 milhões de prejuízo. Szajman: vendeu ações e perdeu 20 milhões

De todos os que se envolveram na salada, o maior incômodo sobrou para o Bradesco. Não só pela questão do prejuízo, mas pela cicatriz deixada no prestígio do banco. Afinal, foi o Bradesco que sustentou os vôos de Mansur de maneira explícita. No dia da compra do Mappin, Lázaro Brandão deixou-se fotografar ao lado do empresário e de Cosette Alves, dona da empresa. Para o mercado, o relacionamento estreito entre Mansur e o Bradesco era interpretado como uma carta de fiança. Embora grande parte dos diretores aprovasse sem críticas os empréstimos, havia resistência, fazia muito tempo. Critica-se agora o fato de o Bradesco ter aceitado 70 milhões de reais em debêntures de Mansur sem tomar garantias reais, coisa que pela cartilha do mercado financeiro só se faz em caso de clientes de grande envergadura e desempenho muito sólido. No momento em que isso aconteceu, o próprio banco admite, não havia informações claras sobre como andava a Mesbla. É um sinal de que o risco assumido pelo banco foi maior do que o razoável. E o pior: pela legislação, o Bradesco será o último a receber, se é que alguém vai receber.

 
 

 




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